Descrições equivocadas, erros de datas e omissões colocam em dúvida a veracidade do relato da viagem do veneziano à China. E até sua própria existência
por Isabelle Somma
Em 1324, no leito de morte, Marco Polo recebeu a visita de um padre. O religioso foi ouvir a confissão, para que o moribundo pudesse ser perdoado dos pecados cometidos. O principal deles era o hábito de mentir. Polo atraía jovens em sua casa ao relatar histórias inacreditáveis sobre um país distante e desconhecido pelos europeus, a China. Dizia que lá havia dinheiro de papel, pedras negras que pegavam fogo e pratos de barro fino e branco que eram usados para comer. Nem a ameaça de ir para o inferno dobrou o mercador veneziano. “Eu não contei nem a metade”, disse ele ao padre.
Na época, Marco Polo era conhecido em Veneza, sua cidade natal, como “Il Milione”, um contador de mil histórias fantásticas e pouco dignas de crédito. Afinal de contas, ninguém podia imaginar que, um dia, cédulas de papel substituiriam moedas de ouro, o carvão mineral seria tão usado quanto a lenha e a porcelana tomaria o lugar das cuias de metal. Mesmo antes de isso ocorrer, Marco Polo foi alçado ao Olimpo dos heróis desbravadores de terras desconhecidas graças a sua obra, O Livro das Maravilhas – também conhecida como Descrição do Mundo ou As Viagens de Marco Polo. O relato da fantástica viagem ganhou fama e até fãs ilustres. Um deles foi Cristóvão Colombo, que levou uma edição para usar como guia na jornada rumo ao Oriente. E, como se sabe, o volume tornou-se mais um peso na bagagem do descobridor, que acabou indo parar na muito mais desconhecida América.
Não se sabe se Il Milione mentiu tanto a ponto de estar queimando no inferno até hoje. Mas há fortes indícios de que, no mínimo, ele era um observador relapso. No livro de Marco Polo há uma série de fatos imprecisos, descrições que não correspondem à realidade, omissões e até pistas que podem levar a crer que ele nunca sequer botou os pés na China. “Eu duvido que Marco Polo tenha ido à China e que o texto Descrição do Mundo seja um relato escrito por apenas uma testemunha”, afirma a historiadora Frances Wood, chefe do departamento de chinês da British Library, em Londres. Segundo ela, ele teria se apropriado de relatos orais e escritos de viajantes persas e árabes ou até do próprio pai, Nicolò, e do tio, Maffeo, que estiveram na década de 1260 em Caracorum, capital dos mongóis, onde teriam se encontrado com Kublai Khan em pessoa.
“Eu acho altamente provável que a base do material (o livro) tenha sido um guia persa para viajantes para o Oriente”, afirma a sinóloga britânica. A desconfiança se deve ao fato de que Marco Polo usa nomes persas ou árabes para se referir a pessoas e localidades chinesas. Marco Polo afirma, todo gabola, ter servido à corte do fundador da dinastia Yuan por 17 anos. Mas, mesmo assim, ele nomeia o mandatário mongol da mesma forma que os persas faziam e como o Ocidente o conhece ainda hoje: Kublai Khan. Até a capital da dinastia Yuan, fundada por Kublai, é chamada de Cambaluc por Marco. Mas na China, a cidade era conhecida como Dadu (em mongol) ou Zhongdu (em chinês). É muito estranho que ele use termos estrangeiros depois de quase duas décadas morando no local.
Há ainda um agravante: as semelhanças entre o livro de Marco e o de Rashid al Din (1247-1318), um médico contemporâneo que servia a Oljeitu, khan da Pérsia e parente de Kublai. A grafia do nome de pessoas e de lugares referentes à China se encaixa nos dois relatos. Da mesma forma, ambos cometem erros similares, como a localização do lago Iachi. A diferença é que Rashid al Din era persa e jamais afirmou ter visitado a China.
Mais impressionantes ainda são as coincidências entre as obras de Polo e do viajante árabe Ibn Battuta (1307-1377). Nascido em Tânger, no norte da África, quase 50 anos depois do veneziano, Battuta também descreveu o papel-moeda, o carvão mineral e a porcelana. Polo relata a existência de cisnes gigantes; Battuta menciona galinhas enormes. A descoberta foi feita pelo historiador alemão Herbert Franke, que prefere dar o benefício da dúvida a favor do que afirma Marco Polo em seu livro. Apesar da diferença de meio século entre os dois escritores, Franke também acredita que ambos tiraram informações de uma fonte comum.
Muralha? Que muralha?
Se Marco Polo realmente se apropriou das descrições de terceiros, deixou muita coisa importante de fora. Em seu relato, ele se atém a detalhes sobre comércio, principalmente sobre mercadorias vendidas nos mercados orientais. É compreensível. Afinal de contas, era um mercador, assim como seu pai e seu tio, que o acompanharam nos 24 anos em que esteve viajando. Por outro lado, é difícil entender como, depois de viajar tantos anos pela China trabalhando como emissário do khan, o veneziano não viu ou se esqueceu de relatar a existência da imponente Muralha da China.
A falta de menção da construção levou o inglês sir George Staunton (1781-1859) a comentar, no século 18, que ela não existia no tempo do veneziano. Mas isso não é verdade. As obras da muralha haviam sido iniciadas há pelo menos 15 séculos. O conjunto começou a ser erguido pelo excêntrico Shi Huangdi, que reinou entre 221 a 206 a.C., o mesmo imperador que foi enterrado com um exército de guerreiros de terracota em Xian. A fortificação também era feita de terra e, após a sua morte, ganhou torres e sinaleiros. Somente na dinastia Ming (1368-1644), que ascendeu ao poder cerca de 70 anos após a partida dos Polo, a muralha ganhou a cobertura de tijolos. Por isso, a hipótese mais provável é a de que, na época, a construção estava tão mal conservada que passou despercebida pelos olhos pouco atentos do veneziano.
Marco Polo pecou por outras várias omissões. Muitas delas foram devidamente relatadas por viajantes que estiveram no Oriente no mesmo século em que o veneziano, como a caligrafia. Usada pelos chineses seja em pedras decorativas nos bem cuidados jardins dos aristocratas ou nos papéis-moeda descritos pelo próprio Marco Polo, ela não ganhou uma linha sequer no O Livro das Maravilhas. O monge flamengo Guilherme de Rubruck (1210-1270) descreveu a escrita chinesa mesmo sem ter ido à China. Ele esteve em Caracorum na década de 1250 e se surpreendeu com aqueles traços incompreensíveis. Mesmo vivendo entre os chineses por quase duas décadas, Marco Polo não deu ao assunto a mesma atenção que o monge, que por ali ficou apenas três anos. “Em uma mesma viagem, várias pessoas fazem um relato diferente. E, no caso de Marco Polo, ele observou mais o comércio”, justifica o professor Mario Bruno Sproviero, professor de chinês do Departamento de Letras Orientais da USP.
A caligrafia também era base para uma das mais criativas invenções dos chineses, que permaneceu desconhecida na Europa até o século 15: a imprensa. O mercador pode não ter visitado uma oficina tipográfica, mas seria fácil ter percebido a existência de vendedores de livros nos mercados por onde passou e que tanto lhe chamaram a atenção. Como bom mercador, Marco Polo descreve os gêneros alimentícios vendidos nas feiras livres espalhadas por todo o território. Mas deixa de lado os desconhecidos livros, que tinham até um mercado próprio em Suzhou, cidade que ganhou uma longa descrição de Polo.
Um hábito tão comum entre os chineses, o de tomar chá, também foi ignorado por Polo. O chá está para os chineses assim como o cafezinho está para o brasileiro, grosso modo. Mas parece que, no longo período em que esteve na China, Marco Polo provavelmente não sorveu um único gole de chá, apesar de ser quase uma obrigação social. Era costume entre os chineses convidar um amigo para uma cordial visita a uma casa de chá e não à sua própria casa. Por isso, se Marco Polo era tão bem relacionado como conta em seu livro, deveria ter sido convidado pelo menos uma vez para bebericar uma infusão. Costume, aliás, muito comum em cidades como Hangzhou e Suzhou, descritas por ele no livro. Para a defesa de Polo, está o fato de que o hábito só se popularizou no norte da China a partir do final do século 13, quando ele estaria de malas prontas para voltar à Europa. “Ele devia estar mais inserido nas cortes mongóis e a adaptação deles (mongóis) deve ter sido mínima”, lembra o professor Mario.
Portanto, estando numa corte avessa ao hábito, ele talvez não tivesse tido o interesse de experimentar a bebida.
A mesma justificativa pode também explicar a ausência de um costume bizarro que chamaria a atenção de um viajante de qualquer parte do planeta: dobrar os pés das mulheres para torná-los pequenos. Popular somente entre as altas camadas da sociedade chinesa, a prática consiste em enfaixar os pés das meninas, dobrando-os. As ataduras eram molhadas e, quando secas, encolhiam e apertavam ainda mais. Com os anos, os músculos atrofiavam e os pés ficavam pequenos e pontudos. Esse costume não passou despercebido por outro viajante italiano, o frei Odorico de Pordenone (1265-1331). Em 1330, dois anos depois de voltar da China, o religioso descreveu o costume.
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