segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Matisse e Picasso

Os dois maiores pintores do século 20 têm uma história em comum. Amigos e rivais, eles travaram uma batalha que enriqueceu o mundo das artes e criou algumas das mais belas obras de todos os tempos
por Sérgio Miranda
Paris, 1906. Na cidade que era o centro do planeta fervilhava o impulso criativo. As transformações tecnológicas, artísticas e sociais não deixavam dúvida: se um mundo estava prestes a nascer, era ali que tudo começaria. Tomada por automóveis ruidosos durante o dia, à noite Paris era iluminada pela eletricidade. Nem os céus estavam livres da volúpia dos homens. Dirigíveis cruzavam o horizonte e aviões arriscavam seus primeiros vôos. Como na Viena do século 18, onde Mozart e Haydn dividiam as atenções, ou a Florença do século 16, em que conviveram Michelangelo e Da Vinci, a Paris do século 20 viu surgir dois gênios das artes: Matisse e Picasso.
Henri Matisse e Pablo Picasso protagonizaram, durante toda a primeira metade do século, uma das mais produtivas convivências da história das artes plásticas, recheada por tudo que uma intensa relação traz: rivalidade, ciúme, provocações, influências e admiração mútua.
“Falar que um influenciou o outro é simplificar ao extremo o que havia entre eles”, afirma Anne Baldassari, curadora do Museu Picasso, em Paris. Para ela, a palavra mais adequada para definir o relacionamento entre Picasso e Matisse é diálogo. “Eles se visitavam, trocavam quadros, desenhos e esculturas. E, depois, respondiam sempre por meio de novas obras. Boa parte da arte moderna pode ser explicada somente abordando esse diálogo”, diz.
Quando se encontraram pela primeira vez, em março de 1906, Matisse já era reconhecido como a mais importante expressão do movimento fauve (“selvagem”), nascido um ano antes em Paris (é claro!). Picasso, 12 anos mais novo, encontrava-se em posição bem diferente. Menino prodígio na Espanha, em 1904 chegou à cidade, onde ainda lutava para ter suas obras aceitas pela crítica francesa.
No início daquele ano, Picasso conheceu a obra de Matisse A Felicidade de Viver. Na tela, o mestre francês usa a cor pura numa criação que não se preocupa com o realismo das figuras ou das cores, seguindo os impulsos, as sensações primárias. Isso impressionou Picasso, que convidou-o, por meio de um amigo em comum, para ir a seu ateliê. Matisse, particularmente interessado em conhecer de perto o trabalho de Picasso, aceitou. Algumas semanas depois, a campainha do pequeno sobrado na rua Ravignan tocou. Picasso abriu a porta e deu de cara com um Matisse sorridente. “Olá, Pablo”, disse. Picasso ficou feliz, abraçou-o e beijou-lhe a face. “Como vai?”
Embora de personalidades distintas – Picasso tinha um temperamento impulsivo, enquanto Matisse era reservado –, deram-se muito bem. Para Yve-Alain Bois, professor de história da arte da Universidade de Harvard, Estados Unidos, ambos reconheceram no outro, instintivamente, seu único e verdadeiro rival. “A partir daí, passaram a se encontrar com regularidade, freqüentando seus estúdios e iniciando uma relação baseada na competitividade, sem dúvida, mas também na curiosidade e mútua influência.”
Entre as trocas que se seguiram, Matisse apresentou Picasso à arte africana. “Ele mostrou-lhe uma estátua de madeira do século 19 e Picasso ficou impressionado com ela. No dia seguinte, quando cheguei a seu estúdio, o chão estava coberto por folhas de papel. Em cada uma havia um rascunho quase idêntico: o rosto de uma mulher com apenas um olho, o nariz muito comprido, convergindo com a boca”, disse o poeta Max Jacob, segundo relato do escritor André Salmon, no livro Letters from Paris (“Cartas de Paris”, inédito em português). A mesma figura apareceria no ano seguinte, naquele que seria o quadro mais importante do século 20: As Senhoritas de Avignon. Picasso dava a partida para o cubismo, estética fundamentada na destruição da harmonia clássica das figuras e na decomposição da realidade. O cubismo foi um rompimento com tudo e com todos. Inclusive com Matisse.
Para Matisse, as relações entre as cores são mais importantes que a própria cor. “É por isso que não se pode separar desenho e cor”, dizia. Ele ficou perplexo frente à dissociação dos dois elementos, mas admirou a facilidade com que Picasso fez isso.
No livro A Angústia da Influência, o professor Harold Bloom, da Universidade de Yale, Estados Unidos, transcreve uma entrevista de Matisse sobre essa fase da sua relação com Picasso. “Nunca evitei a influência dos outros. Eu consideraria uma covardia e uma falta de sinceridade comigo mesmo. Acho que a personalidade do artista se desenvolve na luta com outras personalidades.” Para Matisse, não havia outros. “Os outros” era Picasso.
Mesmo essa declaração, que parece indicar que Matisse aceitava a ascendência de Picasso, pode ser lida ao contrário. Matisse a fez dias após ver As Senhoritas... e reconhecer nelas a influência da arte africana. Será que o francês não insinuou que Picasso é que havia sucumbido?
Nem o divórcio estilístico nem a rivalidade impediram que os dois gênios lambuzassem seus pincéis na palheta alheia. Em 1913, Matisse aventura-se pelo cubismo e pouco depois é a vez de Picasso estudar a linguagem de Matisse. Durante quatro anos Matisse dedicou-se à linguagem cubista e produziu algumas de suas obras mais assombrosas, mas percebeu que corria um risco muito grande: a abstração. Matisse dá adeus ao estilo com Lição de Música, de 1917, uma provocação a Picasso. Dessa vez, a resposta não veio. Justamente nessa fase, Matisse ficou doente e, talvez aborrecido por ter sido ignorado no momento em que mais se aproximou do rival, resolveu se mudar para Nice. Apesar de estar a 700 quilômetros de Paris, para o mundo das artes era como se exilar na Lua.
“Há anos não vejo Picasso. Não tenho a menor vontade de revê-lo, pois ele é um bandido, sempre de tocaia”, escreveu Matisse à filha Marguerite, em 1926. O período em Nice não foi bom para ele. Seu estilo tornara-se prudente e conservador demais e a maioria da crítica achava que ele estava no fim da carreira. Na mesma época, Picasso era uma estrela. Um artista mimado por todo o mundo, tanto pela vanguarda (os surrealistas o amavam) como pela clientela endinheirada. Ele dominava o mercado e alcançava preços sempre maiores que Matisse.
Mas, entre festas e vernissages, Picasso pensava em Matisse. “De 1928 a 1930, suas telas, principalmente os acrobatas e as odaliscas, tinham a óbvia pretensão de provocar o rival, de implicar com ele, de incitá-lo a sair da toca”, diz Yve-Alain Bois. Matisse resistia. Recluso em Nice, só ia a Paris em caso de necessidade. Em 1933, Picasso fez duas declarações de paz. Em meio às críticas cada vez mais cruéis ao francês, ele homenageou o rival em dois desenhos.
Matisse cedeu e, no ano seguinte, voltaram a se encontrar. Sem a ansiedade de antes, sem a tensão das réplicas, eles passaram a se ver nas galerias (onde descobriram um inusitado interesse comum por Miró), assinaram petições por esta ou aquela causa humanitária ou social. Quando se encontravam em público eram celebridades e, embora não tivessem a mesma fama, isso já não os preocupava tanto. No livro Matisse Picasso, Elizabeth Cowling, professora da Universidade de Edimburgo, Escócia, relata uma cena que ilustra esse período: “Ao entrar no Le Coupole, em Montparnasse, Matisse ouviu um burburinho entre os freqüentadores e os garçons correram em sua direção: ‘Acham que sou Picasso’, disse ele”.
O duelo havia se transformado em bailado. “Um foi conquistado pela arte do outro e essa camaradagem transpirou tanto nas relações particulares quanto públicas, mas, sobretudo, na criação artística de cada um”, afirma Bois.
Só uma guerra para separá-los. Na França ocupada pelos nazistas, embora em cenários diferentes – Picasso em seu ateliê, em Paris, e Matisse em seu apartamento, em Nice – os dois levavam vidas parecidas. “Saíam pouco, procuravam não chamar atenção e evitavam contato com os alemães”, diz Anne Baldassari. Picasso sentia-se ameaçado por ser estrangeiro e passou a ser vigiado – ele e Léger eram os únicos artistas não-judeus proibidos de expor.
Era a vez de Matisse defender o amigo. Ele ficou aborrecido com o boato que circulou em Nova York sobre Picasso. Diziam que o espanhol fora declarado louco e enclausurado num asilo. Matisse escreveu ao filho, Pierre, nos Estados Unidos: “Isso é infame. Ele vive, muito dignamente, em Paris, trabalha, não quer vender quadros, não está pedindo nada”.
Na época, a única comunicação entre os dois eram as obras que mandavam um para o outro sempre que havia um portador confiável. E Picasso adorou os desenhos que Matisse lhe enviou. “O motivo sugerido por um deles – mulheres de chapéu – virou uma fixação para Picasso, que as pintou em série. Foram pelo menos nove telas sobre o tema”, diz Bois.
Após a guerra, eles combinaram uma exposição conjunta. O plano era rodar o mundo para mostrar que a arte resiste à dominação. Matisse, embora doente, estava animado e queria saber que tipo de molduras Picasso usaria – ele preferia que elas fossem iguais e bem simples. No dia 3 de agosto, ele escreveu num de seus cadernos: “Amanhã, às 4 horas, visita de Picasso. Como vou vê-lo, minha cabeça já começou a trabalhar. Vamos fazer essa exposição diplomática em Londres. Penso numa sala com meus quadros de um lado e os dele de outro. Sinto como se fosse coabitar com um epilético. Vou parecer bem comportado (um pouco ingênuo para alguns) ao lado das suas pirotecnias. Mesmo assim, vou em frente. Não rejeitei essa vizinhança difícil e bem constrangedora. Um dia justiça será feita. No fim das contas, será que ele não tem razão? As pessoas são tão malucas”.
Talvez seja esse o mérito de Matisse, na sua relação com Picasso. E certamente era isso que o espanhol mais admirava nele. Matisse não recusou vizinhança tão esmagadora, cruel em sua genialidade quase absoluta. Esse quase era Matisse.
Em 3 de novembro de 1954, Matisse morreu. Picasso não foi ao enterro. Nem atendeu ao telefone, quando a filha de Matisse ligou para avisá-lo. “A indiferença parece puro terror frente à morte do amigo. Durante 50 anos o diálogo com Matisse tinha sido a força que impulsionava sua obra”, diz Anne Baldassari.
Mas Picasso responderia ao definitivo silêncio de Matisse. Em 1956, ele pinta Ateliê na Califórnia. No meio do quadro, emoldurado por temas obviamente matissianos – como as palmeiras, o motivo botânico das paredes –, uma tela branca sobre o cavalete, bem visível, nos atrai como um amante. O cenário só aguarda a chegada de Matisse.
Traços paralelos
1906
Picasso impressiona-se com A Felicidade de Viver 1, de Matisse e o convida a seu ateliê. Matisse é levado a conhecer Retrato de Gertrude Stein, em que Picasso vinha trabalhando
1907
Picasso inaugura o cubismo com As Senhoritas de Avignon 2, obra-prima do século 20
1914
Matisse e Picasso se aventuram no campo alheio. O primeiro tenta o cubismo em Peixes Vermelhos e Paleta, e o segundo arrisca o fauvismo, com Arlequim
1916
Em Lição de Piano 5, Matisse faz sua aproximação máxima do cubismo
1926
Picasso pinta Odalisca, rebatizada depois de Dançarina com Tamborim, exposta na galeria de Paul Rosenberg. Logo depois, Matisse apresenta sua Odalisca com Tamborim
1931
Desenhos de Picasso acompanham a edição das Metamorfoses, de Ovídio. No ano seguinte, Matisse ilustra as Poesias, de Mallarmé. Do mesmo ano é a obra Mulher com Cabelo Amarelo 4, de Picasso
1940
Matisse pinta O Sonho 3
1949
Matisse trabalha na decoração da Capela do Rosário, em Vence. Dois anos mais tarde, Picasso inicia a painéis A Guerra e A Paz, para a Capela de Vallauris
1956
Após a morte de Matisse, Picasso pinta Ateliê na Califórnia 6 em homenagem ao amigo. Entre diversos temas matissianos, ele deixa uma tela em branco, estrategicamente posicionada, à espera de Matisse
Saiba mais
Matisse e Picasso, Yve-Alain Bois, Melhoramentos, São Paulo, 1999
Matisse-Picasso, Elizabeth Cowling (org.), Tate Publishing, Londres, 2002
O livro de Bois é ótimo. Ricamente ilustrado, ele fornece um painel completo da obra de um e de outro. A publicação organizada por Cowling foi baseada nos textos do catálogo da exposição de Picasso e Matisse no Museu de Arte Moderna de Nova York, em 2002.

Nenhum comentário:

Postar um comentário