Enterrados durante 2 mil anos, barcos da Roma antiga foram descobertos intactos e por acaso a 500 metros da Torre de Pisa
por Carla Aranha
"Santa Maria Madonna!”, exclamou, espantado, o condutor da escavadeira. Não era para menos: a máquina havia topado com o primeiro fragmento da maior descoberta da arqueologia naval do século 20. Ali, no canteiro de obras do novo centro de operações da ferrovia italiana, surgia um fantástico cemitério de barcos romanos, enterrados a apenas 500 metros da Torre de Pisa, em pleno coração de uma das cidades mais antigas da Itália, que todos os anos recebe milhares de visitantes. A partir de dezembro de 1998, quando o achado veio à luz, uma equipe multidisciplinar de 70 profissionais, entre arqueólogos, paleontólogos, geólogos, geógrafos e cartógrafos, passou a trabalhar dia e noite no novo sítio arqueológico, em uma área de 100 x 45 metros. Sua missão: explicar o mistério das 16 embarcações milenares encontradas a 12 quilômetros do mar e reconstituir o cotidiano de uma das mais importantes cidades do Mediterrâneo durante o auge do Império Romano.
Algumas perguntas martelavam o cérebro dos especialistas. O que faziam ali aqueles navios? Por que teriam afundado? Teria existido um porto comercial em Pisa? Como o porto se ligava ao mar? O desafio intrigou não só cientistas do mundo todo, mas também o jornalista americano Michael Sedge, colaborador do The Discovery Channel e autor de mais de 20 livros. Sedge pegou o primeiro vôo para a Itália assim que soube da descoberta e passou dois anos acompanhando de perto os trabalhos em Pisa. Em The Lost Ships of Pisa, ele traz todos os detalhes da maior empreitada arqueológica dos últimos 100 anos.
O primeiro passo era reconstituir a hidrografia da cidade. Nessa tarefa, os cientistas contaram com a importante ajuda de Leonardo da Vinci (1452-1519), que deixou alguns mapas do sistema fluvial de Pisa. Neles, há uma referência ao local onde foram encontradas as embarcações, uma área chamada San Rossero, na qual o nível do terreno era mais baixo. O historiador Rafaello Roncioni, do século 16, vai mais longe e menciona o Porto delle Conche, situado em um entroncamento de um misterioso rio Auser (do qual hoje não resta traço), cuja localização coincide com a do cemitério dos barcos romanos. Análises geomorfológicas da região feitas pela equipe de Pisa comprovaram a existência do pequeno Auser, desaparecido há séculos. O rio, que era um braço do rio Serchio, desembocava no Arno e formava uma bacia lagunar onde foram encontrados os navios. Uma série de lagoas e braços de rio ligavam a bacia ao mar, então a apenas 4 quilômetros da cidade.
O acúmulo de detritos, lodo e areia no leito do Auser colaborou para o desaparecimento do rio. Enquanto isso, transformações geológicas, responsáveis por terríveis enchentes na época do Império Romano, iam empurrando o mar quilômetros adiante. Os depósitos de lodo e areia no fundo da bacia onde se situava o antigo porto permitiram que os barcos permanecessem enterrados e intactos por 2 mil anos, até serem encontrados. Por cima da camada de areia e lodo havia outra, de argila, que impediu a passagem de oxigênio, conservando a madeira dos barcos.
Protegidos durante dois milênios dos efeitos do tempo graças a essa câmara mortuária, em contato direto com o ar provavelmente se transformariam em pó. O problema era complexo. A equipe de restauradores decidiu envolver os cascos em estruturas de fibra de vidro, para que eles pudessem ser transportados em segurança para um laboratório especializado. Os barcos foram então mergulhados em tanques de água desmineralizada que continham fungicidas, enquanto a lama que ainda os recobria ia sendo pacientemente retirada. Depois, receberam substâncias químicas de conservação da madeira.
Os arqueólogos também encontraram um imenso tesouro de artefatos romanos dentro e fora das embarcações. Repousavam nos porões dos navios e nas imediações deles 400 ânforas, muitas ainda com restos do conteúdo que carregavam, além de kits de primeiros-socorros, cerâmicas, cosméticos, lamparinas a óleo, jóias e até uma sandália. Os objetos poderiam não sobreviver em outro ambiente – novamente, um desafio era colocado à equipe em ação em Pisa. Em uma operação delicada, os artefatos receberam uma camada de filme de polietileno ainda dentro do sítio arqueológico e em seguida foram envolvidos em estruturas de fibras de vidro. Pequenos tubos conduziam água para dentro da estrutura, para que a umidade inicial fosse preservada, enquanto era feito o trabalho de limpeza. Antes de serem transportados para o laboratório, os artefatos eram envolvidos em lâminas de madeira que formavam uma espécie de caixa de proteção.
As embarcações (dos séculos 2 a.C. ao 5 d.C.) e suas cargas ajudam a contar detalhes da história da navegação pelo Mediterrâneo, uma das principais artérias de irrigação do Império Romano, base da civilização ocidental. Dos 16 barcos encontrados, nove já puderam ser estudados. Três eram usados para o comércio de mercadorias – de vinho a grãos e cerâmicas –, três transportavam passageiros entre as lagoas e canais de Pisa e um era uma espécie de canoa. Os arqueólogos ainda se debruçam sobre as duas outras estruturas em estudo. Por enquanto, não se conhecem as causas que teriam levado cada um dos barcos, de épocas diferentes, a afundar. Há apenas hipóteses. As enchentes que assolavam repentinamente o rio Auser e a bacia lagunar do porto podem ter ocasionado alguns dos naufrágios. Outros barcos podem ter ido a pique por falha humana durante as manobras.
Um curioso hábito dos antigos romanos foi responsável por tornar a descoberta do porto comercial de Pisa tão fantástica. Aparentemente, não se resgatavam as cargas das embarcações que submergiam, para sorte dos arqueólogos que estudaram a descoberta.
Alguns barcos conservavam no porão ânforas até com conteúdos curiosos como cosméticos e queimadores de incenso, vindos da Córsega e da antiga Fenícia. Em outros, havia ossos de animais como cavalos e ovelhas, que deviam ser vendidos de porto em porto. Foram encontrados até mesmo esqueletos de leões. O animal africano era comprado no nordeste da África e levado a Roma para lutar com gladiadores no Coliseu.
Os cerca de 1 milhão de cidadãos romanos tomavam vinho da França, usavam azeite da Espanha e se perfumavam com essências da Tunísia. Essas mercadorias passavam pelo Porto Pisanus, o porto comercial de Pisa, onde existia, à beira-mar, uma importante base naval. Há 2 mil anos, Pisa era uma espécie de Veneza da Antiguidade, com centenas de canais e lagoas que conduziam ao mar. No caso de um ataque marítimo, a cidade estaria protegida, assim como sua frota naval. Em tempos de paz, oferecia fácil acesso ao comércio no Mediterrâneo. Para melhorar ainda mais, Pisa estava ligada a Roma por duas estradas, a Via Aurélia e a Via Emília, por onde podiam passar os exércitos. Não era de se espantar que em pouco tempo se tornasse um dos principais entroncamentos comerciais do mundo antigo, papel que exerceu durante quase 700 anos, até o final do século 5 d.C., com a derrocada do Império Romano.
Com o Império em expansão, se estendendo até o norte da Europa, o Oriente Médio e o nordeste da África, o comércio crescia a olhos vistos. Mesmo alimentos, como azeitonas, figos, nozes e cerejas, eram levados à capital, chegando a influenciar a culinária romana. Temperos simples como o vinagre e o azeite deram lugar, a partir do século 1 d.C., ao famoso garum, um molho à base de peixe e ervas usado para temperar tudo, de vegetais a carnes. Os centros de produção de garum na Espanha e em Pompéia abasteciam Roma regularmente, conforme comprovam as cargas das embarcações encontradas em Pisa, que jogaram luz até sobre a mesa romana.
As ânforas continham o precursor do rótulo moderno, com indicações do nome do fabricante, o tipo de produto e, no caso do garum, muitas vezes até da espécie de peixe utilizada e da qualidade da mercadoria – optimum, excellens etc. As descobertas em Pisa revelam que cada produto era transportado em um tipo específico de ânfora, com um formato próprio, para facilitar a identificação da mercadoria pelo possível comprador. Foram os primórdios da embalagem e do design.
Nos barcos de Pisa havia também raros instrumentos cirúrgicos e de uso farmacêutico, como colheres de osso, sondas e espátulas, que deviam ser parte de kits de primeiros-socorros. As sondas eram utilizadas em drenagens de líquidos, dilatações e na aplicação de certos medicamentos. Outro hábito muito comum era o uso de ungüentos. Era preciso ter uma medida precisa da quantidade certa de substâncias que seria aplicada nos ungüentos, e aí entravam em ação as colheres.
Outra descoberta no sítio de San Rossore alegrou a comunidade científica. Abaixo de um barco do século 1 a.C. repousava um esqueleto humano intacto. Ele não estava sozinho: segurava um bassê em uma das mãos. O marinheiro provavelmente foi varrido da embarcação por uma onda e, azar dos azares, morreu porque um mastro caiu bem em cima de seu pescoço, que quebrou. Ele tentava salvar seu cachorro quando segundos depois toda a carga do barco seguiu o movimento do mastro e deixou o corpo enterrado no fundo do Porto Pisanus por 2 mil anos, impedindo que os ossos fossem levados pelas correntes. Foi fácil fazer a reconstituição do morto histórico: ele devia ter cerca de 40 anos, media 1,67 m e tinha os braços musculosos. Usando uma técnica inventada pelo paleontólogo russo Mikhail Gerasimov, foi possível enxergar o rosto do marinheiro morto. Estudos de anatomia aliados a técnicas de computação gráfica permitiram uma reconstituição completa do homem.
Ele tinha as maçãs do rosto proeminentes e um queixo bem definido. O bonitão, segundo relato do jornal italiano La Repubblica, “parecia estranhamente familiar”.
O marinheiro nunca deixará Pisa. Seu esqueleto, a reconstituição computadorizada de seu rosto e seu bassê são peças-chave do maior museu marinho do mundo. Os Arsenali Medicei, docas construídas pelos Médici na cidade no século 16, hoje abrigam o Museu San Rossore, para onde foram transferidos os barcos romanos e a espantosa quantidade de artefatos encontrada em seus porões. Os estudos ainda continuam em Pisa, e devem levar outros 20 anos, tal a magnitude da descoberta arqueológica. Mas a humanidade já tem a chance de ver de perto um tesouro que ficou escondido por dois milênios, até o condutor da escavadeira em Pisa evocar a Madona e o Porto Pisanus vir à luz novamente.
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