Nelson Bacic Olic
Em dezembro de 1996, o Peru voltou ao noticiário internacional. Pouco antes do Natal, militantes de um grupo terrorista - o Movimento Revolucionário Tupac Amaru (MRTA) - invadiram a embaixada japonesa em Lima, fazendo cerca de 200 reféns. Quem acredita no governo de Alberto Fujimori ficou surpreso: a lenda oficial dizia que a oposição armada havia sido desbaratada no início da década.
Com um território equivalente ao do Estado do Pará e 25 milhões de habitantes, o Peru é o quarto maior país em superfície e o quinto em população na América Latina. Costuma-se dividir o país em três regiões, correspondentes a três ecossistemas distintos: o litoral ou costa, a cordilheira ou sierra e o oriente ou selva.
A costa é um domínio natural árido e semi-árido, resultado da ação conjugada da corrente marinha fria de Humboldt e da cordilheira dos Andes. Essa região, apesar das condições climáticas adversas, apresenta intensa e antiga ocupação agrícola, em função da existência de verdadeiros oásis, mantidos por cursos d’água que descem dos Andes.
A sierra corresponde às cordilheiras e altiplanos dos Andes, que atravessa o país de norte a sul e cuja altitude ameniza as temperaturas, alterando as condições de tropicalidade derivadas da latitude. Ali concentrava- se grande parte das populações pré-colombianas, bem como as jazidas de ouro, exploradas à exaustão pelos espanhóis.
Se, atualmente, o ouro não mais existe, outras riquezas como a prata, o zinco, o cobre e o chumbo ainda sustentam uma importante indústria extrativa.
A selva é drenada por um complexo sistema hidrográfico. Tem grande parte de suas terras recobertas pela densa floresta equatorial. Apresenta uma ocupação ainda bastante rarefeita e tem sido objeto de planos de incentivo ao desenvolvimento por parte do governo. A exploração do petróleo é a principal atividade econômica formal.
Contudo, nas duas últimas décadas, o cultivo da coca, especialmente no vale do rio Huallaga, transformou o perfil econômico da região.
O Peru herdou do colonialismo sua inserção econômica internacional no grupo de países fornecedores de matérias-primas agrícolas e minerais. A quase totalidade de suas exportações é representada por esses produtos. O colonialismo também aprofundou e cristalizou a divisão étnico cultural entre a maioria pobre da população, basicamente índia e mestiça, e a elite branca. A história do país sempre foi marcada pela instabilidade política, pelos inúmeros golpes de Estado e também pela força e persistência de movimentos de guerrilhas. Essa situação está intimamente ligada ao sistema de exclusão social que marginaliza as camadas mais pobres.
Na década de 80, uma profunda crise econômica atingiu o Peru. A recessão, a superinflação e o desemprego fizeram com que os níveis de pobreza aumentassem. Essa situação propiciou a implantação e o desenvolvimento de movimentos terroristas, como o grupo Sendero Luminoso. Na mesma época, floresceu o cultivo de folha de coca na Amazônia peruana. Em muitos locais, os camponeses que plantavam coca eram ‘‘protegidos’’ pelo Sendero, que em troca recebia financiamento dos traficantes.
Muitas dessas regiões ficaram fora do controle do governo.
Em 1990, Alberto Fujimori foi eleito presidente. Para fazer frente às dificuldades econômicas, aplicou reformas de estilo neoliberal. A pretexto de combater o narcotráfico, o terrorismo e a corrupção, fechou o Congresso em 1992, atribuindo para si poderes ditatoriais.
Nos três anos seguintes, Fujimori acumulou algumas vitórias políticas, como a redução da inflação e a desarticulação do Sendero Luminoso. Isso permitiu a sua reeleição em um contexto de forte restrição às liberdades públicas. Contudo, a raiz dos intricados problemas peruanos está nas grandes desigualdades sociais. Assim, a invasão da embaixada japonesa em Lima pode ter sido apenas o prenúncio das turbulências políticas que o futuro parece reservar ao sofrido povo peruano.
Boletim Mundo Ano 5 n° 2
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