“Nosso navio está afundando...”
“Povos civilizados do mundo... Nosso navio está afundando. A luz começa a falhar. As sombras tornam-se cada vez mais escuras sobre o solo da Hungria”. Há 40 anos, em novembro de 1956, esse apelo radiofônico emitido de Budapeste assinalava o início do bombardeio da capital pelo Pacto de Varsóvia. Terminava tragicamente o “outono democrático” húngaro, que tentou, pela primeira vez na Europa do leste, associar o socialismo aos direitos políticos.
Como ocorreria novamente na Tchecoslováquia, na primavera de 1968, as reformas partiram da cúpula do Partido Comunista, inspiradas pelo líder Imre Nagy e pela crença em tempos menos sombrios, após a morte do ditador soviético Josef Stalin, em 1953. A ascensão de Nikita Khruschev na URSS, com a sua campanha de “desestalinização”, alimentava as esperanças em um novo começo para os Estados do bloco soviético. Na Hungria, os reformistas ousaram detonar um dos alicerces do totalitarismo soviético, suprimindo o princípio do partido único. O historiador Eric Hobsbawm assegura que não foi esse o motivo da invasão, mesmo que a decisão tenha enfurecido os dirigentes de Moscou.
Os húngaros ultrapassaram o limite ao anunciar a retirada do Pacto de Varsóvia. Criada apenas um ano antes, a organização militar cristalizava a tutela da URSS sobre o Leste europeu e demarcava a esfera de influência de Moscou na Europa. A decisão húngara, assentada sobre o princípio da soberania nacional, ameaçava deflagrar uma reação em cadeia, desintegrando o bloco geopolítico que acabava de se estruturar. Na Polônia, uma liderança reformista menos ousada seguia com atenção os desdobramentos da revolução húngara. A invasão ordenada por Khruschev definia os limites da “desestalinização”, reafirmando o controle soviético sobre os territórios que configuravam as fronteiras estratégicas da superpotência, no auge da Guerra Fria.
A resistência desesperada de Budapeste deixou um saldo de 20 mil mortos e 160 mil exilados. Imre Nagy e seu ministro da Defesa, o general Pál Maléter, foram presos e fuzilados dois anos mais tarde. Heróis trágicos, tornaram-se mártires nacionais e símbolos de uma época de chumbo.
Boletim Mundo Ano 4 n° 4
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