por Celso Miranda
Como comparar o mundo de agora ao de 1914? Hoje, existem 6 bilhões de seres humanos, três vezes mais que antes da Primeira Guerra, mesmo levando em conta que, no século 20, mais homens morreram que jamais na história. Um século de destruição. Não só porque ele foi palco de guerras ininterruptas – com um curto intervalo na década de 1920 –, como também pelas catástrofes humanas que produziu, desde as maiores fomes até o genocídio programado.
No outro extremo, o século 20 trouxe saúde e vida. Em 1990, a maioria das pessoas era mais alta e pesada que seus pais, mais bem alimentada e vivia muito mais. O mundo estava mais rico e sua capacidade de produzir bens e serviços de incrível variedade parecia interminável. Pela primeira vez desde que se inventou a escrita, a maior parte das populações estava alfabetizada.
Em Era dos Extremos – O Breve Século 20 (Companhia das Letras), o historiador Eric Hobsbawm nos guia por esse século de catástrofes e êxitos para nos apresentar um mundo com pelo menos três grandes mudanças. Primeiro, ele deixou de ser eurocêntrico. O século 20 marcou o declínio da Europa, sede dos impérios que reuniam poder e riqueza em 1900. Os europeus foram reduzidos de um terço para um sexto da humanidade: uma minoria que terminou o século erguendo muros contra imigrantes pobres, principalmente africanos. A segunda transformação foi mais significativa: em 1990, o mundo havia se transformado numa unidade operacional como não era e não poderia ter sido em 1914. Para Hobsbawm, a característica mais impressionante do fim do século 20 talvez seja a tensão entre esse processo de globalização acelerado e a incapacidade das instituições e das pessoas de se acomodarem a ele.
A terceira alteração, em certos aspectos a mais pertubadora, é o esfacelamento de velhos padrões de relacionamento social, e, com ele, a quebra dos elos entre as gerações, quer dizer, entre o passado e o presente. Hobsbawm vê, no final do milênio, sociedades formadas por pessoas sem conexão entre si, em busca apenas da própria satisfação. Mas isso não esteve sempre implícito na teoria capitalista? Para o autor, no entanto, esse fenômeno não se deve apenas a uma vitória do capitalismo. Na prática, a nova sociedade não destruiu tudo que herdara, mas adaptou o legado do passado para uso próprio. É a essa situação que uma parte da humanidade já teve de acomodar-se no final do século; no novo milênio, outras deverão fazê-lo.
A edição brasileira traz ainda um rigoroso índice remissivo, capaz de tornar esse calhamaço de 600 páginas um livro de cabeceira acessível diante de qualquer dúvida histórica que se queira esclarecer sobre o século 20.
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