Desastre eleitoral na França prenuncia colapso da social-democracia.
As eleições parlamentares francesas de março confirmaram as previsões mais catastróficas para os socialistas do presidente François Miterrand. No primeiro turno, menos de 18% dos votantes sufragaram os candidatos do PS, contra perto de 40% da coalizão conservadora UFP. Cerca de 30% dos eleitores abstiveram- se. O PSF foi reduzido a uma minoria quase marginal.
Reconstruído por Miterrand em 1971, no Congresso de Épinav, o Partido Socialista Francês chegou ao poder dez anos depois, cavalgando uma avalanche de esperanças reformistas de J. B. Natali). Doze anos de governo separam aquele momento da catástrofe de março. Mais que a perda do poder, a derrota anuncia a morte do próprio partido.Michel Rocard, presumível candidato socialista à Presidência em 1995, já empunha a badeira do “big-bang”, a auto-imploão do PS. O “big-bang” poderá se estender a outros tradicionais partidos social-democratas europeus. O PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol), no poder desde 1982, corre o risco de perder as eleições de 6 de junho para uma direita precária, de origem franquista. O PS italiano foi parar no noticiário policial, envolvido no mar de lama que abala Roma.
O movimento socialista originou-se nas últimas décadas do século XIX, junto com os grandes sindicatos e indústrias. Gradualmente, abandonou a idéia de revolução, trocando-a pela luta por reformas democráticas. Essa substituição gerou a ruptura entre socialistas e comunistas. No século XX, por duas vezes, a social-democracia renasceu das cinzas. Golpeada pela emergência dos nacionalismos, à época da 1a Guerra (1914-18), ressurgiu na crista da prosperidade efêmera da década de 20. Demolida pelos nazifascistas, ressurgiu acomodando-se à Guerra Fria e à divisão do continente em blocos geopolíticos.
A reconstrução européia do pós-Guerra, iniciada com o Plano Marshall, formou o ambiente da reconstituição dos PGs, ancorados em bases parlamentares e sindicais. Desde os anos 60, a estabilidade da política européia assentou-se na alternância de poder entre os social-democratas e os conservadores. Na década de 80, o ciclo econômico inverteu-se. Sob o impacto da nova revolução tecnológica e da especulação financeira, as indústrias tradicionais entraram em crise. Os sindicatos perderam seu poder de pressão, enquanto crescia o desemprego . O neo-liberalismo iniciou a destruição das leis sociais erguidas nos trinta anos precedentes.
Os socialistas curvaram-se aos novos ventos, abandonando as raízes reformistas.
Na França e na Espanha, revelaram-se neo-liberais extremados, aplicando meticulosamente a política dos outros. Vítima da depressão econômica e do caminho que escolheu, a socialdemocracia arrasta na sua agonia o conjunto do sistema partidário europeu do pós-Guerra.
“EM 1981, A ESQUERDA FESTEJOU A VITÓRIA COMO SE FOSSE A COPA DO MUNDO”
J. B. NATALI
A esquerda na França tem uma história quase apenas de derrotas. É por isso que em maio de 1981 a eleição de F r a n ç o i s Miterrand à Presidência foi comemorada nas ruas pelo leitorado socialista com a mesma alegria com que, no Brasil, comemoraríamos a vitória na Copa do Mundo. Eu estava lá. Era correspondente da Folha de S. Paulo, e cobri os momentos mais importantes da campanha. Corri o país em caravanas que atravessavam florestas da região dos Vosges, passavam por planícies da Bretanha e cidades como Lyon.
No início, Miterrand aplicou um programa com duas características básicas. A primeira consistia em fazer com que o Estado participasse mais da economia. Foram nacionalizados os bancos e os oito principais conglomerados industriais. A segunda foi social: as férias passaram de quatro para cinco semanas por ano e a jornada semanal de trabalho caiu de 40 para 39 horas. Mas, estatizar a economia era nadar contra a maré. A partir de 1986, parte dos bancos e fábricas que o governo havia encampado voltou ao setor privado. As conquistas trabalhistas foram mantidas. O salário mínimo aumentou mais rapidamente que a inflação e é superior a R$25 milhões (cerca de mil dólares). Os desempregados (10% da mão de obra ativa, muito para a França mas nem tanto para o Brasil: em SP, o desemprego vitima 15%) ganham por 30 meses uma mesada correspondente a 60% de seus salários, e os destituídos de meios de sobrevivência – 400 mil dos 57 milhões de habitantes – recebem mesada de Cr$12milhões.
A divergência entre a esquerda e a direita está entre outras coisas na maneira como se melhoraria o padrão de vida. A direita acredita que o mercado possui uma “mão invisível” que redistribui riquezas quando elas são acumuladas.
A esquerda acha que o Estado deve dar uma mãozinha. Há alguns anos as diferenças eram bem mais radicais. A esquerda queria fazer uma revolução socialista, e a direita estava disposta a tudo para impedi-la.
Instituiu uma ditadura, com ajuda dos nazistas na 2ª Guerra.
Eu não acompanhei os detalhes da experiência socialista. Voltei ao Brasil em 1982. Mas deu para saber o que se passava. Penso que valeu a pena para os franceses. Eles são um país do 1° Mundo, os serviços públicos funcionam e, no fim das contas, a opção entre direita e esquerda foi só uma ligeira inflexão no rumo de uma vida de qualidade cada vez maior.
SERVIÇO:
• O Que É Socialismo e O Que É Comunismo, de Arnaldo Spindel, Primeiros Passos,
Brasiliense, SP
• Revolução e Guerra Civil na Espanha, Angela Mendes, Tudo É História, Brasiliense, SP
• Recomenda-se, além disso, a leitura dos “clássicos”(Karl Marx, Vladimir Lênin, Leon
Trostsky, Rosa Luxemburgo)
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