Há 30 anos, Israel obtinha uma vitória-relâmpago, transformava-se em potência ocupante e unificava Jerusalém
Os pilotos da Força Aérea egípcia ainda estavam tomando seu café da manhã. Eram 7h45 do dia 5 de junho de 1967, quando nuvens de caças bombardeiros israelenses Mirage, voando baixo para evitar o radar, atacaram de surpresa todos os aeroportos do Egito, o mais bem armado país árabe.
Em poucas horas, 309 dos 340 aviões egípcios de primeira linha estavam destruídos, quase todos sem conseguir levantar vôo. Nos dias seguintes, seriam riscadas do mapa as Forças Aéreas da Síria e Jordânia, também no chão.
O governo de Israel resolvera atacar primeiro, já que o presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, havia costurado uma coalizão com a Síria e Jordânia e ameaçava avançar a qualquer hora contra os israelenses.
Mas o ataque de surpresa eliminou a cobertura aérea, vital em uma guerra moderna. E com essa enorme vantagem, Israel venceu a coalizão árabe em poucos dias, ocupando o deserto do Sinai e a Faixa de Gaza (que estavam sob domínio egípcio), a Cisjordânia e Jerusalém Oriental (da Jordânia), além das colinas do Golã (Síria).
O Estado judeu engolia uma área de 70 mil km2, três vezes superior a seu próprio território. Vinha junto uma população de 1,7 milhão de palestinos.
Jerusalém seria unificada e, mais tarde, anexada ao território israelense e declarada “capital eterna e indivisível”. Estavam lançadas as bases do “Grande Israel”, legitimado pelo mito bíblico da Terra Santa e consolidado pela política de transferência de colonos para os territórios ocupados.
Hoje sabe-se que o egípcio Nasser – ao contrário dos dirigentes da Síria – não queria atacar Israel, e sim pressionar o vizinho e inimigo a fazer concessões políticas. Mas Nasser era o mais importante líder nacionalista árabe e também de toda a África: quando viu a imensa adesão popular obtida por suas ameaças a Israel, não pôde voltar atrás. Nas palavras do historiador britânico Peter Mansfield, ele era “prisioneiro das expectativas do mundo árabe, que não podia realizar”.
A vitória absoluta dos israelenses na Guerra dos Seis Dias representou um golpe duríssimo nas tentativas de unidade árabe e africana, contra o domínio econômico ocidental. E foi também responsável por uma enorme mudança na mentalidade dos israelenses. Acostumados a serem vistos como o pequeno David, que enfrentava o gigante Golias (isto é, o mundo árabe), agora eles eram o grandalhão.
Um exército aparentemente invencível. Seu comandante, o ministro da Defesa Moshe Dayan (1915- 1981), inconfundível por conta de seu tapa-olho negro, foi elevado à categoria de gênio militar.
É só ver as músicas mais populares em Israel, depois da guerra. Uma delas ironizava: “Nasser, a vitória de quem foge” e lembrava: “Você nos ameaçou e agora nos deixa suas botas”. Era uma referência aos milhares de prisioneiros egípcios no Sinai, cujas botas (tiradas para evitar a fuga) formavam filas imensas no deserto. Segundo o já falecido jornalista brasileiro Isaac Akcelrud, um especialista em Oriente Médio, a vitória inquestionável de 1967 gerou na maioria dos israelenses um enorme sentimento de arrogância. Os árabes passaram a ser tratados como imbecis incompetentes.
Essa nova mentalidade ganhou força também porque, para Israel, os territórios ocupados em 1967 transformaram-se em terreno fértil de exploração econômica.
A começar pela água, pouco abundante (e portanto preciosa) na região. Um estudo feito nos anos 80 por especialistas da Organização pela Libertação da Palestina (OLP) revelou que 81% das fontes da Cisjordânia estavam sob controle dos ocupantes.
O estado de guerra entre Israel e os vizinhos também reduziu ao mínimo as transações econômicas de Gaza ou da Cisjordânia com os países árabes.
Todos os seus negócios tinham que passar por Israel.
Geladeiras, aparelhos de TV ou caixas de cerveja deveriam ser comprados dos inimigos israelenses, que também contavam com um novo reservatório de mão-de-obra barata.
Na década de 70, mais de cem mil palestinos de Gaza e da Cisjordânia cruzavam diariamente a fronteira (sujeitos a abusos e humilhações durante a revista), para trabalharem em Israel. Em ocupações mal-remuneradas, como pedreiros ou garçons. A cada distúrbio ou greve nos territórios ocupados, o Exército israelense simplesmente fechava as fronteiras. O que, para milhares de famílias palestinas, significava dias sem trabalho (e sem ter o que comer).
A mentalidade de colonizador, que a vitória na Guerra dos Seis Dias disseminou em Israel, iria fazer fermentar, pouco a pouco, um imenso ódio na população palestina dos territórios. Seria um fator decisivo também para que o ultra confiante comando militar israelense se visse apanhado de calças curtas (ou melhor, de uniforme curto) por um novo ataque árabe, na Guerra do Yom Kipur, em 1973. Mas essa é outra história.
O mito da “terra sem povo”
“A Palestina é uma terra sem povo, para um povo sem terra”. Esse era o princípio do movimento sionista, nascido na Europa no fim do século passado, com o objetivo de instalar os judeus do mundo inteiro na Israel bíblica.
O problema é que havia um povo por ali. Árabes, ainda não conhecidos como palestinos. Nas primeiras décadas do século, o movimento sionista tratou de comprar a maior quantidade possível de terra, para instalar judeus foragidos das perseguições na Europa Oriental. Latifundiários árabes que viviam na Síria ou Egito aceitavam os bons preços pagos. E os camponeses palestinos perdiam suas casas e suas fontes de sobrevivência.
A idéia de uma terra povoada apenas por judeus - não importava quem vivesse nela antes
contaminou até os socialistas, uma ala importante dentro do sionismo. Eles começaram a implantar uma ampla rede de kibutzim, comunas agrícolas que rejeitavam a propriedade privada. Mas rejeitavam também os árabes.
O sonho sionista concretizou-se após a Segunda Guerra Mundial, com o mundo ainda chocado pelo massacre de seis milhões de judeus, cometido pelos nazistas. E as sucessivas guerras vencidas por Israel selaram a expulsão de milhões de palestinos.
O consenso sionista, a idéia de que, acima de todas as divergências, os judeus estavam unidos em torno de um projeto comum – seu próprio Estado – só começou a ser rompido em 1982, quando Israel invadiu o Líbano. E agiu não como o pequeno David que se defende do Golias árabe, mas como uma potência expansionista.
Hoje, amplas camadas da sociedade israelense estão dispostas a negociar um status de convivência com os palestinos, que garanta a todos condições de viver e trabalhar. A idéia de “uma terra sem povo para um povo sem terra” só é conservada pelos colonos judeus de ultra direita. Estes tratam a todo custo de ocupar mais e mais terreno na Cisjordânia e na Faixa de Gaza, para impedir a devolução de qualquer naco, a um povo palestino que eles jamais consideraram existir.
Boletim Mundo Ano 5 n° 4
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