Os dados já divulgados pelo IBGE confirmam algumas tendências já conhecidas: a transição demográfica avança para a sua etapa derradeira, e o Nordeste continua a funcionar como pólo de repulsão populacional.
O Censo 2000 estava cercado por grandes expectativas. Em 1990, durante o governo Collor, pela primeira vez desde 1940, foi rompida a periodicidade decenal dos censos demográficos. No ano seguinte, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), carente de verbas e recursos humanos, realizou um censo cambaleante, com resultados duvidosos.
Assim, o “censo do século” tornou-se uma fonte de informações ainda mais importante.
Dessa vez, o trabalho parece ter sido bem feito. O IBGE, cumprindo a sua promessa, já começou a divulgar os resultados preliminares. Contudo, os dados gerais não trouxeram grandes surpresas, confirmando algumas tendências demográficas básicas já detectadas pela Contagem da População de 1996.
Os resultados preliminares indicam que o contingente populacional do Brasil, em 2000, era de quase 170 milhões de habitantes precisamente, 169.590.693 ou uns 23 milhões a mais do que o registrado no censo de 1991. A população total é, aproximadamente, dez vezes maior do que a contada em 1900 e um pouco mais de três vezes a contada em 1950. Ao longo da segunda metade do século XX, a população brasileira foi acrescida de algo como 100 milhões de pessoas quase três vezes a população atual da Argentina.
O incremento demográfico da última década é superior à população total de pelo menos 150 países, dos cerca de 200 do mundo. Nas Américas, apenas seis países Estados Unidos, México, Colômbia, Argentina, Canadá e Peru têm mais que 23 milhões de habitantes.
Mas o incremento absoluto, por mais impressionante que possa parecer, não deve servir para esconder o principal: o ritmo de crescimento demográfico apresenta, nas últimas décadas, expressivo declínio. Aqui, também, o censo confirmou as expectativas. Entre 1980 e 1991, o crescimento demográfico médio anual foi de 1,93%. Entre 1991 e 2000, caiu para 1,63%, o segundo mais baixo desde o recenseamento inaugural de 1872.
A queda acelerada do ritmo de incremento demográfico deve-se à redução do crescimento vegetativo, impulsionada pela diminuição das taxas de natalidade.
Os números indicam que o país ingressou na etapa final da sua transição demográfica. Há um duplo impacto, refletido na pirâmide etária: a redução da participação de crianças e mesmo jovens na população e o aumento da participação dos idosos. A mudança etária tem importantes significados sociais e coloca problemas cruciais, do ponto de vista das políticas públicas de educação, saúde e previdência.
Outra tendência antiga mas, nesse caso, pouco ressaltada foi confirmada pelas informações censitárias: as mulheres são cada vez mais numerosas em relação aos homens. Em média, para cada 100 brasileiras, existem 96,87 brasileiros (esta relação é chamada razão de sexos). Em números absolutos, isso significa que a população feminina total é maior em cerca de 2,7 milhões que a população masculina total. A explicação é conhecida: a expectativa de vida feminina é mais elevada que a masculina.
É interessante notar que, no Brasil, a razão entre os sexos depende do meio. No meio urbano, há aproximadamente 94 homens para cada 100 mulheres.
No meio rural, a relação se inverte: são quase 110 homens para cada grupo de 100 mulheres. Nada disso é surpresa.
As mulheres tendem a migrar em maior número para as cidades, em busca de empregos nos serviços e no comércio. Os homens tendem a migrar em maior número para as fronteiras agrícolas.
As questões regional e urbana
Do ponto de vista regional, a ausência de surpresas se repetiu. Todas as cinco grandes regiões tiveram aumentadas suas populações absolutas, mas a posição delas no ranking populacional do país manteve-se inalterada em relação a 1991.O Sudeste, com pouco mais de 72 milhões de pessoas, continuou sendo a região mais populosa, seguida do Nordeste, Sul, Norte e Centro-Oeste. Os três estados mais populosos continuaram sendo São Paulo (36,9 milhões), Minas Gerais (17,8 milhões) e Rio de Janeiro (14,3 milhões).
Assim como aconteceu no país como um todo, constatou-se uma queda no ritmo de crescimento populacional das cinco grandes regiões. Contudo, as regiões Norte e Centro-Oeste, onde estão situadas as principais fronteiras agrícolas e de recursos do país, apresentaram os maiores índices de incremento demográfico. As demais regiões, justamente as mais populosas, exibiram ritmos de crescimento um pouco inferiores à média nacional. A menor taxa de crescimento demográfico registrou-se no Nordeste, o que reflete a manutenção de um traço estrutural da região: os saldos migratórios negativos.
Também não surpreendeu o crescimento da taxa de urbanização, que era de 75,6% em 1991 e, em 2000, ultrapassou a marca de 80%. As regiões mais urbanizadas continuam sendo, pela ordem, o Sudeste e o Centro-Oeste. As regiões Norte e Nordeste continuaram a registrar as menores taxas de urbanização.
Contudo, todas as informações censitárias sobre a distribuição da população entre os meios urbano e rural devem ser interpretadas com cautela e desconfiança.
O IBGE insiste em utilizar, como critério de classificação da população urbana, as definições municipais das áreas urbana e rural. Isso significa que sedes municipais ou simples distritos com 2 mil habitantes, por exemplo, são classificados sob a rubrica de população urbana. O critério ou, na verdade, a falta de um critério uniforme e objetivo – “produz” urbanização ilusória.
Cabe ao IBGE reformular o critério, adaptando às condições brasileiras os métodos de classificação utilizados na Europa, onde o meio urbano é definido, em função do cruzamento da população absoluta com a densidade demográfica.
Boletim Mundo Ano 9 n° 5
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