Newton Carlos
Enquanto se aproxima uma catástrofe humana, Washington debate estratégias para a península dividida
No começo de abril, altos funcionários das duas Coréias, a do sul e a do norte, apertaram as mãos num hotel de Nova York. Sorrisos largos abriam publicamente, diante de fotógrafos e câmeras de televisão, entendimentos visando a encerrar formalmente o último grande conflito da falecida Guerra Fria, por meio de negociações reunindo os quatros países (Estados Unidos e Coréia do Sul de um lado, China e Coréia do Norte do outro) que guerrearam entre 1950 e 1953. O “estado de beligerância” permanece até hoje e a disposição anunciada é a de assinar uma “paz verdadeira”, sepultando disputas que mataram e feriram quatro milhões, e quase levaram o mundo a uma terceira guerra.
Mas os primeiros “contatos de trabalho” comprimiram o otimismo. A conferência quadri partite deve acontecer, segundo programação acertada em princípio, no segundo semestre. A Coréia do Norte acusa os Estados Unidos e a Coréia do Sul de quererem forçar reformas em seu sistema econômico e político usando como arma ajuda em alimentos. O “surto da fome” entre norte-coreanos tem sido visto, de fato, como fator que pode até levá-los a uma capitulação disfarçada. A ONU fez um apelo para que a comunidade internacional ajude a Coréia do Norte com pelo menos US$126 milhões que contribuam para evitar a “fome iminente” e uma “catástrofe humanitária”. O país só tem 18% de terras aráveis e as inundações de 1995 e 1996 afetaram sobretudo as regiões que mais produzem cereais. Há déficit de mais de dois milhões de toneladas.
A perda do petróleo da antiga União Soviética imobilizou tratores e fábricas de fertilizantes. Em 1994 a Coréia do Norte, sob pressão da escalada de dificuldades internas, firmou com os Estados Unidos acordo sem precedentes nos anais da diplomacia nuclear, aceitando congelar seu programa atômico e submetê-lo a controle internacional, tendo em vista acusações de que desenvolvia armas de destruição maciça, em troca da retirada gradual das sanções econômicas americanas, como primeiro passo na direção da normalização. É o que estabelece o segundo artigo, nunca cumprido, segundo os norte-coreanos. Foi apenas levantada a proibição de venda de uma única matéria-prima, o magnésio, e dada permissão à americana AT&T para instalar comunicações por fax e telefone.
A General Motors quer instalar uma fábrica de componentes para carros e não consegue autorização da administração Clinton.
São poucas as empresas dos Estados Unidos interessadas na Coréia do Norte, mas o fim das sanções poderia estimular investimentos de outros, como Alemanha, Japão e “Tigres asiáticos”. Curioso é que essa “estratégia de pressão” enfraquece os moderados da hierarquia reinante, empenhados em conseguir reformas. Muito mais por velhice e mortes, há uma troca de gerações no poder e ela poderia ser estimulada por Kim Jongil, filho e sucessor de Kim Il-sung, ainda não formalmente entronizado no cargo. A ida a Davos, na Suíça, para o Foro Mundial de Economia, de representante da Coréia do Norte, já significou mudanças. Ele acenou com “reformas iminentes que desenvolvam relações estreitas com economias capitalistas” e citou o “tormento da falta de alimentos” como “motor de transformações”.
Isso resultaria em prioridade ao comércio, transição da indústria pesada à ligeira e criação de zonas econômicas especiais, com incentivos fiscais que atraiam investimentos estrangeiros, mais ou menos à la chinesa. A primeira zona especial seria ao norte, de cara para o Mar do Japão. A deserção de Hwang Jang-yop, o sétimo na hierarquia de poder, trouxe implícita a mensagem de que a luta entre moderados e a linha dura se acirrava. Os protestos de norte-coreanos nos primeiros “contatos de trabalho” das negociações mostraram que essa disputa está longe de se resolver e a “estratégia de pressões” dos Estados Unidos pode acabar revitalizando os duros.
Recentemente na Coréia do Sul a secretária de Estado americana, Madeleine Albright, reiterou que o acordo de 1994 será cumprido. Acontece que um dos negociadores desse acordo, Selig Harrinson, esteve há pouco na capital norte-coreana e sentiu o desespero dos “pragmáticos” com o que chamam de “atitude imperial” dos Estados Unidos.
Os americanos se debatem entre duas posições. De um lado, há os que pensam que o colapso da Coréia do Norte é inevitável, prevêem que o sul absorverá o norte, como a Alemanha Ocidental engoliu a Oriental, e dizem que ajudar a Coréia do Norte a superar seus problemas de fome e econômicos simplesmente adiará o colapso e não convém adiá-lo. É posição do general Gary Luck, ex-comandante das forças da ONU e dos Estados Unidos na Coréia do Sul. Mas a opinião de Harrinson é a de que “é improvável que a Coréia do Norte imploda ou exploda em futuro previsível”.
O mais provável é uma perigosa erosão, se os americanos e seus aliados insistirem na política de cerco.
Riscos de onda de refugiados, boat people na direção do Japão, e conflitos civis Unicapazes de desaguar em confrontos militares envolvendo forças dos dois Estados coreanos. Uma absorção, lembra Harrinson, pode custar ainda mais do que custou a bilionária engolida da parte oriental alemã. Uma segunda posição, com assento no Departamento de Estado, sustenta que a Coréia do Norte poderá sobreviver de modo aceitável com liberalização econômica análoga à da China pós-Mao.
Essa posição acaba de sofrer duro ataque por parte do secretário de Defesa, William Cohen, que fez convite “à prudência” no envio de ajuda alimentar à Coréia do Norte. “São militarmente perigosos, têm condições de a qualquer momento alvejar a Coréia do Sul com foguetes Scud e podem não ser sinceros quando falam em paz”, disse Cohen, um republicando colocado por Clinton no Pentágono como pivô de política de convergência.
A inclusão da China nas negociações foi determinada pelo fato de que ela participou da guerra e favorece o Departamento de Estado. Os chineses dão lições de “pragmatismo” e podem exportá-las para um vizinho sob influência direta e dependente de ajuda.
Coreanos entre a frigideira e o fogo
Na Coréia do Sul, o liberalismo econômico combina-se com um regime autoritário e corrupto, que reprime com violência manifestações pela democracia . Em 1996, os ex-presidentes Chun Doo-Huan e Roh Tae-Woo foram condenados à morte, acusados de terem articulado um golpe sangrento, em 1979, e ordenado o massacre de 193 pessoas, em 1980. Suas penas foram reduzidas, em agosto de 1996, depois de confessar terem recebido algo em torno de US$ 500 milhões, graças à corrupção.
Na Coréia do Norte, o regime socialista de partido único, criado em 1948, instituiu o culto à personalidade do líder. Kim Il-Sung, no poder desde 1948 até sua morte, em 1996, era cultuado como uma espécie de semi-deus. Em 1990, Kim Il-Sung nomeou o seu filho, Kim Jong-il, para sucedê-lo. Reproduzimos, ao lado, dois trechos de discursos divulgados pela Rádio Central da Coréia do Norte (RCCN), que ilustram como era a prática do culto à personalidade na Coréia do Norte: as ‘‘massas’’ se identificavam com o partido e o partido se identificava com o grande líder.
“Nosso amado líder”
Nosso querido mestre, Kim Jong-il, assinalou que o Líder, o Partido e as Massas estão unidos num único corpo e formam um ser sócio-político imortal. Assim sendo, as três partes do todo nunca devem ser pensadas individualmente. O Líder é, evidentemente, o centro do corpo, e as massas não podem viver separadas do Líder e de seu cuidado por elas.’’
(RCCN, 20.mar.88)
‘‘A vida eterna dada a todos os indivíduos pelo grupo sócio-político é o resultado da unidade entre o Líder, o Partido e as Massas. Esta vida eterna só pode ser protegida pelo grupo, e o Líder é, com efeito, o próprio grupo. Assim como a vida física de alguém é originada pelos pais, a vida política de um indivíduo é dada pelo grupo, que, em troca protege e a alimenta.
Se alguém se desvia do grupo, sua vida se torna sem sentido.’’
(RCCN, 19.abr.88)
Fonte: The Human Rights Situation in North Korea, Seul, The Institute for South-North Korea Studies, 1992
Boletim Mundo Ano 5 n°3
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