terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

De clones e guerras

O nascimento da ovelha Dolly, anunciado em fevereiro por Ian Wilmut, pesquisador do Instituto Roslin, de Edimburgo (Escócia), reacendeu o debate sobre o desenvolvimento da biotecnologia, a mais nova vertente da disputa tecnológica entre os países industrializados.
Não por acaso, o estudo do genoma humano  isto é, da constituição genética total de um indivíduo (formada por três bilhões de pares) -, foi declarado como potencial tecnologia de guerra, por 80 países membros da Convenção de Armas Biológicas e Tóxicas. A biologia molecular e qualquer aplicação resultante do estudo do genoma foram incluídas na listas de tecnologias que poderiam ser empregadas como armas. Os cientistas acreditam que, com esses recursos, possam ser desenvolvidas, por exemplo, doenças ‘‘de guerra’’ com efeitos muito mais nefastos e duradouros do que os causados por armas químicas.
Mas não é apenas no campo militar que a biotecnologia do genoma encontra aplicação. Seus maiores defensores listam as vantagens econômicas: eliminando-se genes ‘‘defeituosos’’, os homens poderão ‘‘melhorar’’ as espécies e evitar o nascimento de animais doentes ou ‘‘improdutivos’’. Por exemplo, a manipulação genética poderá garantir o maior desenvolvimento de músculos de bois e vacas, a maior produção de leite, a resistência a certas pragas que afetam espécies vegetais etc. As aplicações são infindáveis. No caso dos seres humanos, a pesquisa do genoma poderá, por exemplo, identificar - e eliminar - os genes responsáveis por certas doenças ou por ‘‘defeitos’’ físicos. Em certo sentido, isso significa que os homens colocam em suas mãos a tarefa de realizar a seleção natural a que se referia Charles Darwin.
Os Estados Unidos são o país que mais investe em pesquisas nesse campo.
Apenas o Projeto Genoma, um programa formalmente iniciado em 1990 (mas anunciado desde 1986), com o objetivo de mapear e seqüenciar todos os genes humanos, deverá consumir pelo menos US$ 3 bilhões em verbas governamentais ao longo de 15 anos de pesquisas.
Washington considera esse projeto como ‘‘estratégico’’ - daí o fato de ter-lhe destinado uma quantia inédita para projetos tecnológicos não diretamente militares.
Programas semelhantes estão sendo desenvolvidos na Europa (na Grã-Bretanha e França, em particular) e, com atraso relativo, no Japão. Das cerca de mil empresas mundiais que se dedicam à biotecnologia, metade estão nos Estados Unidos e um terço na Grã-Bretanha. Do total de verbas mundiais consagradas à pesquisa do genoma, 80% se concentram nos Estados Unidos e Europa, 5% no Japão. Os japoneses, entretanto, vêm aumentando seus investimentos nessa área, desde 1987.
Se a ‘‘corrida genética’’ está há muito em pleno desenvolvimento, o interesse da opinião pública manifesta-se de tempos em tempos, de acordo com a divulgação de pesquisas. Um desses casos aconteceu em 1993, quando cientistas americanos anunciaram a clonagem de embriões humanos. Outra foi o nascimento de Dolly. Não que se tratasse, no caso da ovelha, de algo estritamente novo: as pesquisas para a produção de replicantes já têm história . E a
Reprodução  de Dolly não foi integralmente assexuada: o macho foi ‘‘dispensado’’, mas Dolly foi gerada por uma ovelha comum.
O efeito psicossocial foi causado  pelo fato de que, pela primeira vez, o animal replicado era um mamífero desenvolvido.
Ficou para trás a era dos sapos e ratos. A própria lógica dos eventos colocou a questão crucial: e o próximo passo?
Será o ser humano?
Até agora, há um aparente consenso no sentido de rejeitar a clonagem humana, embora a idéia seja aceita quando se trata de animais. Mesmo para Wilmut, ‘‘pai’’ de Dolly, manipular óvulos humanos seria ‘‘preocupante e ofensivo’’.
A União Européia, os Estados Unidos (e também o Brasil), o Vaticano e autoridades religiosas condenaram a eventual clonagem de seres humanos.
Ainda assim, a ‘‘corrida genética’’ vem gerando fatos que tendem a colocar em crise o consenso aparente contra a clonagem humana. A mesma empresa que inventou Dolly, a PPL Therapeutics, já havia criado Tracy, a ovelha que recebeu genes humanos para produzir AAT, uma proteína humana agora testada contra a fibrose cística. A literatura especializada está cheia de experimentos transgênicos que ignoram as barreiras entre as espécies animais e vegetais, quando não inserem células humanas em animais e de animais em vegetais. Há mulheres que produzem proteínas no leite para a indústria farmacêutica, ha fusões de carneiros com bodes... só não há limites para a imaginação científica.
Antes mesmo de Dolly, o corpo humano já estava sendo considerado  uma espécie de ‘‘mina’’ de riquezas, como se fosse uma reserva natural pronta para ser explorada por empresas. Em 1991, por exemplo, a Systemix Inc., americana, patenteou células da medula humana. E pesquisadores americanos tentaram patentear células de índios do Panamá, Ilhas Salomão e Papua- Nova  Guiné.
É claro que os homens apenas começam a adivinhar as implicações éticas, estéticas, religiosas e culturais colocadas pela tecnologia da clonagem, para além das questões econômicas e geopolíticas. Um clone humano, por exemplo, poderia ser considerado um ser humano total, de plena posse de seus direitos (e deveres), ou seria uma propriedade do laboratório que o criou? São questões que, até há pouco, só poderiam ser vistas em livros e filmes de ficção científica, como Blade Runner, mas que já tomam as páginas dos jornais. Alguns cientistas e intelectuais, alarmados, falam em ‘‘fim da civilização’’. Quem viver, verá.
Como Dolly foi ‘‘inventada’’
1 - Da ovelha que se deseja clonar, retira-se uma célula. Na experiência de Wilmut, a célula foi retirada da mama do animal. Em seguida, o núcleo (que tem o DNA) é separado do corpo da célula .
2 - Outra ovelha contribui com um óvulo não-fecundado, cujo núcleo é extirpado.
 3 -Com uma descarga elétrica, faz-se a fusão do núcleo da célula da ovelha a ser clonada com o óvulo.
4 - O óvulo assimila o núcleo como se fosse originalmente seu. O novo óvulo é colocado no útero de uma terceira ovelha, onde se desenvolve em um feto. Ao nascer, o clone é exatamente igual à ovelha que doou a célula da mama .
Fonte: IstoÉ, mar.97
Breve história dos replicantes
1944 Cientistas fazem a primeira tentativa de fecundação in vitro.
1949 Descoberto que uma substância chamada glicerol pode ser usada para congelar espermatozóides.
1952 Nasce o primeiro bezerro de sêmen congelado; Cientistas tentam clonar sapos a partir de células da cauda.
1959 Nasce a primeira ninhada de coelhos originários de fertilização in vitro.
1972 Nasce a primeira ninhada de ratos nascidos de embriões congelados.
1970 Cientistas clonam embriões de rato.
1973 Nasce o primeiro bezerro a partir de um embrião congelado.
1978 Nasce, no Reino Unido, o primeiro bebê de proveta.
1979 Cientistas clonam embriões de  ovelhas .
1980 Cientistas clonam embriões de gado.
1984 Nasce, na Austrália, o primeiro bebê a partir de um embrião congelado.
1993 Cientistas clonam embriões humanos.
1996 Cientistas tentam clonar uma ovelha a partir de células diferenciadas de um embrião
1997 Cientistas clonam a primeira ovelha a partir de uma célula diferenciada de um animal adulto.
Fonte: Folha de S.Paulo (16.03.97)
Boletim Mundo Ano 5 n° 3

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