Por Cláudia Castro Lima
Berço de civilizações com mais de 8 mil anos, o Iraque, com 435 mil quilômetros quadrados, está situado exatamente sobre a antiga Mesopotâmia – o vale entre os rios Tigre e Eufrates. Ali nasceram a escrita e a legislação, a agricultura e a metalurgia. Sumérios, assírios, acádios e babilônios construíram centros comerciais e religiosos, esculpiram obras magníficas e templos exuberantes. Todo esse legado inestimável foi (e ainda está) ameaçado pela investida militar dos Estados Unidos, em março e abril deste ano.
Antes de o conflito começar, os especialistas da Unesco alertaram para o perigo de bombardeios em cerca de 4 mil sítios arqueológicos do país (há pelo menos 25 mil no Iraque), além do risco de saques. O governo americano prometeu preservar os sítios e evitar os roubos, mas o que se viu após as tropas invadirem a capital, Bagdá, por exemplo, foi bem diferente: o Museu Nacional do Iraque – o mais importante museu mesopotâmico do mundo, com um acervo de 170 mil peças – foi saqueado. “Nos sítios arqueológicos que estavam sob proteção do Exército iraquiano houve pouco ou nenhum estrago, até onde pudemos observar”, diz o professor de arqueologia McGuire Gibson, da Universidade de Chicago, que esteve em Bagdá, em junho. No entanto, segundo ele, a situação do patrimônio cultural e arqueológico é muito ruim. “Já esperávamos os saques e a destruição, o que surpreendeu foi a escala em que isso ocorreu”, afirma. A Unesco diz que só o Museu Nacional perdeu 6 mil peças – mas o trabalho de contagem ainda deve levar meses.
A maioria dos sítios escapou das bombas, mas não dos vândalos e saqueadores. Em Babilônia, o museu e a casa do diretor do sítio foram saqueados. Em Nínive, buracos de bala foram feitos no palácio de Sennacherib e em Nimrud ladrões levaram objetos e pedaços da parede de um templo que ainda estava sendo escavado. “Em Hatra, estátuas e arcos de monumentos foram destruídos a tiros”, diz Gibson. No sul do país, região mais atingida pelas tropas americanas, a situação foi ainda pior. “Alguns sítios sumérios, como Umma, Zabalam, Isin e Umm al-Aqarib, podem estar totalmente perdidos”, afirma.
Mapa do tesouro
As cidades iraquianas estão entre as mais velhas do mundo
Hatra
Único sítio do Iraque reconhecido pela Unesco como patrimônio da humanidade. A cidade teve um período romano, do qual resquícios como muros e praças ainda podem ser vistos
Nínive
A cidade bíblica foi sede administrativa e religiosa dos assírios no século 7 a.C. Desse período, restam um muro de 12 quilômetros que protegia a cidade e o palácio do rei Sennacherib
Assur
Foi a primeira capital dos assírios. Os antigos habitantes acreditavam que o deus Assure habitava as montanhas que cercam a cidade, onde há sítios com mais de 3 mil anos
Nimrud
Foi a segunda capital do Império Assírio (900 a.C). No local, escavações descobriram palácios e tumbas intactas contendo tesouros, além de um imponente muro de pedra trabalhado
Babilônia
Em 2 350 a.C. já era habitada. Foi capital do reinado de Hamurábi (1792-1750 a.C.) e centro cultural por mais de 2 mil anos. Famosa pelos jardins suspensos e pela torre de Etemenanki
Bagdá
Fundada em 762, sua glória como uma das mais importantes cidades do islamismo está refletida nas Mil e Uma Noites
Nippur
Por milhares de anos, foi um local de peregrinação de babilônios e assírios. Escavações descobriram objetos com 6 mil anos
Ur
Cidade suméria com mais de 6 mil anos. O zigurate de Ur – templo construído pelo rei Ur-Nammu – tornou-se símbolo dessa civilização
Basra
Ao sul da cidade, fundada em 637 a.C., fica Al Kuma, local que teria inspirado o mito bíblico do Jardim do Éden, de Adão e Eva
Baixas de guerra
Veja o que aconteceu com alguns artefatos tão antigos quanto a civilização humana
O que sumiu
1. Toras de argila com inscrições assírias com mais de 3 mil anos
2. A cabeça Warka, escultura suméria datada de 3100 a.C., encontrada em Uruk. Duas cópias idênticas foram deixadas para trás
3. Cabeças de mármore de Poseidon, Apolo e Eros, procedentes de Hatra, datadas do século 2
2. A estátua de Bassetki com inscrições acádias do século 2 a.C. Feita de bronze, pesa 160 quilos
O que foi salvo
1. A cabeça de Sargon, imagem esculpida em mármore de um rei acádio, datada de mais de 4 mil anos, foi guardada no Banco Central iraquiano antes da guerra
2. Tesouros das tumbas reais de Nimrud de 900 a.C., incluindo coroas, peças de ouro e jóias de pedras preciosas, também estavam no cofre do Banco Central
3. Ossos fossilizados, com mais de 15 mil anos, que estão entre os mais antigos vestígios de ancestrais humanos já localizados no Oriente Médio, foram recuperados intactos no Museu Nacional
4. Estátuas e peças decorativas de estilo romano, datadas do século 1 a.C., foram protegidas por moradores vizinhos do sítio, em Hatra
O que foi danificado
1. Painéis de marfim do século 1 a.C. foram pisoteados durante o saque em Bagdá
2. O vaso de Warka, uma relíquia que tem mais de 5 mil anos, foi devolvido por três iraquianos ao Museu Nacional, de onde fora roubado. Ele estava em cacos, mas, pelo menos, todos os pedaços estão lá
3. Uma monumental cabeça de leão esculpida em pedra em tamanho real, datada do século 1 a.C., foi despedaçada
4. Centenas de objetos de cerâmica de diversos povos da Mesopotâmia, inclusive um modelo completo de uma casa de 200 a.C., foram esmagados durante o saque ao Museu Nacional do Iraque
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