quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Bolívia enterra os vestígios do passado revolucionário

Newton Carlos
Bolívia foi, há 45 anos, depois do México, palco da segunda revolução social mais importante da América Latina.
Uma “revolução esquecida” durante a qual - três dias e três noites de combates nas encostas de La Paz, a capital boliviana - morreram mil e saíram feridos mais de mil e quinhentos. Embora com antecedentes que beiravam a nazismo, o Movimento Nacional Revolucionário (MNR) foi levado ao poder por milícias operárias, sobretudo de mineiros, que derrotaram o Exército com fuzis tirados dos quartéis e bananas de dinamite, usadas nas minas, transformadas em armas. O candidato a presidente do MNR, Paz Estenssoro, ganhara eleições com discurso nacionalista, não levara, bloqueado pela “rosca”, a velha oligarquia, e acabou voltando do exílio em Buenos Aires para assumir o poder em nome da revolução.
Na época o país produzia 53% do estanho consumido no mundo, gente miserável extraindo da terra matéria-prima da estrutura das naves espaciais e que fazia fortunas bilionárias, como a da família Patiño. Minas estatizadas e reformas  agrária marcaram o advento revolucionário, enquanto o Exército derrotado era dissolvido.
Muita água correu nesses 45 anos e agora os bolivianos elegem presidente o general Hugo Banzer, ditador entre 1971 e 1978, a fase tecnocrática da “restauração”, o desmonte do processo revolucionário. A “restauração” foi iniciado pelo próprio Estenssoro que, no exercício de um segundo mandato de 1960 a 1964, reabilitou o “Exército nacional”, com ajuda americana, e terminou vítima da nova geração de generais, representada por Rene Barrientos.
Rivalidades palacianas ajudaram a destruir a revolução de 1952. Paz Estenssoro, Siles Suazo, o comandante de campo na fase dos combates, e Juan Lechin, legendário líder dos mineiros e da Central Operária Boliviana, envolveram-se em disputas pessoais que se tornaram inconciliáveis quando em 1964 Estenssoro quis se candidatar mais uma vez e caiu. Dos três, Lechin foi o único que não alcançou a presidência, apesar de persegui-la tenazmente, e agora se revelou eleitor de Banzer, por considerá-lo “o mais nacionalista” dos candidatos. O ocaso do octogenário Lechin se confunde com o ocaso do poder mineiro, da histórica COB, a Central Operária Boliviana, e de minas privatizadas, fechadas ou simplesmente envelhecidas, fenômeno que tem Banzer como referência de novos interesses e de deslocamentos no âmbito da geografia econômica e política da Bolívia.
Com o general Barrientos no lugar de Estenssoro, a “restauração” decolou, logo entrando, no entanto, em áreas de turbulência. Barrientos morreu num desastre aéreo, suspeito para alguns, e outro general, Ovando Candia, tornou-se um furacão nacionalista, caindo em cima do petróleo explorado pela Gulf Oil. Durou pouco.
Em 1970 assumiu o poder, como um furacão esquerdista, o general Juan Torres. O parlamento foi transformado em “assembléia popular”, sob o comando de Lechin e retrato de Lênin na parede e voltou a circular na Bolívia a idéia de um “poder operário”, a partir da revitalização das Teses de Pulacayo, guia histórico da COB. Elas dizem que o objetivo final continua sendo “a tomada do poder pelos trabalhadores”.
Eram os anos de chumbo da Guerra Fria e Torres, depois assassinado em seu exílio em Buenos Aires, só durou mais ou menos um ano: foi golpeado por Banzer em 1971.
Banzer conseguiu manter-se sete anos no poder e na seqüência se instalaram no palácio Quemado, assim chamado porque já tocaram fogo nele dois generais inexpressivos, Juan Pereda e Garcia Meza, no compasso da velha tradição golpista da Bolívia. Mais de 200 golpes em sua existência republicana.
Meza marcou a plena associação das máfias das drogas com o poder supremo.
As “exportações” de coca chegaram a três bilhões de dólares anuais, três vezes mais do que as exportações legais. Mas os desmandos da quadrilha de Garcia Meza foram tais que o caminho do poder voltou a se abrir para as antigas lideranças do MNR, rachado em dois. Primeiro elegeu-se outra vez Siles Suazo, o braço de ferro do movimento, e depois Paz Estenssoro, que a 29 de agosto de 1985 rompeu de vez com o “modelo estatizante de 1952” assinando o “decretazo”, pacote de medidas neo-liberais.
Estenssoro elegeu-se pela terceira vez em 1985, com a Confederação dos Empresários insistindo em que “as causas da crise estão no pseudo-socialismo dos últimos 30 anos”. Seu ministro das Finanças era Gonzalo Sanchez de Lozada, um dos poucos milionários do país, com um espanhol carregado, fruto de longa estada acadêmica nos Estados Unidos, e atual presidente. A inflação de 25 mil por cento ao ano caiu para 10, os bolivianos se tornaram os “bons moços” da América Latina. Presidente a partir de 1993, com a legenda do MNR “histórico” de Estenssoro, Lozada conseguiu que o Congresso aprovasse reformas nas finanças públicas e no sistema de pensões. A venda da estatal de petróleo, a YPFB, completou o processo de privatizações. Acabou admitindo, no entanto, que a pobreza e a corrupção persistem e nem de longe cumpriu a promessa de criar 500 mil novos empregos. A Bolívia continua sendo recordista latino-americana da má distribuição da renda.
Desemprego entre 20 e 25 por cento, salário mínimo equivalente a 45 dólares. Banzer e sua Ação Democrática Nacionalista (ADN) se beneficiaram disso e o ex-ditador volta afinal a palácio em sua quinta tentativa de eleger-se. Numa das vezes teve maioria simples, sem conseguir confirmação por parte do Congresso. Consegue dessa vez recompondo aliança com o ex presidente Paz Zamora (1989-1993), do Movimento de Esquerda Revolucionária, violentamente reprimido durante o “banzerato”. Como ditador, Banzer prendeu e exilou muitos milhares.
Como político, criou uma “nova direita”, em boa parte apoiada nos negócios agro-industriais da Bolívia oriental, a região de Santa Cruz de la Sierra.
Estrategicamente no coração da América Latina, junto ao Brasil e Paraguai, Santa Cruz tem petróleo, gás e boas terras para agricultura. Sua elite de pequenos proprietários, muito conservadora, acabou batendo de frente com o que sobrou da revolução de 1952.
A ditadura de Banzer acelerou o desenvolvimento de Santa Cruz, cuja agricultura é hoje o setor mais dinâmico da economia boliviana, em contraposição à falência da Bolívia revolucionária das minas de estanho e do altiplano. Santa Cruz está cheia de brasileiros.
Boletim Mundo Ano 5 n° 4

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