segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Diário de Viagem- Caminhando e cantando

Jayme Brener
A região foi escolhida a dedo. Se é para falar de reforma agrária e do MST, o Movimento dos Sem Terra, nada melhor do que o Triângulo Mineiro. E lá fomos – eu, o fotógrafo e o motorista  até a região de Uberaba (MG), cobrir a Marcha pela Reforma Agrária. Eram três colunas, cada uma com uns 500 integrantes, caminhando de pontos diferentes do território brasileiro em direção a Brasília, numa marcha de dois meses, para exigir a divisão do latifúndio improdutivo.
Por onde passávamos, eram visíveis as sementes lançadas pelo MST. No estado de São Paulo, ao longo do eixo da Via Anhangüera, em Campinas, Limeira, Santa Rita do Passa Quatro, o pessoal da marcha fez reuniões com desempregados, debates em escolas.
Perspectivas de muitas adesões para o futuro, já que a mecanização da agricultura está lançando milhares de trabalhadores no desemprego. Por exemplo, o pessoal que corta cana-de-açúcar em Limeira.
Fomos encontrar a marcha na entrada de Uberaba; todos descansando à beira da estrada. Enquanto procurava meu contato, encontrei Leônidas de Britto, 44 anos, negro, barba branca, falando português sem um erro. Ex-metalúrgico (tinha uma das melhores profissões no ramo, mandrilador), que perdeu o emprego em meio à crise do setor. Virou pedreiro, mas a idade o afastou do mercado.
O remédio, para Leônidas, foi ir às ruas de São Paulo pedir esmolas. Na Praça da Sé, Leônidas viu o início da marcha pela reforma agrária e decidiu virar sem-terra. “Melhor lutar por um pedacinho de chão do que viver da caridade dos outros”, disse. Ele é o típico ativista que o MST vem recrutando nos últimos meses. Desempregado, louco para deixar a cidade grande.
Encontrei meu contato, o técnico em agropecuária Edivar Lavratti, 21 anos, gaúcho, louro e um dos líderes da marcha. Ele satisfez algumas curiosidades:
– Por que vocês preferem sandálias e chinelos, durante a caminhada?
– Porque a bota deixa entrar areia e vai ficando desconfortável. Além disso, o chinelo é mais barato.
Combinamos a forma de acompanhar a marcha e Lavratti me apresentou alguns personagens. Seu Luís, 89 anos, que sempre ia à frente na caminhada.
Alcides, 44 anos, integrante do primeiro assentamento do MST, em Ronda Alta (RS). “Estou aqui para apoiar a marcha porque, se a gente não ajudar os outros sem-terra, vira sem-terra outra vez”, diz.
Janete, catarinense de 18 anos, encontrou namorado na marcha (“Tem muita gente, mas o pessoal dá uma força, deixa nós dois sozinhos...”, garante).
Edmilson, farmacêutico formado pela USP, largou uma farmácia em Santos (SP) e virou sem-terra “por ideologia”, com a mulher e os dois filhos.
Vicentão, barbudo, cara de Papai Noel, velho comunista e funcionário da Petrobrás por 34 anos. “Eu já  tenho minha aposentadoria e minha casa. Agora, posso lutar um pouco pelos outros”, afirma.
Em Uberaba, os sem-terra organizaram uma manifestação, com o apoio dos sindicatos urbanos.
Coisas que eu imaginava desaparecidas. O pessoal se emocionou com a velha Caminhando e cantando, de Geraldo Vandré, que embalava os protestos contra o regime militar, nos anos 60 e 70. Músicos caipiras, trazidos de vários assentamentos, cantavam toadas falando da reforma agrária, da “unidade camponesa e operária”.
Nas cidades, eles dormiam em ginásios cedidos pelas prefeituras (que também lhes forneciam água e assistência médica). Alguns prefeitos, sem nenhuma simpatia pela reforma agrária, deixaram a moçada na rua. Em Pirassununga (SP, se não fosse a ajuda da Igreja Católica, eles passariam fome. Mas em Salles Oliveira (SP) um padre, ligado aos grandes fazendeiros, se recusou a rezar uma missa para o grupo.
Já em Santa Rita do Passa Quatro, eles estavam na estrada quando a chuva de granizo chegou. Tiveram que correr para baixo de um viaduto. A tempestade não parava. Os sem-terra não tinham como chegar ao ginásio da prefeitura. Quem deu a solução vejam só – foi um usineiro. Desses que acham justa a luta pela reforma agrária nas terras improdutivas. O usineiro mandou ônibus e transportou os participantes da marcha.
Quando eles deixaram Uberaba, rumo a Uberlândia, maior cidade do  Triângulo Mineiro, decidi visitar um assentamento de sem-terra ali por perto. Quer dizer, de com -terra. Gente que  conseguiu um lote para plantar. São 100 quilômetros de Uberaba até o município de Campo Florido (MG), onde está a fazenda Nova Santo Inácio Ranchinho.
Em toda a viagem, só se vê uma plantação ao longe.
No máximo, umas vaquinhas aqui e acolá. O resto é latifúndio improdutivo. E terra da boa...
Lá encontrei Zé Maria, neto de um escravo que recebeu um lote de terra junto com a alforria e foi expulso por grileiros. Seu filho passou a vida lutando pela terra, em vão. Zé Maria, a terceira geração, conseguiu. Depois de passar três anos e meio acampado à beira da estrada, com mulher e filho.
Com direito a pauladas da polícia – no momento em que o grupo invadia uma fazenda – e até encontros com ministros, recheados de gritos e murros na mesa.
As 115 famílias do assentamento já estão produzindo sua própria comida e vendem mandioca, banana e leite. O próximo passo é construir tanques para a piscicultura. Cada família tem sua casinha, modesta mas ajeitada. A luz já chegou, alguns conseguiram comprar antena parabólica e a cooperativa instalou – orgulho de Zé Maria – seu telefone. Tudo com muito sacrifício, mas caminhando.
MST e os 19 de Carajás
Há um ano, em abril, 19 camponeses sem terra foram chacinados pela polícia, em Eldorado dos Carajás (PA). Apesar dos protestos internacionais; da indignação manifestada pela sociedade civil brasileira e apesar das promessas de justiça feitas por FHC, os responsáveis continuam impunes. Qual o “crime” cometido pelos 19 mortos ? Eles faziam parte do Movimento dos Sem Terra. O MST nasceu em 1985, com muita influência da Teologia da Libertação, a chamada ala “progressista” da Igreja Católica. Mas também da esquerda marxista e do PT. Em 11 anos, o movimento cresceu de forma impressionante. Esteve por trás do assentamento de 170 mil pessoas e pressiona a cada dia pelo aumento do contingente.
O movimento já conta com várias fábricas em suas cooperativas e com dois cursos secundários no Sul do país (que formam técnicos agrícolas), reconhecidos pelo governo federal. Em geral, quem recebe sua terra doa 2% a 3% dos rendimentos para manutenção do MST. Este mês, o fotógrafo Sebastião Salgado, conhecido em todo o mundo, publicou um livro com fotos dos sem terra.
A renda obtida com a venda do livro será integralmente destinada ao movimento.
Boletim Mundo Ano 5 n° 2

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