por Aiana Freitas
O polêmico muro que o governo de Israel está construindo, desde 2002, para separar seus territórios da Cisjordânia, habitada por muçulmanos, ganhou dois novos inimigos: a Autoridade de Antiguidades de Israel e a comunidade científica internacional. É que na pressa para terminar a obra em Abu Dis, cidade vizinha a Jerusalém, os operários acabaram atingindo um mosteiro de 1500 anos.
Formado por uma igreja, alguns salões externos e um pátio construído em volta de um poço, o mosteiro de Abu Dis é um raro achado do período bizantino, quando Israel era uma terra predominantemente cristã. No local, foram achados restos de uma cripta decorada com cruzes ortodoxas e, na área central, um mosaico de formas geométricas e desenhos de cervos e polvos. Este último foi removido e deverá ser exposto ao público em 2005, quando a pesquisa sobre as descobertas estiverem concluídas.
Bate-boca
“O problema é que iniciaram o trabalho sem nossas instruções”, afirma o arqueólogo Yehiel Zelinger, da Autoridade em Antiguidades de Israel. De acordo com a lei, a Autoridade teria de examinar e mapear o canteiro de obras antes de o trabalho começar. “Se tudo tivesse sido feito sob supervisão”, diz Zelinger, “o acidente poderia ter sido evitado”.
Logo que as ruínas foram encontradas, o Ministério da Defesa de Israel ordenou que os trabalhos fossem interrompidos. Mais de 100 especialistas trabalharam por seis semanas, entre outubro e novembro do ano passado, para analisar o que fosse possível. Reparos e estudos realizados, a construção da barreira foi imediatamente retomada, e deve ser concluída ainda esse ano. Em nota oficial, o governo israelense justifica a obra dizendo que tem o dever de proteger a população – desde setembro de 2000, mais de 800 civis morreram em Israel vítimas de atentados terroristas. Também rebate as acusações de Zelinger dizendo que os arqueólogos haviam, sim, sido avisados sobre as ruínas. “Se os arqueólogos acham que o governo agiu contra a lei, devem registrar queixa na polícia”, diz a nota.
O muro já foi criticado por organizações de direitos humanos do mundo todo. Não faltam acusações de que a obra – com até 6 metros de altura, 250 quilômetros de comprimento, câmeras de vigilância, sensores e arames eletrificados – será uma versão moderna do Muro de Berlim, construído em 1961 para separar a Alemanha oriental da ocidental. A Autoridade Palestina também protesta contra a obra. Ela reclama do que chama de “apropriação de terras”, uma vez que a construção vai fazer com que fiquem do lado de dentro de Israel colônias anexadas pelo país há alguns anos, mas ainda reconhecidas internacionalmente como pertencentes à Cisjordânia.
“O potencial arqueológico da região é impossível de ser avaliado”, diz o historiador e arqueólogo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Francisco Marshall, coordenador de um projeto de escavações na cidade israelense de Apollonia, numa parceria com a Universidade de São Paulo e a Universidade de Tel-Aviv. Ou seja: enquanto os três lados se debatem, nada impede que o muro passe por cima de outros tesouros arqueológicos.
Aventuras na História Edição 005 Janeiro de 2004
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