terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Integração européia testa novo trabalhismo

Acusado de querer subordinar o país ao europeísmo dos alemães, o líder trabalhista Tony Blair está diante da encruzilhada da moeda comunitária
Um Tony Blair do tamanho de um boneco está sentado no joelho do robusto e  sorridente Helmut Kohl, o chanceler alemão. Este cartaz, uma montagem fotográfica com o título “A posição trabalhista sobre a Europa”, apareceu na imprensa britânica duas semanas antes das eleições gerais, como publicidade paga do Partido Conservador. A peça, considerada a mais agressiva da história eleitoral do país, acusava o líder trabalhista de funcionar como boneco de ventríloquo dos interesses alemães. Com ela, a Europa - até então ausente dos debates eleitorais - retomava o lugar dominante que ocupou na política britânica do pós-guerra. E os fantasmas do passado reuniram-se para confabular sobre o futuro.
A Grã-Bretanha oscilou entre a desconfiança e a hostilidade, sempre que posta diante do projeto da integração européia.
Ela foi convidada a aderir ao tratado da Comunidade do Carvão e do Aço, negociado por franceses e alemães entre 1950 e 1952, mas rejeitou a oferta, que lhe pareceu desprezível comparada à grandeza do que restava do Império Britânico. Naquela época, ainda ecoavam as palavras de Churchill, ditas ao general De Gaulle às vésperas do Dia D, em 1944: “Se algum dia tivermos que optar entre o continente e o mar aberto, será o mar aberto que escolheremos”.
Foi só na década de 60 que, relutante, Londres engajou negociações para entrar no Mercado Comum. Dessa vez, foi a Europa que rejeitou a Ilha: De Gaulle, então presidente da França, humilhou o governo da Rainha observando obliquamente, em entrevista à imprensa, que os ingleses não pareciam “preparados” para se juntar ao projeto comunitário. As conversações só foram retomadas no final da década, quando o general tinha se aposentado, pela segunda vez e definitivamente.
Foram os conservadores que colocaram a Grã-Bretanha na Comunidade Européia, em 1973. Mas, nos dois partidos, a Europa sempre dividiu opiniões.
A desconfiança cresceu em 1990, quando a reunificação alemã atualizou  o espectro de uma “Europa germânica”, expressão que chegou a ser empregada, aberta e imprudentemente, por assessores diretos da então primeira-ministra Margaret Thatcher. Dois anos depois, os britânicos assinaram o Tratado de Maastricht, mas impuseram uma cláusula que lhes confere o direito de permanecer fora da União Econômica e Monetária. Essa ambigüidade atravessou todo o governo de John Major (1990-97) e acabou por corroer por dentro o Partido Conservador. Nos últimos anos, uma corrente anti -européia - os “eurocéticos” - passou a desafiar a liderança partidária, exigindo de Major a antecipação da decisão sobre a moeda única.
Os mais fanáticos entre os “eurocéticos” queriam nada menos que a retirada britânica da União Européia.
Há 18 anos o Partido Trabalhista está distante de Downing Street, a sede do governo. Nos seus sucessivos mandatos, Margaret Thatcher (1979-90) promoveu uma revolução no país, impondo políticas de modernização liberal que, como efeito colateral, destruíram o tradicional programa trabalhista baseado em estatizações e garantias sociais e previdenciárias. Tony Blair reinventou o seu partido, criando o que ele chama de “novo trabalhismo” na base de um programa que adota a maior parte dos princípios liberais dominantes, mas investe em micro-políticas destinadas a promover a solidariedade e a coesão sociais.
O “novo trabalhismo” limitou-se a prometer um plebiscito sobre a moeda única européia. Em desesperadora desvantagem nas pesquisas eleitorais, Major cedeu às pressões dos “eurocéticos” quando identificou Blair com o europeísmo dos alemães.
“A Europa é o novo inimigo no qual o Partido Conservador  agora busca sua identidade, tendo substituído o socialismo”, explicou John Gray, professor de Oxford, ao jornal The Guardian. É mais complicado que isso. No fundo, a “Europa” se identifica - no discurso dos “eurocéticos” – ao socialismo (atenuado e reformista) do velho Partido Trabalhista. O que eles rejeitam é o capitalismo da “economia social de mercado” dos alemães, com seus sindicatos poderosos, as negociações coletivas de salários, as rígidas normas de trabalho e os elevados custos previdenciários repassados às empresas. Outro fantasma é o dirigismo econômico francês, assentado em investimentos estatais em setores estratégicos de infra-estrutura e energia. Tony Blair seria o agente do modelo de capitalismo continental, disposto a usar a União Européia como alavanca para reverter a revolução thatcherista.
O “novo trabalhismo” emerge vitorioso das eleições, mas continua a ser uma incógnita. O mistério terá que ser desfeito nos próximos meses, junto com as decisões finais sobre a ampliação da União Européia e a implementação  da União Econômica e Monetária. Mais uma vez, a Grã-Bretanha enfrentará a encruzilhada que conduz, de um lado, ao continente e, do outro, ao mar aberto.
Thatcher e a “revolução liberal”
Margaret Thatcher simbolizou, mais até que o ex-presidente americano Ronald Reagan, a “revolução liberal” dos anos 80. Seus detratores  entre os quais se contam sindicalistas, socialdemocratas e nostálgicos do socialismo soviético - cunharam a expressão pejorativa “neoliberalismo” para estigmatizar tudo que se assemelhe, mesmo que vagamente, às políticas da Dama de Ferro.
O thatcherismo nasceu como reação ao “Estado previdenciário” britânico. O inimigo eram as políticas públicas de auxílio aos desempregados e aos pobres, a legislação trabalhista generosa e o poder sindical que sustentava tudo isso. Entre 1984 e 1985, a primeira-ministra enfrentou e derrotou uma greve nacional nas minas de carvão, quebrando a espinha dorsal das centrais sindicais.
“Sociedade ? Eu não conheço tal coisa” - essa célebre resposta de Thatcher exprime, de forma propositalmente exagerada, o ponto focal da revolução.
O que existem são indivíduos. A função do Estado democrático é assegurar o pleno exercício da liberdade de iniciativa, mola da riqueza. O “Estado previdenciário” desvia a riqueza gerada pelos indivíduos para servir a corporações e congelar privilégios, empobrecendo a nação. Essas idéias, aplicadas inflexivelmente, transformaram a economia britânica.
Elas podem ser responsabilizadas pela desigualdade entre ricos e pobres, uma das maiores da Europa. Ou louvadas pelas taxas de desemprego, entre as  menores da União Européia.
As “novidades” no Parlamento
Maior número de mulheres da história da Câmara dos Comuns (117)
Maior maioria trabalhista desde a criação do partido (1900)
Maior número de cadeiras ganhas por um partido político em eleições desde 1935
Menor número de deputados conservadores desde 1906
Primeiro cego a conquistar um ministério: David Blunkett  (Educação)
Primeiro muçulmano eleito para a Câmara dos Comuns: Mohamed Sarwar, eleito em Glasgow (Escócia)
Primeira deputada deficiente física: Anne Begg, eleita em Aberdeen (Escócia)
Primeiro candidato homossexual declarado: Ben Bradshow, eleito em Exeter
Boletim Mundo Ano 5 n° 3

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