Demétrio Magnoli
“O Que é Isso, Companheiro ?” recebe críticas de antigos militantes, mas faz discussão contemporânea sobre a luta armada no Brasil do AI-5
O filme “O Que é Isso, Companheiro ?”, de Bruno Barreto, acabou de sair e já tem título em inglês - chama-se “Four Days in September” nos Estados Unidos. Não é um acaso. Foi produzido com um olho no Brasil e outro no mercado americano de cinema e vídeo. É um produto de exportação.
Paradoxalmente, aí é que reside a fonte da sua qualidade narrativa.
O filme baseia-se no livro homônimo, do hoje deputado federal verde Fernando Gabeira, que conta o seqüestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick por um comando de militantes esquerdistas, em setembro de 1969, dez meses depois do AI-5, que inaugurou os “anos de chumbo” da ditadura militar . No livro, o narrador é o seqüestrador Fernando, o próprio Gabeira na juventude.
O crítico Eugênio Bucci registrou o deslocamento do foco narrativo empreendido pelo filme, que faz a história se desenrolar a partir do ponto de vista do embaixador, encarnado pelo ator Americano Alan Arkin. Bucci extraiu daí conclusões temerárias, sugerindo que o filme abdicou de ser brasileiro para ser global, o que em cinema significa incorporar o discurso de Hollywood. Tenho opinião diferente acho que esse foi o atalho encontrado pelo roteirista para ser contemporâneo.
“O Que é Isso, Companheiro ?”
Anuncia-se, no letreiro inicial, como um filme de ficção, não um documentário histórico. A ficção de inspiração histórica enfrenta problemas diferentes do relato histórico. O segundo deve evitar o anacronismo; para a primeira, o anacronismo - se bem trabalhado - é um elemento crucial da estrutura da obra.
Anacronismo é a operação de fazer o presente falar no passado. É anacrônico atribuir, por exemplo, conflitos morais sobre a escravidão a um patrício romano, pelo menos antes do advento do cristianismo. Naquela época, as idéias de igualdade entre os homens não tinham despontado no horizonte histórico. Como também é anacrônico atribuir aos turcos otomanos, no momento de glória da tomada de Constantinopla, a vontade de inaugurar a Idade Moderna. A atual periodização da história é um típico produto da Idade Contemporânea.
O hoje historiador Daniel Aarão Reis Filho, militante de esquerda nos “anos de chumbo”, preso e torturado, disparou a crítica mais pesada, dizendo que o filme absolve a ditadura militar.
Ele queria vê r retratados o heroísmo dos militantes e a torpeza dos poderosos.
Não é uma crítica justa isso até aparece na tela, destacadamente na cena do aeroporto, quando a militante Maria (Fernanda Torres) emerge da prisão em uma cadeira de rodas. Mas o que choca Aarão é que o filme fala de outra coisa da solidão social dos grupos de esquerda, dessa forma trágica de alienação que foi a luta armada.
O filme enxerga o passado com os olhos do presente. Propõe as discussões que têm significado contemporâneo, não as que se dissolveram na história.
A ditadura militar e a tortura já foram, felizmente, condenadas pela sociedade brasileira. Não tem sentido propor o seu “julgamento” num filme de 1997. Mas tem sentido enfocar o drama da luta armada no marco geral do conflito político. “O Que é Isso Companheiro ?” faz isso com competência e, às vezes, contundência, revelando a ruptura radical entre os militantes e o seu tempo, entre a pretensão de liderar uma luta popular e a vida do povo que deveria se revoltar.
Aqui e ali há pitadas de psicologia de salão, como a sugestão de que a adesão da militante Reneé (Cláudia Abreu) à luta armada refletisse a rejeição paterna. Mas a asfixia do universo íntimo pela opção política - o tema central do livro de Gabeira - está retratado nas relações entre Maria e Fernando (Pedro Cardoso). A desumanização do revolucionário, convicto de que luta em nome do povo (essa entidade abstrata, geral), mas incapaz de enxergar as pessoas singulares, corporifica-se no personagem Jonas (Matheus Nachtergaele), o comandante do seqüestro.
Vera Sílvia Maranhão, hoje economista, que participou da ação e inspirou as personagens Maria e Reneé, reclama da caracterização de Jonas, que morreu sob tortura e não entregou ninguém.
Mas, mesmo que exista aí uma triste injustiça histórica, qualquer um que tenha participado de um agrupamento leninista conhece os “Jonas” que, por sorte, não tiveram a chance histórica de se transformar em Stalins ou Pol Pots. Afinal, tanto para o Jonas do filme como para o torturador Henrique (Marco Ricca), a razão política destila a sua própria moralidade, que justifica até o injustificável.
Transferindo o foco narrativo para o embaixador, o filme consegue se distanciar dos discursos dicotômicos da época e evita perder-se no labirinto das razões políticas de Jonas e Henrique. O embaixador é o olhar “estrangeiro” num sentido especial: ele consegue ver o absurdo que traga os dois lados. O Charles Elbrick do filme, auxiliado pelas vendas que tapam seus olhos, é capaz de enxergar além das aparências.
“O Que é Isso, Companheiro ?”, um bom filme, tem uma fulguração de grandeza. É a cena do Vasco versus Flamengo, no Maracanã lotado, que faz o contraponto da perseguição policial ao carro dos seqüestradores. Nela, está sintetizada, sem discursos, a cisão entre o povo e os grupos da luta armada.
Essa constatação política não suprime o heroísmo pessoal dos militantes. Pelo contrário, coloca-o em relevo sob o pano de fundo de uma solidão social irremediável.
AI-5 e Che Guevara desencadearam ações armadas
A implantação da ditadura militar no Brasil divide-se em duas fases: antes e depois do Ato Institucional nº 5. O AI-5, editado pelo general-presidente Artur da Costa e Silva a 13 de dezembro de 1968, conferia ao presidente poderes para decretar recesso do legislativo, suspender direitos políticos individuais e cassar mandatos. Também suspendia a garantia de habeas-corpus para “crimes políticos contra a segurança nacional”, abrindo caminho para prisões arbitrárias e a aplicação da tortura como meio de extrair informações. O AI-5 empurrou a oposição esquerdista para as ações clandestinas de luta armada - assalto a bancos, seqüestros políticos, guerrilha urbana e rural.
A idéia da luta armada era fertilizada pela contestação, nos meios de esquerda, da União Soviética e do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Desde 1960, a China maoísta acusava Moscou de conciliar com o “imperialismo”. No Brasil, o PCdoB, dissidência pró-chinesa do PCB, promoveria, nos “anos de chumbo”, a guerrilha do Araguaia. Na América Latina, Che Guevara tinha difundido a “via cubana” da guerrilha, por oposição às estratégias dos partidos comunistas oficiais. No Brasil, com o aprofundamento da repressão, inúmeras facções deixavam o PCB e seguiam a trilha das ações armadas.
Em agosto de 1969, Costa e Silva sofreu uma trombose cerebral. Foi afastado e, contrariando a Constituição, uma Junta Militar interina assumiu o governo. A violência de Estado atingia o zênite. Em setembro, o MR-8, grupo guevarista, em ação conjunta com a ALN, seqüestrava o embaixador Elbrick, trocando-o depois pela liberdade de 15 presos políticos. Os integrantes do comando seqüestrador foram presos semanas depois. A maioria deles seguiu para o exílio em 1970, em troca da liberdade do embaixador alemão Ehrenfried von Holleben.
Boletim Mundo Ano 4 n° 4
Nenhum comentário:
Postar um comentário