terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Diário de Viagem- Tibete, Shangri-la, teto do mundo

Cláudia Proushan
Existe um lugar onde o povo está mais próximo do céu. É o Tibete, o teto do mundo, também conhecido como “Shangri-la”. Pousamos em meio ao Himalaia pois não havia aeroporto, batemos palmas e choramos, o sonho estava se realizando. A viagem começa na misteriosa Lhasa, capital tibetana que fica a quase 4 mil metros de altitude.
Pessoas de vários lugares do mundo se uniram para acompanhar o Lama Gangchen Rimpoche, que retornava ao Tibete depois de 25 anos de exílio.
A caminho do hotel, paramos no monastério Nirtang Drolma Lhakang, que é dedicado a Tara, divindade feminina no budismo. Logo pudemos imaginar o quanto seria especial viajar ao lado de um Lama, mestre espiritual, afastado de sua terra natal há tantos anos. O Tibete ladeado pelo Nepal, Índia e China, é uma terra diferente, o ar puro se destaca na presença de montanhas impressionantes, o povo ainda vive sob valores regidos exteriormente pelos ciclos da natureza e interiormente por uma profunda religiosidade, que descobríamos.
De bicicleta passeávamos saboreando a paisagem até chegarmos a Barkhor, mercado principal de Lhasa, onde pudemos sentir um pouco mais da cultura deste mágico país. Entre os objetos típicos, estavam os Kampas, guerreiros da região do Kam, ornados com fitas vermelhas em suas tranças. Aliás, as cores são abundantes neste lugar.
No centro deste mercado encontra-se o mais antigo templo Jokhang e dentro dele está Jowo a imagem mais importante do budismo, representado no personagem do filme “O Pequeno Buda”, de Bernardo Bertolucci. Jowo é uma estátua que representa Buda Shakyamuni quando tinha oito anos. Buda Shakiamuni foi um ser que há 2.500 anos desenvolveu na sua plenitude o amor e a compaixão.
Jowo foi trazido da China por Songsen Gampo, uma das mulheres do rei tibetano. É costume oferecer khatas, echarpes brancas, às estátuas, são como flores para eles. O perfume de incenso, sentido ao entrar no monastério, e o aroma do chá tibetano, com manteiga e sal, são característicos no país.
Também em Lhasa visitamos o esplêndido palácio Potala, com seus mil aposentos. O palácio foi a residência de Dalai Lama, chefe espiritual e político do Tibete que vive exilado pelo regime comunista chinês em Dharamsala, no norte da Índia, onde construiu uma cidade tibetana.
A caminho de Shigatse, segunda cidade do Tibete em importância e tamanho, paramos em Kamba-La, a 5 mil metros de altitude, de onde pudemos avistar o deslumbrante lago Yamdrok, ou “lago turquesa”, incrustado nas montanhas com suas cores oscilantes, entre o azul turquesa e o verde claro. Lá fizemos uma roda de amigos e, com farinha nas mãos, cumprimos o ritual cantando “Tso Tso La Gya lo”. Ao final jogamos a farinha para o alto, simbolizando “vitória aos deuses.”
Indo para o campo é que encontramos o verdadeiro Tibete. Homens e mulheres carregam crianças pequenas nas costas amarradas por uma fita, não existem regras fixas para a educação dos filhos. Sua simplicidade e beleza interior transparecem nos rostos e sorrisos. O povo vive da agricultura, basicamente da cevada, da qual é feita a farinha de tsampa. Ovelhas, cabras e burrinhos levando as carroças.
Vivíamos um outro momento da história, sem sinal do mundo moderno.
Em dia de lua cheia vestimos as tchubas, vestido típico tibetano e fomos ao monastério de Ganden, no topo de uma montanha em forma de caracol. Alguns chegavam de ônibus, outros de caminhão ou a pé para uma romaria local onde todos andavam em volta da montanha no sentido horário, levando consigo um rosário de 108 contas e esperavam pelo grande momento: a apresentação da grande tangka, imagem religiosa feita de brocados de seda.
Nuvens imensas de incensos começavam a tomar conta deste cenário fabuloso, trompas anunciavam sua chegada.
Ao final da cerimônia, os monges nos convidaram para arriscar um passeio em yaks, bois com pêlos crespos e compridos.
Uma aventura emocionante.
Partimos em direção a Lamo Latso, a leste de Lhasa, cheios de mochilas e comida preparada para seis dias. A viagem durou treze. A energia positiva do local nos ajudou a suportar as dificuldades da estrada que se tornava mais e mais estreita, com trechos onde apenas um carro passava por vez. Era estremecedor passar por curvas tão fechadas a essa altitude. A seis mil metros de altura está o lago Lamo Latso. Em volta dele, os lamas observam e contemplam sua quietude. Oram e meditam, recebem refletidas nas águas as respostas que procuram: imagens cheias de significado que cada um deve guardar consigo.
Teocracia tibetana resiste ao domínio chinês
Não existe um Tibete, mas dois. O Tibete histórico e geográfico corresponde à região de povoamento majoritário dos tibetanos, com cerca de 3,5 milhões de km2, maior que a Índia, abrangendo as cordilheiras e platôs do Himalaia. O Tibete geopolítico corresponde à região autônoma chinesa de Xizang, criada em 1965, com 1,2 milhão de km2, que recobre apenas o Tibete central . O Tibete histórico, frio e árido, é habitado por 6 a 7 milhões de pessoas, em geral pastores nômades ou transumantes. A região autônoma tem 2 milhões de habitantes e é a única província chinesa na qual o grupo étnico Han é minoritário.
O domínio chinês sobre o Tibete data de 1720 e as suas raízes encontram-se nas intermináveis disputas entre chineses e mongóis. Foram os monges tibetanos que, no século XVI, converteram os mongóis ao budismo e os levaram a acatar a autoridade espiritual do Dalai Lama. Temendo uma coalizão entre os dois povos, o Império do Centro estabeleceu suserania sobre o Tibete.
O Tibete alcançou uma efêmera independência em 1912, aproveitando-se da dissolução do Império chinês e da ajuda de Londres, que protegia o décimo terceiro Dalai Lama, refugiado na Índia britânica. Em 1950, meses depois da Revolução Chinesa, Mao Tsetung proclamou a soberania de Pequim sobre o Tibete. A ocupação chinesa operou inicialmente pela via do acordo com o Dalai Lama, mas uma resistência pacífica acabou por desembocar na revolta tibetana de 1959, que foi esmagada e resultou no exílio do líder e da elite político religiosas do Tibete na Índia.
O Tibete foi, no passado, uma teocracia de monastérios, muitas vezes rivais, recoberta pelo poder difuso do Dalai Lama. Mas, ao contrário da lenda, essa região de pastores manteve-se ligada ao mundo exterior por meio das caravanas que a atravessavam de norte a sul e de leste a oeste. O fechamento do Tibete foi um produto da administração comunista chinesa que, no curto período de colaboração com a elite religiosa budista, proibiu o trânsito de caravanas.
Nos anos 60, a Revolução Cultural maoísta deflagrou, no Tibete, uma furiosa repressão contra monastérios e monges, destruindo as pontes entre a religião política de Pequim e os religiosos tibetanos. Hoje, contudo, a política de Pequim busca a estabilização regional através da concessão de uma  certa liberdade religiosa e do compromisso com a elite budista. O que não mudou, desde 1950, foi a estratégia da colonização do Tibete por chineses Han, destinada a soldar a região ao território nacional e dissolver o sal do separatismo.
Boletim Mundo Ano 5 n° 3

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