Cláudio Camargo
Manhã de uma sexta-feira de junho. O Ilyushin IL-96 pousa suavemente no aeroporto Cheremetievo, em Moscou. Ao chegar à Rússia para cobrir a eleição presidencial, eu já esperava encontrar um país dilacerado entre o capitalismo selvagem do presente e a herança burocrática do passado comunista. Mas eu não tinha idéia de como isso se refletia no cotidiano das pessoas.
O contato com a realidade russa começa já no vôo da Aeroflot, a empresa aérea do país. A viagem, de 18 horas, não é nada confortável, e o serviço de bordo teria que melhorar muito para ser considerado lastimável. Ao desembarcar, tenho a sensação de ter pousado na Bolívia. O aeroporto, mal-iluminado, com instalações deterioradas, transmite sensação de abandono e decadência. Na alfândega, a policial olha desconfiada para o passaporte brasileiro. Confere a foto, verifica o visto um papel separado, em duas vias, com foto em cada uma. Faz perguntas em russo. Arrisco o inglês. Inútil.
Ela sai para confabular com a chefe, que também examina tudo. Entram numa salinha. Quase meia hora depois, resolvem me liberar, tão inexplicavelmente como me seguraram.
No controle de bagagens, um sujeito mal encarado mostra um papel amarelado que, deduzo, devo preencher. Detalhe: o documento está em russo e o burocrata é monoglota. Começo a me desesperar, até que, felizmente, uma boa alma explica, em inglês, que naquele documento deveria declarar a quantidade de dinheiro e os bens que trouxera comigo. Disse que tinha US$ 2.000. “Então, você tem que preencher outro formulário”, esclarece a senhora. À beira de um ataque de nervos, fico sabendo que não precisaria preencher documento algum, porque não porto dinheiro vivo, apenas cheques de viagem.
No percurso do aeroporto ao hotel já se notam os contrastes da Rússia pós-comunista. Alguns reluzentes BMWs e Cherokees transportam os novos milionários, enquanto os mortais andam de tróleibus caindo aos pedaços ou em velhos Ladas.
Ao chegar ao hotel Moskva, ao lado do Kremlin, deparo-me com uma cena emblemática: uma velhinha pede esmolas em frente ao chiquérrimo restaurante Maxim’s. O hotel Moskva é um símbolo da velha URSS. Concluído em 1935, na época de Josef Stálin, foi um orgulho do regime comunista.
O edifício é imponente, feio e tem dois saguões enormes. O hotel cheira a mofo. A burocracia é infernal. Entrego o passaporte para registro e sou informado de que somente poderia retirá-lo no dia seguinte. Não adianta explicar que preciso do documento para trocar dinheiro. “Nyet!” (não!), diz a funcionária. Feito o registro, recebo um cartão e a advertência de que não poderia perdê-lo em hipótese alguma, caso contrário não conseguiria sequer entrar no prédio.
Para fazer câmbio, tenho que ir ao hotel Intourist, a poucos passos do Moskva. É um quatro estrelas, mas igualmente kafkiano. Ninguém sabe informar o horário de abertura do banco.
A duras penas, descubro que o banco abre às 10 da manhã, mas também poderia abrir às 11. Tudo depende da vontade do funcionário. Mas, se o horário de abertura não é certo, pode apostar que às 12h30 em ponto o guichê fechará para almoço, até 14h30. A simples troca de cheques de viagem nunca dura menos que meia hora. E dificilmente se consegue trocar notas de dólares por rublos sem dor de cabeça. Quase sou preso quando o funcionário cisma que uma cédula de US$ 100 é falsa. Mais tarde, descubro que a face capitalista desses hotéis se revela nas prostitutas que estão à disposição da freguesia nos saguões, à vista dos seguranças. As mais saidinhas batem no quarto do hóspede, pedem cigarro e se oferecem. O preço varia entre US$ 150 a US$ 300.
A reportagem de rua começaria no coração de Moscou, a Praça Vermelha. Não resisto, porém, à curiosidade de conhecer, antes de tudo, o mausoléu de Vladimir Lênin, o fundador do Estado soviético, que fica na praça, em frente às muralhas do Kremlin, e continua sendo uma atração turística. No sábado, ao fazer a peregrinação com o fotógrafo Carlos Fenerich, encontro a praça fechada. Sou, então, obrigado a fazer um longo contorno para chegar ao mesmo lugar, só que pelas laterais. E, como a região está em obras, o desvio é um teste de paciência. Nenhuma placa, ninguém sabe informar nada. O que seria uma caminhada de alguns passos se transforma numa volta de quase uma hora.
Finalmente, na entrada do mausoléu, guardas revistam a bagagem e dizem não ser permitido portar câmeras. Mas onde guardar as câmeras? “Eta probliem” (é um problema), diz o guarda.
Soube, depois, que há um local nas proximidades exatamente para guardar câmeras.
Lênin foi embalsamado em 1924 e está num caixão de vidro iluminado. Caminhando no interior escuro do mausoléu, os visitantes vêem a múmia de três ângulos diferentes. Não se pode parar, sob pena de ser empurrado pelos guardas. Eu conhecia aquela múmia através de fotos, mas a sensação que experimento ao vê-la ao vivo e em cores - pálidas - é tenebrosa. Parece um boneco de cera. Sua mão direita está cerrada, como se tivesse ido desta para melhor fazendo a saudação comunista. Na verdade, a mão fechada é conseqüência do derrame que ele sofreu aos 52 anos. À saída, perturbado, o fotógrafo começa a fumar um cigarro e, nervosamente, o joga no chão. Por pouco não é detido: um guarda o agarra pelo braço e, aos berros, o obriga a tirar a bituca dali.
Passado o susto, saímos pela rua Arbat - a mais famosa e badalada de Moscou , acompanhados de Gala, nossa intérprete.
Encontramos dois jovens num barzinho simpático que conversavam em meio a petiscos e garrafas de vodka. Vladimir e Valério, ambos de 24 anos, são representantes típicos dos “novos russos”, pequenos empresários que surgiram depois do colapso do comunismo.
Eleitores convictos do presidente Boris Yeltsin, os dois revelam fé cega no vigor juvenil para aproveitar as possibilidades abertas com as reformas capitalistas. Os dois juram que estão desempregados, mas é difícil acreditar. Estão bem vestidos, comem e bebem sem a menor preocupação.
Umas vodkas a mais e revelam que trabalham com importação de alimentos de procedência ocidental.
Mais algumas doses e deixam escapar que exercem suas atividades ilegalmente, para fugir aos impostos. Mas não há vodka que os faça falar em cifras.
Temos contato com uma parte do universo juvenil da Rússia, numa entrevista com as colegiais Tatiana e Vitória, ambas de 22 anos. Aparentemente, elas são iguais em costumes e sonhos a muitos jovens ocidentais. Adoram música pop e danceterias. Esperam conseguir um bom casamento “para poder educar bem os filhos”. Tatiana, que se veste à Madonna, defende a liberdade sexual e diz que usa preservativos por ter medo da Aids. Mas ela é radicalmente contrária ao aborto. A questão das drogas é um pretexto para que a xenofobia venha à tona: “O excesso de influência ocidental acaba pervertendo a juventude”, diz Tatiana, num discurso que orgulharia qualquer militante da extinta Juventude Comunista.
Em Moscou, a máfia é onipresente. Seus negócios abrangem extorsões, prostituição, narcotráfico, contrabando. Mesmo um modesto empresário pode, facilmente, tornar-se alvo de extorsão dos mafiosos.
Natacha Suslova, por exemplo, uma intérprete da agência estatal de turismo Intourist, é fluente em cinco idiomas e poderia abrir seu próprio negócio, mas prefere continuar como assalariada. “Não quero me envolver com a máfia. Teria que pagar taxas e esse é um jogo que você nunca sabe como vai acabar”. As máfias controlam também atividades “respeitáveis”, como redes de táxis na capital russa, principalmente os que atuam nos aeroportos, estações ferroviárias e grandes hotéis. Mas como a demanda por táxis é grande, muito motorista particular aproveita para ganhar um dinheirinho com seu próprio carro. Se o freguês precisa de um táxi, basta estender a mão para um carro – qualquer um. Em 90% dos casos, o motorista vai parar e levar a pessoa ao local desejado por um precinho módico.
Afinal, um táxi controlado pela máfia não sai por menos que US$ 15. No caso dos táxis “informais”, a corrida fica entre US$ 2 e 6.
Além das máfias, os mortos continuam perturbando o sono dos vivos desse estranho país. Isaiev Basili, 72 anos, herói condecorado da Segunda Guerra, diz que é patriota e que tem orgulho do passado, mas que Stálin era um criminoso. “Apóio as reformas, pois não quero a volta do terror e dos campos de concentração”, disse. Já a professora Larissa Andreievna tem nostalgia do comunismo. “Vocês falam em liberdade.
Mas que liberdade têm os trabalhadores agora?
Liberdade de serem explorados?” Que fazer? Na nova Rússia, o passado, como Lênin, continua insepulto.
Boletim Mundo Ano 4 n° 4
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