sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Nacionalismo grão-russo rejeita o Iluminismo e o Ocidente

“Somos consumidos pela geografia, e não temos uma história real” - é assim que o crítico literário Vyacheslav Ivanov define a singularidade da Rússia. Talvez fosse melhor dizer que a história russa fez da geografia a sua obsessão, gerando um nacionalismo exacerbado pelo medo do estrangeiro.
O Império Russo nasceu com Ivã IV, o Terrível (1533-84), depois de quatro séculos de lutas contra os tártaro-mongóis do leste e os suecos, germânicos, lituanos e poloneses do oeste. A defesa e ampliação do território sob o domínio de Moscou marcou desde o início a consciência russa. A transferência da sede da Igreja Ortodoxa para Moscou, após a queda de Constantinopla, fez dos imperadores russos os protetores da “Roma do Oriente” e acentuou o sentido do perigo representado pelos Estados católicos. A Rússia tornou-se vanguarda oriental do cristianismo e muralha contraposta à expansão do catolicismo.
“Não pertencemos a qualquer das grandes famílias da humanidade, do Oriente ou do Ocidente”, escreveu Petr Chaadaev, um modernizador ocidentalizante. A Rússia sempre oscilou entre esses dois mundos. Pedro I, o Grande (1689-1725), materializou essa equação em São Petersburgo, capital imperial erguida como janela para a Europa, projetada por arquitetos da França, Itália, Inglaterra e Holanda. A “cidade da Luz”, construída por trabalhadores semi-escravos, foi obra de um Império que jamais viveu o Iluminismo, mas o invejou e imitou.
“A personalidade dos russos é incomparavelmente mais sutil e astuta que a dos habitantes da Europa”, escreveu Gogol em 1847. O século XIX representou, em todos os lugares, o apogeu do nacionalismo. No Império, depois das grandes conquistas de Catarina II (1729-96), os czares empenhavam-se na “russificação” dos povos subjugados, através da disseminação da língua nacional e da religião ortodoxa, e pelo estímulo à migração de russos. A Grande Rússia, que conservou a servidão camponesa até 1861, enraizava o seu nacionalismo na reivindicação de uma alma misteriosa, singular e única.
“Não há ninguém na Terra mais orgulhoso e mais simples que nós”, escreveu Anna Akhmatova, em 1922, trilhando a tradição de Pushkin, o maior poeta de língua russa, e a do escritor e dramaturgo Tchekhov, que procurou a alma russa eterna na vida da aldeia e nas estepes. A eslavofilia sintetizou o nacionalismo grão-russo e a rejeição do direito contratual ocidental. O futuro da Rússia seria assegurado pela união entre os camponeses e a Coroa, sob a hegemonia espiritual da Igreja Ortodoxa.
A Grande Rússia sobreviveu à tempestade de 1917 e ressurgiu na URSS de Stalin.
A obsessão pela geografia traduziu-se no Pacto Germano-Soviético de 1939, que consagrou a divisão da Polônia e dos Estados bálticos, e nas exigências de Stalin na Conferência de Yalta, em 1945, que devolveu à URSS os territórios perdidos pelo Império na 1ª Guerra. O fim da URSS, em 1991, e a turbulenta transição que a Rússia atravessa agitaram as vozes da eslavofilia. Gennady Zyuganov, o candidato comunista derrotado, não é um descendente de Lenin ou Trotski, mas do velho chauvinismo russo autoritário, anti-semita e anti-ocidental.
Zyuganov  perdeu, mas reuniu 40% dos votos no segundo turno. E a sua música, embora em tom menor, foi  tocada também no lado dos vencedores.
Boletim Mundo Ano 4 n° 4

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