O professor Milton Santos sublinha o papel dos Estados na globalização da economia, defende uma política cultural para o Mercosul e critica a prova de Geografia da Fuvest de 1995
Demétrio Magnoli
Editor de Geografia e Política Internacional
Milton Santos, Professor Titular na universidade de São Paulo, foi o ganhador do Prêmio Vautrin Lud, concedido no final de 1994 no Festival Internacional de Geografia, evento multimídia realizado em St. Dié (França). O prêmio corresponde a um Nobel de Geografia e coroa a carreira de um intelectual criativo, que semeou idéias capazes de influenciar os estudos sobre a urbanização contemporânea e redimensionar conceitos cruciais de geografia, como os de espaço, território e região.
Nascido em maio de 1926 em Brotas de Macaúba, no sertão da Bahia, Milton Santos lecionou em Universidades da França, Canadá, Peru, Venezuela, Tanzânia e Estados Unidos. Atuou como consultor junto aos governos da Argélia e Guiné-Bissau e também em programas da ONU, OEA e Unesco. Publicou mais de 30 livros e 200 artigos em revistas científicas em português, francês, inglês e espanhol. Entre as suas obras mais importantes encontram-se O Espaço Dividido (Francisco Alves, 1979), Por Uma Geografia Nova (Hucitec, 1980) e A Urbanização Desigual (Vozes, 1982).
Analisando a prova de Geografia da Fuvest de 1995, o senhor observou que ela se limita a estabelecer relações entre quadro sócio econômico e o natural, praticamente ignorando a história na produção do espaço geográfico. Como se dá essa relação entre história e a geografia?
Milton Santos: A história entra pelas coisas que o homem produz, pelos objetos que o homem produz, isto é, pelo novo espaço que o homem elabora, pelas modificações que nanceiros e sociais para atualizar o território da Alemanha Oriental, ou como a Europa Ocidental investe somas enormes para atualizar o território da Espanha e de Portugal. Então, não há supressão do território ou do Estado, que é quem organiza o território para a globalização.
Em recente entrevista à revista Veja, o senhor fez um comentário instigante sobre o Mercosul. Disse que está se conferindo excessiva importância à integração econômica e pouco se fala sobre a cultura. A cultura é uma chave para a integração regional?
Milton Santos: Eu creio que é a chave. Não sei se vale a pena olhar outra vez para a Europa para ver o grande número de projetos deliberadamente estabelecidos, seja para integrar culturalmente esses países, seja para uma defesa do mercado quando os europeus decidem resistir à entrada da produção cultural norte-americana. Mas o mais positivo encontra-se no relacionamento entre intelectuais, professores e jovens. A idéia central é, de alguma maneira, repetir o que se via na idade Média, quando um terço dos estudantes perambulavam pelas universidades da Europa, buscando aqueles professores com quem queriam aprender. Isso também se dá na televisão, através de programas comuns, nos jornais e revistas, com projetos compartilhados, e isso prossegue com a aceitação internacional dos diplomas.
Os europeus sabem que a porta de entrada do comércio é a cultura. Nenhum conquistador moderno desembarca antes de fazer desembarcar um intelectual. Os próprios Estados Unidos desembarcaram na África pelos jazzistas, pelo blues, antes mesmo de fincarem os pés através do comércio.
Entrevista exclusiva: uma forma de dizer que o território não tem importância e, portanto, o seu correlato, o Estado, também não tem importância. Porém, a melhor prova da importância dos Estados é o papel desempenhado pelos mercados comuns, que aparecem como algo indispensável das grandes empresas. Os mercados comuns são emanações dos Estados:
o Nafta é uma emanação dos Estados, a EU é uma emanação dos Estados e o Mercosul é uma emanação dos Estados. Os Estados se reúnem para estabelecer normas comuns, aceitáveis pelas diversas partes, normas que interessam às grandes empresas. Dizer que o Estado deixou de ser importante é jogar com as palavras, sobretudo porque o Estado se tornou mais importante do que antes como organizador do território. Se tomarmos a Europa, por exemplo, observamos como a Alemanha aceita uma enorme quantidade de problemas fiele acrescenta à natureza produzindo um quadro de vida. Isso tudo vai incidir sobre a nova história e vai se integrando a ela. Na realizada, o que está em jogo é mais uma história que foi feita e uma história que está se fazendo.
A história que foi feita inclui o espaço, e a história que está se fazendo não pode ignorar esse espaço.
Atualmente, fala-se muito dos fenômenos da globalização da economia e freqüentemente se produz a impressão de que vivemos na célebre “aldeia global”. É como se a política não contasse mais ou, dito de outra forma, como se o Estado tivesse perdido o controle do seu território e as fronteiras políticas fossem irrelevantes. Qual o lugar da política na geografia, no mundo contemporâneo?
Milton Santos: Criaram-se palavras novas como “desterritorialidade”, que é uma forma de dizer que o território não tem importância e, portanto, o seu correlato, o Estado, também não tem importância. Porém, a melhor prova da importância dos Estados é o papel desempenhado pelos mercados comuns, que aparecem como algo indispensável das grandes empresas. Os mercados comuns são emanações dos Estados: o Nafta é uma emanação dos Estados, a EU é uma emanação dos Estados e o Mercosul é uma emanação dos Estados. Os Estados se reúnem para estabelecer normas comuns, aceitáveis pelas diversas partes, normas que interessam às grandes empresas. Dizer que o Estado deixou de ser importante é jogar com as palavras, sobretudo porque o Estado se tornou mais importante do que antes como organizador do território. Se tomarmos a Europa, por exemplo, observamos como a Alemanha aceita uma enorme quantidade de problemas financeiros e sociais para atualizar o território da Alemanha Oriental, ou como a Europa Ocidental investe somas enormes para atualizar o território da Espanha e de Portugal. Então, não há supressão do território ou do Estado, que é quem organiza o território para a globalização.
Em recente entrevista à revista Veja, o senhor fez um comentário instigante sobre o Mercosul. Disse que está se conferindo excessiva importância à integração econômica e pouco se fala sobre a cultura. A cultura é uma chave para a integração regional?
Milton Santos: Eu creio que é a chave.
Não sei se vale a pena olhar outra vez para a Europa para ver o grande número de projetos deliberadamente estabelecidos, seja para integrar culturalmente esses países, seja para uma defesa do mercado quando os europeus decidem resistir à entrada da produção cultural norte-americana. Mas o mais positivo encontra-se no relacionamento entre intelectuais, professores e jovens. A idéia central é, de alguma maneira, repetir o que se via na idade Média, quando um terço dos estudantes perambulavam pelas universidades da Europa, buscando aqueles professores com quem queriam aprender. Isso também se dá na televisão, através de programas comuns, nos jornais e revistas, com projetos compartilhados, e isso prossegue com a aceitação internacional dos diplomas.
Os europeus sabem que a porta de entrada do comércio é a cultura. Nenhum conquistador moderno desembarca antes de fazer desembarcar um intelectual. Os próprios Estados Unidos desembarcaram na África pelos jazzistas, pelo blues, antes mesmo de fincarem os pés através do comércio.
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