segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Imigrantes e refugiados encontram abrigo no Canadá

Cecília Nascimento
... Mas governo seleciona imigrantes pela qualificação profissional, para evitar desemprego; ajuda financeira do Estado aos mais pobres é fonte de polêmica no país
Quando o velocista Donovan Bailey, 29, venceu a prova dos 100 metros rasos nas Olimpíadas de Atlanta, ano passado, exibiu orgulhoso a bandeira do  Canadá no pódium. Horas depois, o homem mais rápido do mundo reafirmou aos jornalistas a alegria de defender seu país, embora tivesse nascido e vivido até os 15 anos na Jamaica.
Assim como Bailey, milhares de pessoas buscam no Canadá melhor perspectiva de vida todos os anos. Desde o início da década, o país recebeu 1,4 milhão de imigrantes, a maioria deles procedentes da Europa centro-oriental, Ásia, África e América Latina.
Ao lado da Austrália, é um dos poucos países com política de imigração organizada, tendo um ministério próprio para tratar a questão.
Atrair imigrantes é uma forma de manter ativa a economia. O Canadá está entre as nações mais ricas do mundo, possui um território de 9,9 milhões de km 2 , mas tem uma população de apenas 29, 6 milhões de habitantes. Além disso, 50 mil residentes emigram a cada ano devido às baixas temperaturas (os termômetros ficam próximos ou abaixo de zero seis meses por ano), e pela possibilidade de ganhar maiores salários nos Estados Unidos, sobretudo nos setores tecnológico e de  saúde .
Com o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), os canadenses são facilmente contratados para trabalhar do outro lado da fronteira.
Tal perda de mão-de-obra abre espaço para o trabalho do imigrante. Contrariando seu principal parceiro comercial, o Canadá mantém relações estreitas com Cuba, a ponto de a ilha ser um dos maiores fornecedores de profissionais para hospitais e laboratórios canadenses. No ano passado, transações comerciais entre os dois países movimentaram 600 milhões de dólares.
O governo seleciona o imigrante em seu país de origem para evitar a entrada de pessoas com profissões  sem demanda, o que pode causar aumento de desemprego, a principal preocupação do canadense hoje. O índice nacional atingiu 9,7%, no começo deste ano. Entre os jovens (15 a 24 anos), o desemprego salta para 16,7%, um dos mais altos entre as nações industrializadas.
Em 1996, cerca de 180 mil pessoas entraram no Canadá carregando em mãos visto de permanência, sendo 155 mil imigrantes e 25 mil  refugiados.
Para este ano, são esperados 200 mil novos residentes: 90 mil profissionais especializados, 23 mil empresários (aceitos como forma de estimular a criação de empregos), 60 mil familiares de imigrantes e 30 mil refugiados.
Os familiares só são aceitos se os já residentes comprovarem uma renda mínima. Um casal que deseja patrocinar a vinda de dois parentes próximos precisa ter ganho mínimo anual de 24 mil dólares.
O governo não quer que os novos imigrantes passem a viver de “welfare”, a ajuda financeira do Estado, que varia conforme a condição do residente. A ajuda mínima é de 400 dólares mensais.
Nos últimos quatro anos, Hong Kong lidera a lista de origem dos novos imigrantes. Aproximadamente 150 mil pessoas procedentes da ilha ingressaram no país desde 1993, a maioria delas por temerem mudanças econômicas após a devolução do território para a China, em julho próximo. Em segundo lugar, estão as Filipinas, com 72 mil pessoas nos últimos quatro anos e, em terceiro, a Índia, com 68 mil. Há 7,5 mil brasileiros vivendo no país, de acordo com dados da Embaixada do Brasil em Ottawa Depois de três anos de permanência, o imigrante tem direito à cidadania canadense.
Segundo a ONU, o Canadá já recebeu mais de 800 mil refugiados desde a Segunda Guerra Mundial.
No ano passado, o país abrigou 28 mil pessoas nessa condição e a expectativa para este ano é receber mais 30 mil pessoas.
O governo segue critérios estabelecidos pela ONU para conceder refúgio. De acordo com a entidade, “refugiado é aquele que, por razões de raça, religião, nacionalidade, opinião política ou por fazer parte de um grupo social é impedido de viver em seu país”. Vítimas de desastres naturais (terremotos, por exemplo) também podem ser aceitos como refugiados Antes de conceder o visto de permanência, o governo investiga o motivo da saída daquela pessoa de seu país de origem. Quem representa perigo de segurança não é aceito. Quem recebe o visto de refugiado passa a ter direitos sociais, como assistência médica gratuita, educação e “welfare”.
O pagamento de “welfare” é um dos pontos polêmicos hoje entre os canadenses. Enquanto parte da população defende a presença de refugiados como expressão da política humanitária que o Canadá defende na ONU, outra parte atribui a essa ajuda financeira um forte aumento no déficit público registrado nos últimos anos.
Se eu voltasse a viver no Sudão, teria que matar pessoas
Ronaldinho, Romário e Bebeto são nomes familiares para o sudanês Paul (o sobrenome não pode ser revelado por razões de segurança), 26, que há dois anos vive como refugiado de guerra em Toronto, na província de Ontário. Todos os sábados, ele acompanha pela TV a performance dos jogadores brasileiros na Europa e diz ter muita vontade de conhecer o Brasil. Paul era jogador profissional no Sudão até que, em 1991, teve que deixar o país ao lado da mãe e da irmã de 17 anos e seguir para um campo de refugiados em Nairóbi, no Quênia. Para trás, ficaram uma parte da família e a carreira de jogador.
O Sudão é o país de maior área da África (2,5 milhões de km2), fazendo fronteira com nove países. Desde 1983, conflitos entre o governo islâmico e a guerrilha cristã do sul obrigam milhares de pessoas a deixarem o Sudão. Segundo dados da ONU, mais de um milhão de pessoas já morreram em conflitos no país e 4 milhões sobrevivem em campos de refugiados nos países vizinhos.
No Quênia, Paul e a família sobreviveram graças à ajuda financeira e humanitária da ONU. Nessa época, pediram asilo à Embaixada do Canadá e, em 1994, chegaram a Toronto, onde vivem hoje com recursos do fundo de assistência social do governo. Ele freqüenta diariamente aulas de inglês dadas pelo Exército da Salvação entidade assistencial que atua em diversos países - e está procurando emprego como vendedor em lojas de roupas.
“Gosto daqui, especialmente pela oportunidade que a gente tem para estudar. Minha irmã já está terminando o segundo grau e deve ir para a universidade no próximo ano”.
A maior barreira para um refugiado no Canadá, segundo ele, não são as baixas temperaturas (em Toronto, os termômetros chegam a 40° C negativos no inverno), mas conviver com uma cultura tão diferente como a canadense. “Não tenho amigos, pois as pessoas aqui não são tão próximas umas das outras como nós africanos”, comenta.
Ele sonha em jogar futebol profissionalmente, mas para isso acredita ter mais chances nos Estados Unidos.
“Os canadenses não gostam de futebol, só de hockey, basquete e beisebol”, diz. Voltar a viver no Sudão é uma possibilidade remota. “Quero voltar apenas para visitar parentes e amigos. Se eu voltasse para viver, o governo me mandaria para o Exército e eu teria que matar pessoas”.
Boletim Mundo Ano 5 n° 2

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