sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Otan empurra Moscou para o lado de Pequim

Newton Carlos
Projeto de ampliação da aliança ocidental intensifica temor russo e abre caminho para uma parceria  estratégica .
O último encontro entre os presidentes Bill Clinton e Boris Yeltsin e a visita recente de Al Gore, vice-presidente americano, a Moscou mostraram que a agenda dos Estados Unidos e Rússia continua sendo refúgio de temas de segurança, como nos velhos tempos da Guerra Fria. Além da venda de reatores nucleares russos a um país “maldito”, o Irã, e da matança na Chechênia, está o projeto de expansão da Otan, a aliança militar ocidental, com a incorporação de países ex-comunistas da Europa central e oriental.
“A Rússia não aceita avanços da Otan para o leste, na direção de suas fronteiras, porque isso atenta contra os nossos interesses nacionais”, foi a resposta de Yevgeny Primakov, ministro do Exterior russo, à consulta pessoal do secretário- geral da Otan, o espanhol Javier Solana.
O mesmo escutou Warren Cristopher, secretário de Estado americano, em conversas em Moscou. Embora se trate de questão de primeira linha nas relações entre a Rússia e os Estados Unidos, a ampliação da Otan teve escassa presença nos embates da campanha eleitoral russa.
Prova de que internamente não há divergências a respeito.
Em grau maior ou menor, todos compartilham da recusa oficial expressa por Primakov. Mesmo assim os Estados Unidos parecem dispostos a insistir. Em reunião com 12 chanceleres de países da Europa central e oriental, Cristopher garantiu que a determinação de Washington é de “seguir em frente”, inclusive manifestando resignação diante da possibilidade de a Rússia tornar-se “menos cooperativa”.
Qualquer decisão, no entanto, só será tomada em dezembro, depois das eleições americanas.
As pressões pró-expansão são fortes, por parte dos antigos membros do extinto Pacto de Varsóvia. Especialistas estão convencidos de que a recusa da Rússia não é tanto aos planejados avanços da Otan, mas à sua própria sobrevivência.
Se  acabou a Guerra Fria e o Pacto de Varsóvia, por que o mesmo não acontece do outro lado ? Um  dos assessores de Primakov diz que nada une os diversos componentes da aliança ocidental, “a não ser a hostilidade à Rússia”. Também conta, na recusa, a multiplicação de focos de instabilidade nas fronteiras da Rússia. A ONU calcula que nove milhões de antigos habitantes do “espaço soviético” abandonaram seus lares, cidades e repúblicas desde o colapso da União Soviética, em 1991. Fogem de conflitos étnicos, como na Geórgia, Armênia e Azerbaijão, ou de guerras civis, como as da Moldávia, Chechênia e Tajiquistão. A Rússia é obrigada a absorver a maior parte desses refugiados, em geral russos étnicos que buscam a proteção da Mãe-Rússia.
No campo oposto, o presidente da República Tcheca, Vaclav Havel, declara temer que o Ocidente se perca nesse debate e seja jogada fora “para sempre” a melhor oportunidade de “estabilizar democraticamente a Europa ex-comunista”. As indecisões do Ocidente, adverte Havel, dramaturgo e antigo dissidente com boa audiência nos Estados Unidos e Europa, “talvez criem um vácuo e com convençam os russos de que o mundo ainda pode ser dividido em áreas de influência”. A Polônia, outro integrante potencial da Otan ampliada, está às voltas com o projeto da Rússia de cortar o seu território através da abertura de um corredor na direção de Kaliningrado, enclave costeiro russo no Báltico, altamente militarizado. Para alcançar Kaliningrado por terra é preciso passar pela Polônia ou pela Lituânia , cujo elevado grau de ocidentalização e cargas de sentimentos anti-russos criam obstáculos nada agradáveis para Moscou. Embora ex-comunistas controlem o governo polonês, o ministro do Exterior, Dariusz Rosati, afirmou que seu país “rejeita categoricamente esquemas que revivem velhas e penosas memórias”. Ele se refere ao famoso corredor polonês, que ligava a Alemanha a Konigsberg, antigo nome de Kaliningrado, nos tempos de Hitler.
Já a visita de Yeltsin à China mostrou que os russos se movimentam atrás de contrapartidas estratégicas. O novo chefe do Conselho de Segurança Nacional da Rússia, general Alexander Lebed, com pinta de “homem forte”, estabelece como prioridade diplomática a procura de um “aliado principal”. Descarta a Europa. Sequer fala nos Estados Unidos. O escolhido é a China. Rússia e China, diz um documento secreto “programático” do Conselho, “poderão criar um sistema único e auto-suficiente, com enorme potencial de desenvolvimento e de mercado interno”.
O comunicado-conjunto assinado por Yeltsin em Pequim diz que “as políticas de blocos assumem novas formas”. O senador democrata Bill Bradley, um dos políticos americanos que mais conhecem o momento russo, já definira o flerte da Rússia com a China como uma “irônica reversão da cartada chinesa anti-URSS de Nixon e Kissinger”.
Caos russo desencanta os jovens e facilita ação das máfias
Um professor da Universidade da Califórnia, Taylor E. Dark, que ficou um ano em Krasnodar, na Rússia, dissertando sobre a “visão ocidental da democracia, nacionalismo e colapso do comunismo”, deu de cara com a convicção da maioria dos jovens russos de que a “transição” de seu país para uma “democracia liberal” pode levar séculos, não décadas.
Taylor reproduziu alguns textos de seus alunos russos na National Interest, procurando mostrar o advento de um desencanto “teen”.
“Caos russo”, é o tema do francês Jacques Sapir, autor de vários livros sobre a ex-URSS. O novo poder na Rússia - é a conclusão de Sapir - se apresenta incapaz de estabilizar o quadro institucional e falta a Yeltsin uma estratégia de reconstrução do Estado.
O presidente russo “tornou-se prisioneiro de interesses minoritários”, de um capitalismo de máfias. O Kremlin retoma a tradição de criar não um Estado, mas um poder, um sistema no qual as pessoas se sobrepõem às instituições e cujo epicentro se aloja no exercício da presidência. Há um duplo beco sem saída, segundo Sapir. Não se pode governar muito tempo contra os interesses da maioria e a fixação num poder, no caso representado por Yeltsin, e não num Estado, esbarra em disputas palacianas incontornáveis.
O parlamento russo chegou a propor “equilíbrio institucional” por meio de revisão constitucional que reduzisse um pouco os enormes poderes do presidente. Nenhum interesse por parte do Kremlin. A reeleição de Yeltsin poderia resultar em transformações, num esforço para estabilizar as instituições e levar em conta os interesses da maioria?
Sapir até acha que sim, desde que o presidente russo procure inserir “caras novas” no âmbito do poder e assuma intenções “sinceras” de conduzir mudanças econômicas e institucionais.
Embora o entendimento com o general Lebed abra brechas no esquema palaciano, nada indica que tenha diminuído a sede de mando absoluto reinante no Kremlin.
Boletim Mundo Ano 4 n° 4

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