sábado, 1 de janeiro de 2011

Batalha de Antietam: Sangue de Irmãos

A vitória do Norte na Batalha de Antietam, em 1862, causou a morte de 6 500 soldados e mudou o rumo da Guerra Civil Americana
por Beto Guimarães
Responda rápido: qual a data mais sangrenta da história americana? Se você respondeu 11 de setembro de 2001, acertou o mês, mas errou o dia e o ano. Os atentados terroristas em Nova York e Washington mataram 3 051 pessoas, nascidas em vários países. Já em 17 de setembro de 1862, mais de 6 500 americanos morreram e 15 mil ficaram feridos na Batalha de Antietam (nem no Dia D, a invasão da Europa pelos aliados na Segunda Guerra, morreram tantos americanos), durante a Guerra Civil Americana, conflito que envolveu 3 milhões de pessoas – cerca de 10% da população dos EUA na época – e vitimou mais de 600 mil, entre 1861 e 1865.
A importância de Antietam, no entanto, não se resume a números superlativos. Em Crossroads of Freedom: Antietam (“Encruzilhada da Liberdade: Antietam”, ainda sem versão em português), James M. McPherson defende a tese de que essa batalha foi o momento mais importante da guerra. “Ela marca o momento em que o conflito tornou-se uma luta pelo fim da escravidão”, diz McPherson, talvez a maior autoridade mundial no assunto, ganhador do prêmio Pulitzer por Battle Cry for Freedom: The Civil War Era (“Grito de Liberdade: a Era da Guerra Civil”, também inédito no Brasil). Para sustentar seus argumentos, no entanto, o autor faz uma viagem aos antecedentes do conflito.
Na campanha presidencial de 1860, o então candidato Abraham Lincoln (1809-1865) declarou: “O governo não resiste para sempre em um país metade livre, metade escravista”. Na eleição de 6 de novembro, Lincoln foi eleito com 180 dos 303 votos do colégio eleitoral e 40% de apoio popular. Quando assumiu o governo, em 4 de março do ano seguinte, o país encontrava-se em avançado processo de desintegração.
E as primeiras medidas de Lincoln só pioraram as coisas. Ele aumentou as taxas de importação para garantir a competitividade da indústria nacional, o que teve impacto imediato e desastroso sobre a economia dos estados do Sul, baseada na agricultura e dependente dos produtos trazidos de fora. Do dia para a noite, tudo se tornou muito mais caro. A promessa de Lincoln de abolir a escravidão certamente geraria conflitos no futuro, mas foram as elevações de impostos que levaram à reação separatista.
Em 20 de dezembro, a Carolina do Sul decidiu tornar-se independente. Em menos de dois meses, outros seis estados (Mississípi, Flórida, Alabama, Geórgia, Louisiana e Texas) tomaram o mesmo rumo. Em 9 de fevereiro de 1861, os sete formaram os Estados Confederados da América, cujo primeiro, único e efêmero presidente foi Jefferson Davis (1808-1889), ex-oficial do Exército americano e herói da Guerra do México. Os confederados exigiram reconhecimento de sua independência. Lincoln sequer teve tempo de negociar. Em 12 de abril, tropas do Sul atacaram e conquistaram o Forte Sumter, em Charleston, Carolina do Sul. Era o início da Guerra de Secessão.
Numa tentativa de estancar o conflito, Lincoln promoveu o bloqueio dos portos do Sul, com o objetivo de dificultar o abastecimento dos estados separatistas. Mas a medida inviabilizava a exportação de algodão e Lincoln não queria abrir mão dos tributos pagos pelos estados confederados, que financiavam grande parte dos gastos governamentais. O tiro saiu pela culatra. Quatro outros estados aderiram à Confederação – Virgínia, Arkansas, Tennessee e Carolina do Norte – e a guerra se alastrou. De um lado, os confederados, que adotaram Richmond, na Virgínia, como capital: 11 estados, com 9 milhões de habitantes, dos quais 4 milhões eram escravos; uma economia rural, baseada no sistema de plantation (monocultura latifundiária exportadora com mão-de-obra escrava). Do outro, a União: 21 estados, população de mais de 20 milhões de pessoas; uma economia industrial, baseada no trabalho assalariado, em processo de urbanização e praticamente sem escravos. Sim, porque havia escravos também na União.
Dezessete estados do Norte haviam abolido a escravidão, a começar por Rhode Island, em 1774. Mas em Washington, por exemplo, negros livres e escravos coexistiam. De acordo com o censo de 1860, havia na capital 11 131 negros livres e 3 185 escravos.
A União caminhava para o fim da escravidão, porém, ainda que o movimento abolicionista surgido em 1831 contasse com forte apoio popular, a questão estava longe de ser um consenso no Norte “civilizado”. Em 1861, a Guerra de Secessão não era um conflito que objetivava pôr fim à escravidão. Tratava-se apenas de uma iniciativa militar para retomar o controle (e os impostos) dos estados confederados.
A questão escravagista não era consenso, tampouco fundamental na escolha dos principais líderes militares do conflito. O general Robert Lee (comandante das tropas do Sul) era contra a escravidão. George McClellan, um dos maiores generais da União, era a favor ou, pelo menos, a tolerava.
O reconhecimento externo da “nação confederada” poderia decidir a sorte do conflito. E, por isso, no campo diplomático travava-se uma verdadeira batalha: enviados do Norte e do Sul buscavam na Europa o apoio de França e Inglaterra, as principais potências da época. A preferência francesa pelos confederados era notória. Na Inglaterra, a causa da independência também ganhara apoio popular – mas não por motivos humanitários. As plantations forneciam o precioso combustível para a revolução industrial: cerca de 80% do algodão que alimentava a indústria têxtil inglesa era produzido nos estados que declararam independência. Com o embargo, a matéria-prima simplesmente não chegou às fábricas, que empregavam mais de 1,5 milhão de pessoas. A escassez provocou desemprego em massa e grave recessão. E, de quebra, arregimentou apoiadores para a causa separatista.
Ainda assim, o primeiro-ministro inglês Viscount Palmerston (1784-1865) hesitava em intervir na briga e reconhecer a independência do Sul. Ele sabia que isso significaria romper relações com Washington. Mas o principal obstáculo para um apoio ao Sul, sem dúvida, era a escravidão. A Inglaterra era publicamente contra. Para o primeiro-ministro, uma interferência inglesa numa questão interna dos EUA só deveria ocorrer quando o triunfo sulista estivesse assegurado. E isso finalmente parecia decidido em agosto de 1862. Os confederados vinham de uma série de triunfos e haviam humilhado as tropas da União na Batalha dos Sete Dias, em que as forças do Norte tentaram tomar Richmond e foram repelidas. Agora, o Exército confederado marchava rumo a Washington. A independência do Sul era dada como certa.
Ação em Antietam
No início de setembro, as tropas da Confederação, lideradas pelo general Robert Edward Lee (1807-1870), cruzaram o rio Potomac em direção a Maryland, um dos quatro estados fronteiriços que permaneciam neutros (Kentucky, Delaware e Missouri eram os outros). Dono de uma brilhante carreira militar, Lee era um cidadão da Virgínia que havia sido convidado por Lincoln para comandar a União, mas que preferira combater ao lado dos sulistas. Após colecionar vitórias, ele tinha certeza de que um novo êxito bastaria para selar o destino da guerra.
O grande estrategista foi traído por sua sede de vitórias. Lee não percebeu o perigo que representava a combinação de sucessivas batalhas, alimentação deficiente e três semanas de caminhada. Muitos de seus homens simplesmente morreram no caminho. E o que sobrou de seu exército chegou em frangalhos ao outro lado do Potomac. De acordo com relatos da época, os confederados pareciam mendigos: descalços, com roupas rasgadas e famintos. O general achava que seria recebido como herói em Maryland, acreditando que a população local sentia-se oprimida pela União. A recepção foi fria, mais hostil que amistosa.
Se o general Lee estava disposto a ir para o tudo ou nada, Lincoln também sabia que apenas uma incontestável vitória em Maryland poderia reverter o panorama da guerra. O presidente sofria pressões para substituir o general George Brinton McClellan (1826-1885), que ocupava o posto de comandante do exército do Potomac. McClellan era um democrata e, portanto, visto com desconfiança pelo governo (diz-se inclusive que ele tolerava a escravidão). Apesar disso e mesmo considerando McClellan “frouxo” demais para a missão, Lincoln reconhecia nele o extremo carisma e senso de liderança que exercia sobre seus homens. E foi nisso que ele resolveu apostar.
Antietam Creek é um afluente do Potomac (creek, em bom português, significa “riacho”). A pacata Sharpsburg, com 1 200 habitantes, era a cidade mais próxima e estava ocupada por tropas do Sul. Ao amanhecer do dia 17, os exércitos do Norte atravessaram o Antietam e menos de 1 quilômetro adiante foram recebidos a bala. O confronto se estendeu até o fim do dia. Havia 75 mil homens da União na região contra 36 mil confederados. Apesar da estratégia de a McClellan ser mesmo hoje considerada conservadora, ainda assim foi uma carnificina terrível. O relato de sobreviventes diz que, no campo de batalha, era possível caminhar sem encostar os pés no chão, tamanha era a quantidade de corpos que cobriam a grama. Em suas memórias, o major Rufus Dawes, de Wisconsin (União), registrou a insanidade daquele dia: “Os homens carregavam suas armas e atiravam com fúria demoníaca, gritando e gargalhando histericamente. Os rebeldes tentavam fugir e eram atingidos pelas costas, na tentativa de pular muros ou se esconder na mata”. McClellan poderia ter dizimado o exército de Lee, como Lincoln desejaria. Contava com um exército mais numeroso e muito mais bem equipado. Mas, em vez de perseguir o inimigo até sua rendição incondicional, preferiu agir com cautela. Avançou seus homens e conquistou todas as posições que desejou, não chegando, para isso, a colocar mais de 20 mil homens em combate ao mesmo tempo. Lee bateu em retirada, em direção à Virgínia. O dia mais sangrento da história americana poderia ter sido uma matança ainda maior.
Em Antietam, Lincoln não obteve a vitória de seus sonhos. Porém, com a repercussão do êxito da União, foi possível reverter a tendência de separação do Sul. Com isso, conseguiu reunir o apoio de que necessitava para transformar a Guerra de Secessão em uma luta contra a escravidão. No dia 22 de setembro (apenas cinco dias depois de Antietam), Lincoln assinou o Ato Preliminar de Emancipação dos Escravos. O documento era quase simbólico, já que a abolição só seria oficializada em 6 de dezembro de 1865, sete meses depois do fim da guerra, mas teve uma tremenda repercussão internacional. A partir daí, o Sul estaria isolado e o destino dos Estados Unidos, como uma nação livre e indivisível, estava selado.


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