As sociedades modernas nasceram libertando os camponeses,mas se desenvolveram expropriando-os e despovoando o meio rural
Os camponeses participaram, como coadjuvantes ou protagonistas, de todas as revoluções populares contemporâneas.
Na grande Revolução Francesa de 1789, a insurreição contra os senhores feudais e a queima de castelos formaram o pano de fundo da revolução urbana do Terceiro Estado.
Na Rússia de 1917, a revolta camponesa sacudia as profundezas do império, enquanto o proletariado se levantava nas cidades. Na Revolução Mexicana de 1910-17, a burguesia nacionalista liderada por Francisco Madero equilibrou-se, precariamente, sobre as ondas da revolta dos camponeses de Emiliano Zapata.
Nos três casos, os camponeses lutavam para se libertar da opressão dos senhores do campo, fossem eles nobres feudais ou latifundiários coloniais.
Queriam se tornar pequenos produtores independentes, livres para explorar a terra, colher a subsistência e vender os excedentes no mercado. Ironicamente, o sistema da moderna economia urbano-industrial, que prometia libertar os camponeses, terminou por conduzir à expropriação ou a novas formas de subordinação do campesinato.
No México, essa trajetória paradoxal começou com o Plano de Ayala, o programa zapatista de devolução das terras indígenas comunais (ejidos). O Plano de Ayala, mutilado e amenizado, foi posto em prática pela Assembléia Constituinte de 1917, controlada pelos dirigentes burgueses, no momento da derrota de Zapata. Mais tarde, entre 1935 e 1940, no governo de Lazaro Cárdenas, a reforma agrária ganhou novo fôlego, com a desapropriação dos latifúndios e a distribuição em massa de terras.
Atualmente, o campo mexicano move-se segundo uma lógica tripartida.
A produção camponesa dos ejidos domina as terras altas do centro do país, concentrando-se nos cultivos alimentares para o mercado interno. Os latifúndios (haciendas) predominam nas áreas de pecuária do norte e nas plantations litorâneas. A agroindústria moderna, empresarial, desenvolve-se nas regiões próximas à Cidade do México.
A reforma agrária mexicana não evitou a formação de uma imensa população excedente no meio rural, que não é absorvida pelos ejidos. Essa massa de miseráveis assalaria-se temporariamente nas haciendas e migra sazonal e ilegalmente para as fazendas do Texas e da Califórnia, nos Estados Unidos.
Grande parte dela formou a corrente humana infindável que, nas últimas décadas, deslocou-se para as cidades e constituiu a base de trabalhadores para a economia urbano-industrial.
Se o campesinato mexicano desaparece lentamente, na antiga União Soviética os camponeses foram eliminados de um só golpe, cataclísmico.
Tudo começou com a reforma agrária radical promovida pelos revolucionários bolcheviques, em 1917, que dividiram as terras dos grandes proprietários, criando uma classe de produtores rurais autônomos. Os anos 20 foram a era de ouro dos pequenos agricultores soviéticos, estimulados pelo brado do dirigente Nikolai Bukharin: “Camponeses, enriquecei-vos !”.
Essa época foi efêmera. Em 1928, Stalin decretou um giro econômico, destinado a promover a industrialização acelerada.
No campo, a nova linha do partido único consistia em acabar com a classe dos camponeses, através da coletivização forçada das terras. Sob a bandeira da luta contra o kulak, o camponês que enriquecia, foi deflagrado um dos grandes genocídios do século. Os fuzilamentos, o terror e, depois, a fome, destruíram a resistência agrária.
Sobre os cadáveres de muitos milhões de camponeses, nasceram as cooperativas agrícolas (kolkhozes) e as fazendas do Estado (sovkhozes).
Para além das estratégias econômicas, o regime totalitário pretendia eliminar a fonte inesgotável de reprodução de pequenos empresários que é o campesinato livre, destruindo assim as sementes do capitalismo.
A contra-reforma agrária stalinista deixou como herança uma agricultura caracterizada por níveis muito baixos de produtividade, que se converteu em foco de fraqueza estrutural da economia soviética. A força de trabalho dos kolkhozes e sovkhozes, destituída da propriedade da terra, jamais revelou qualquer traço do esforço ou da perseverança típicos do pequeno produtor independente. Uma das primeiras reformas dos anos de Gorbatchev (1985-91) consistiu em ampliar as áreas dedicadas ao cultivo familiar e restabelecer o mercado livre de alimentos, a fim de contornar a crise endêmica de abastecimento gerada pelo coletivismo agrário.
Se a maior contra-reforma agrária em todos os tempos foi a dos comunistas soviéticos, provavelmente a mais importante reforma agrária foi a que acompanhou a conquista do Oeste, nos Estados Unidos do século XIX.
A imigração em massa de europeus muitos deles camponeses que tinham perdido as suas terras no país de origem - foi estimulada pelo Homestead Act, de 1862, que distribuiu títulos de propriedade a preços simbólicos. Pouco mais tarde, a construção das ferrovias transcontinentais foi viabilizada pelas concessões de terras e pelos loteamentos privados, atraindo novas levas de colonizadores. Uma imensa classe de pequenos agricultores (farmers) nasceu da expropriação, por essa reforma agrária, das terras indígenas das planícies centrais.
O poderoso mercado interno norte-americano, dínamo da industrialização, assentou-se sobre a troca de mercadorias entre as cidades do Leste e os agricultores familiares do Oeste. Mas esse mesmo mercado, intensamente concorrencial, triturou aos poucos a espinha dorsal da classe dos farmers. A crise de 1929 e a depressão que ela engendrou conduziram massas de pequenos proprietários endividados a vender as suas terras.
Nas décadas do pós-guerra, a modernização técnica da economia rural cada vez mais subordinada às indústrias de alimentos, máquinas agrícolas, insumos e defensivos - diferenciou os agricultores empresariais dos farmers, eliminando silenciosamente esses últimos.
A modernização foi acompanhada pela concentração fundiária, com o englobamento das pequenas propriedades em unidades maiores, capitalizadas. Enquanto se reduzia o número de proprietários, ampliava-se a área média das fazendas .
Atualmente, a maior e mais produtiva agricultura do mundo emprega cerca de 5% da população ativa, que continuam a ser agricultores familiares mas agem como empresários rurais submetidos ao poder da agroindústria globalizada. O despovoamento do campo norte-americano revela a força de uma tendência mundial ao desaparecimento dos camponeses.
Boletim Mundo Ano 4 n° 5
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