A crise na Rússia é uma incógnita que não se esgota nas suas fronteiras territoriais. Os eventos na Rússia acabam afetando o equilíbrio mundial – por suas dimensões continentais e poderio bélico.
Um exemplo é o conflito nos Bálcãs. Laços e alianças militares consagrados unem o Estado russo, em particular a cúpula militar, à Sérvia (como ilustra a frase de Kissinger).
A política russa obedece a um ritmo próprio, quase a um padrão. Períodos calmos, às vezes longos, são interrompidos por erupções descontroladas de paixões, sem que se possa identificar o evento detonador. Esse padrão deu sinais de vida no final do último inverno, que transcorreu sob o signo de um silêncio tenso, pontuado por atos neo-comunistas.
Em março, a trégua entre o presidente Boris Ieltsin e o Parlamento foi substituída por um braço de ferro que levou manifestantes às ruas, alimentou a tensão militar e provocou movimentações diplomáticas em Washington, Bonn e Tóquio. O confronto – aparentemente centrado na repartição de poderes entre a Presidência e o Parlamento, e na velocidade das reformas econômicas – revelou a fragilidade das instituições de um Estado que permanece parcialmente regido pelas leis da antiga URSS. A mídia mundial, presa a esquemas simplistas, descreveu o confronto como mais um embate entre reformistas (Ieltsin) e neo-comunistas (o Parlamento, de Khasbulatov). Mas o cerne da crise é o problema da reorganização do poder de Estado, que foi pulverizado com o fim da URSS, em dezembro de 1991.
O poder central autoritário foi o instrumento de formação da Rússia, desde os primeiros czares. Moscou e São Petersburgo expandiram os territórios imperiais e subjugaram povos da Sibéria, Ásia central, Cáucaso e Europa. A Revolução de 1917 preservou o império, mas com as roupagens do comunismo. O fim da URSS abriu o caminho para a liquidação do império. No seu lugar, surgiram 15 Estados independentes. A diversidade de povos libertou-se do poder de Moscou. Iniciou-se o caótico processo de afirmação das particularidades étnicas.
A população de origem russa que habita os novos Estados foi transformada em minoria étnica e fonte de conflitos com as populações locais .
“Populações russas na antiga União Soviética). Na Moldova e na Geórgia, russos étnicos protagonizaram conflitos armados com os governos locais, empunhando a bandeira do separatismo.
No Báltico, (que não faz parte da CEI), são implantadas leis contra russos étnicos.
Na Ásia central, de maioria muçulmana, cresce a influência política do Islã. Vizinhas do Irã e Paquistão, essas repúblicas poderão adotar regimes fundamentalistas.
Em Moscou, o caos étnico e o islamismo são vistos como ameaça e alimentam o nacionalismo imperial da Grande Rússia.
A independência das repúblicas jamais foi integralmente aceita pelos grupos que hoje disputam o poder. A manutenção de tropas do antigo Exército Vermelho nas repúblicas da CEI revelou a insatisfação russa diante da fragmentação territorial.
A crise institucional paralisa, ou atenua, as reações da Rússia diante do caos. Mas os sinais de perigo se multiplicam. Tropas russas estacionadas na Geórgia são acusadas pelo governo local de prestar ajuda às milícias separatistas dos russos étnicos. A recém- centralização do império, que só poderia ser imposta à custa da força e de conflitos sangrentos, aparece como alternativa cada vez mais concreta.
SERVIÇO
Para saber mais sobre a crise na Rússia, consulte:
• Perestroika, Mikhail Gorbatchov, BesteSeller, SP, 1987
• A Segunda Morte de Lênin, José Arbex Jr., Folha, SP, 1991
• O Novo Mapa do Mundo, Demétrio Magnoli, Moderna, SP, 1993
Vídeo:
• Táxi Blues, Pavel Lounguine, França/ URSS, 1989
• A Pequena Vera, Vasili Pichul, URSS, 1988
• A Fera da Guerra, Kevin Reynolds, EUA, 1988
O governo da Rússia, que já está sendo atacado por negligenciar seus interesses nacionais e
por uma excessiva subserviência aos EUA, não está em posição de fazer pressão sobre a Sérvia.
É concebível que Moscou ajude na aceitação do plano Vance-Owen (…) Mas a idéia de um voto
da Rússia em favor do “castigo” à agressão sérvia ou de soldados russos combatendo sérvios
vai por água abaixo em face da História. A participação da Rússia teria como objetivo proteger,
não punir a Sérvia (…) Eu seria contra a presença militar russa num caldeirão de tal magnitude.
Para chegar lá, as forças russas teriam que atravessar a Ucrânia, a Hungria, a Polônia ou a
Romênia, movimento que causaria calafrio em países que já sentiram a dificuldade de se verem livres das tropas russas.
(Henry Kissinger, ex-secretário da Defesa dos Estados Unidos, O Estado de S. Paulo, 02 de março de 1993)
Em função dos rumos tomados pelo conflito na Bósnia em 1992, os países da Comunidade Européia e os Estados Unidos, depois de muita hesitação, resolveram propor um plano de partilha para o país. Esse plano, conhecido como Vance-Owen, previa a criação de dez províncias com grande grau de autonomia, embora sem representatividade ao nível das relações internacionais.
Caso o plano venha ser implementado, ele estará fadado do fracasso, pois contempla ganhos territoriais, principalmente sérvios, obtidos à força em 1992. Essa partilha ainda cria verdadeiros enclaves de uma minoria no interior de uma área onde outra etnia é dominante. Os maiores beneficiados pelo plano serão a minoria sérvia, que, com sua política de “purificação étnica”, tomou para si cerca de 70% do território, embora o plano Vance-Owen lhe reserve cerca de 50%. Ao mais prejudicados foram os muçulmanos, sobre os quais mais duramente recaiu a política de “purificação étnica”.
“A Bósnia era um país pequeno, multi-étnico. Seu povo defendia o direito de viver junto, da
Mesma forma civilizada que viveu durante séculos. Sempre houve casamentos inter-étnicos lá. Se fossem dividir Bósnia e Herzegovina em regiões étnicas, a linha divisória passaria dentro dos quartos de dormir.”
(Ejup Ganic, vice-presidente da Bósnia-Herzegovina, O Estado de S. Paulo, 31 de janeiro de 1993, pág. 12)
SERVIÇO
• A Autoquestão Iugoslava, Bertino N. de Queiroz, Brasiliense, SP, 1982
• Leste Europeu - A revolução democrática, Jayme Brener, Atual, SP, 1990
• Nacionalismo - Desafio à “Nova Ordem” pós-Socialista, José Arbex, Scipione, SP, 1993
BÓSNIA RELEMBRA “PURIFICAÇÃO” NAZISTA
Um ano de guerra civil na Bósnia produziu incontáveis mortos, feridos e refugiados, mas não permitiu que se avançasse um centímetro no caminho da paz. Não é para menos. A Bósnia, em vários sentidos, reúne todas as características presentes na “questão nacional” que atormenta a Europa.
Por sua localização, os Bálcãs sempre foram cenário da disputa entre impérios. A Iugoslávia – em particular, a Bósnia – sofreu os reflexos de séculos de guerras e cruzamento de culturas e etnias. Muitos dizem que a Bósnia e a “Iugoslávia da Iugoslávia”. Depois de quase quatro séculos sob o domínio turco e décadas sob o austro-húngaro, a Bósnia mudou sua condição ao final da 1ª Guerra, em 1918 .
Com o fim do Império Austro-Húngaro, ela passou ao Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos – a futura Iugoslávia.
O estatuto da Bósnia sofreu nova alteração em 1941, quando o Reino da Iugoslávia (nome que o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos passou a ter a partir de 1929) foi invadido por nazistas. A Bósnia foi anexada pelo Estado da Croácia, aliado dos alemães .
Com a derrota nazista, a Iugoslávia se transformou num país socialista, dirigido por Josip Broz Tito. A Bósnia passou a ser uma de suas seis repúblicas, até o início dos anos 90.
A passagem dos impérios sedimentou uma composição étnica bastante complexa.
Basicamente, três grupos formam a Bósnia: muçulmanos (43,7%), sérvios (31,3%) e croatas (17,3%). Essa particularidade populacional chega colocar em dúvida a existência de uma nacionalidade Bósnia.
A ditadura de Tito (1945-80) sufocou a tensão étnica. Os primeiros grandes conflitos eclodiram logo após sua morte, e se agravaram no final dos anos 80, como reflexo da crise do socialismo. Em 1991, a declaração de independência da Eslovênia e Croácia gerou um processo desintegrador do país.
Os sérvios da Bósnia temiam a criação de um estado muçulmano-croata, que poderia repetir massacres praticados na 2ª Guerra. Muçulmanos e croatas temiam que o tradicional imperialismo sérvio colocasse em prática o plano da Grande Sérvia – unir num só território a população da Sérvia e as minorias sérvias da Croácia e Bósnia. O conflito na Bósnia eclodiu no primeiro semestre de 1992, após um plebiscito para definir o futuro da região. Os sérvios boicotaram a consulta, que se definiu pela independência da Bósnia. Era a guerra civil.
Os conceitos de “raça”, “etnia” e “nação” são polêmicos, e serviram, muitas vezes, para justificar genocídios (como o praticado contra os judeus) ou o racismo (como o apartheid sul-africano). A polêmica é maior quando se discute sua relação com o Estado. Descrevemos, em
seguida, o que se entende usualmente com esses conceitos.
Raça: designa uma realidade bio-antropológica: é formada por indivíduos que têm em comum certas características hereditárias e culturais, como cor da pele, a conformação do crânio e do rosto, o tipo de cabelo e a herança lingüística.
Nação: indivíduos de uma ou mais raças que vivem num território organizado politicamente e que são ligados por laços culturais, históricos e econômicos sedimentados ao longo do tempo.
Compartilham uma compreensão comum sobre seu passado e as projeções para o futuro.
Etnia: Embora às vezes seja usada como sinônimo de raça, define grupos humanos que desenvolveram certa unidade cultural
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