terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

“Milagre” perde fôlego na Bacia do Pacífico

Crise trabalhista na Coréia do Sul assinala encerramento da etapa de crescimento explosivo
Antes do amanhecer do dia 26 de dezembro passado, os deputados do Partido da Nova Coréia, que formam a maioria parlamentar governista, reuniram-se secretamente na Assembléia Nacional e aprovaram um pacote de leis trabalhistas liberais, destinadas a facilitar a dispensa de mão-de-obra. As semanas seguintes conheceram a reação das centrais sindicais, expressa em ondas de greves e protestos de rua que degeneraram em confrontos com a polícia. As cenas de batalha em Seul repercutiram quase instantaneamente, invertendo as percepções sobre o futuro da Coréia do Sul. Muitas das mesmas vozes que pranteavam as virtudes do “modelo asiático” apressaram-se em anunciar a aproximação da catástrofe, na Coréia como nos outros Tigres.
O “modelo asiático” consistiu em uma estratégia de industrialização baseada na exportação de bens de consumo de tecnologia intermediária.
Hong Kong, Cingapura, Taiwan e Coréia do Sul lançaram-se nesse caminho há mais de vinte anos. Os investimentos japoneses, uma legislação fiscal liberal e o baixo custo da mão-de-obra foram o tripé do modelo, cujo sucesso traduziu-se por taxas alucinantes de crescimento econômico.
Entre 1970 e 1991, medido em dólares, o PIB per capita sul-coreano multiplicou-se por 23. No mesmo intervalo, o PIB per capita brasileiro multiplicou-se por seis .
Em meados da década de 80, a Malásia, a Tailândia e a Indonésia empreenderam projetos semelhantes, perseguindo o sucesso dos predecessores.
Os “novos Tigres” beneficiaram-se do crescimento geral da Bacia do Pacífico.
Além dos investimentos japoneses, aportaram capitais da primeira leva de Tigres, que já exibiam corporações econômicas transnacionais. A febre do progresso refletiu-se logo na paisagem urbana de Kuala Lumpur, Bangcoc e Jakarta, que ganharam edifícios empresariais arrojados e congestionamentos de tráfego infernais.
O cheiro do gás lacrimogêneo espalhado nas ruas de Seul, na virada do ano, assinalou uma abrupta reversão de expectativas. Economistas emergiram dos gabinetes apontando a tendência de redução das taxas de crescimento econômico em toda a macrorregião. Alguns alertaram para os níveis de expansão das exportações em 1996, muito inferiores aos do ano anterior . Outros foram mais longe, prevendo colapsos financeiros na Malásia e na Tailândia. As incertezas geopolíticas provocadas pela reincorporação de Hong Kong à China só serviram para acentuar as sombrias previsões.
Afinal, estaria encerrado o célebre “milagre asiático” ?
A perda de vigor das exportações é um argumento menos forte do que parece. As moedas dos Tigres Asiáticos têm comportamento associado ao do dólar. Entre 1991 e 1995, o dólar desvalorizou-se, puxando para baixo o preço das mercadorias dos Tigres e estimulando as suas exportações. Em 1996, o dólar valorizou-se, reduzindo a competitividade das exportações dos Tigres. Em certos casos, a valorização do dólar favorece os concorrentes japoneses, que retomam mercados perdidos.
É o que acontece com a indústria de informática de Taiwan e a de automóveis da Coréia do Sul. Mas isso não é grave, a longo prazo: uma nova fase do ciclo cambial premiará os Tigres e punirá os exportadores japoneses.
Uma outra história, mais séria, é a da redução das taxas de crescimento do PIB, que já se manifesta em Hong Kong e Cingapura.
Crescimento econômico não é aumento da produção, mas expansão da produtividade. Um país pode exibir longos períodos de aumento da produção, bastando que disponha de novos contingentes de mão-de-obra para incorporar à economia moderna, provenientes por exemplo  do mundo rural tradicional. Mas a expansão da produtividade requer mais do que isso: ela  implica multiplicar o valor gerado por cada trabalhador. Para isso, é indispensável agregar tecnologias novas, saltando para degraus cada vez mais altos de aplicação do conhecimento à produção.
Foi o que fizeram os Tigres da primeira leva, que passaram de exportadores de tecidos a fornecedores de eletrônicos e, depois, de microeletrônicos.
E é também o que estão fazendo os Tigres da segunda leva.
Mas, a cada novo degrau de produtividade, aumentam as dificuldades para prosseguir crescendo. Algumas indústrias dos Tigres já são obrigadas a encarar competidores japoneses e americanos, pois atuam em mercados de alta tecnologia. Paralelamente aos ganhos de produtividade, amplia-se a qualificação média da mão-de-obra, puxando para cima os salários. Na última década, os salários nas principais indústrias sul-coreanas foram multiplicados por dez, pulverizando a antiga vantagem comparativa que residia nos baixos custos da força de trabalho.
Em Hong Kong e Cingapura, a produção industrial dá sinais de estagnação, enquanto cresce o peso do setor de serviços. Ambos repetem a trajetória seguida há tempo pelos países ricos. Nos outros Tigres, que são verdadeiros países e não prósperas cidadelas globalizadas , essa fronteira econômica está muito distante. E  nada garante que ela possa ser alcançada.
Diferentes espécies de Tigres
A expressão Tigres Asiáticos é uma dessas generalizações que devem ser encaradas com cautela. Hong Kong e Cingapura, citadas  como exemplos de sucesso econômico e modelo para outros países, exibem PIB per capita comparável ao dos países ricos, mas a sua população combinada é quase a mesma que a de Jakarta, a capital da Indonésia. E nem esses dois “Tigres” podem ser postos no mesmo saco: Cingapura é uma cidade –Estado soberana, enquanto Hong Kong é um enclave colonial britânico prestes a se tornar um enclave econômico governado pela China Popular.
Taiwan e a Coréia do Sul formam outra dupla de Tigres mais ou menos semelhantes, apesar das disparidades de área e população. Mas, de novo, a política acentua as diferenças. Taiwan é uma província rebelde da China, que dispõe de soberania de fato mas não de reconhecimento diplomático internacional. A Coréia do Sul é um Estado gerado pela Guerra Fria, cujo território abrange apenas uma parte da nação coreana, dividida por um front militar.
Malásia e Tailândia são estrelas ascendentes da família dos Tigres, cujas diferenças cruciais estão na cultura e na distribuição da renda. A Malásia é, oficialmente, um país islâmico, o que explica as elevadas taxas de crescimento demográfico. A Tailândia exibe contrastes assustadores, que se traduzem nas taxas de mortalidade infantil, entre a próspera classe média urbana e as massas de miseráveis do campo.
A Indonésia só tem em comum com os Tigres o elevado crescimento econômico recente. Ao contrário do restante da família, é um país de vasta superfície que está entre os mais populosos do mundo. E, para contrariar a regra, o segredo da sua modernização não se encontra na indústria de bens duráveis, mas na capacidade de atração de investimentos proporcionada pelos seus recursos naturais - o petróleo, o gás natural, o estanho e a madeira.
Boletim Mundo Ano 5 n° 3

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