sábado, 5 de fevereiro de 2011

Casa Branca ainda vê a América Latina como seu “quintal”

Washington mantém a Doutrina Monroe, priorizando estratégias de segurança sobre diplomacia e políticas de cooperação
Newton Carlos
Documento entregue ao Congresso pelo governo Clinton diz que “pela primeira vez, desde o lançamento em 1823  da Doutrina Monroe, os Estados Unidos podem definir o seu relacionamento com os países latino-americanos sem ameaças de agressões externas”. Com o fim da Guerra Fria, as pressões do anticomunismo acabaram.
A palavra de ordem passou a ser a construção de uma “comunidade de livre comércio das nações democráticas das Américas”, cabeça da agenda da Cúpula de Miami do final de 1994, convocada por Clinton e da qual participaram todos os presidentes da América Latina, à exceção do cubano, não convidado.
A Foreign Policy, um dos porta-vozes do establishment diplomático americano, falava de uma “latin american option”, lembrando que os países ao sul do Rio Grande já importavam mais dos Estados Unidos do que o Japão. Por que então a América Latina é tema sem qualquer significado na disputa entre Clinton e o candidato republicano Bob Dole? A sensação entre países latino-americanos é a de que a doutrina do Big Stick, o grande porrete de Theodore Roosevelt, continua vigente.
Com a China, por exemplo, a defesa dos direitos humanos fica em segundo plano, tendo em vista oportunidades econômicas.
O mesmo acontece em relação à Indonésia, onde a ditadura mais antiga do mundo, embora agonizante, ainda figura na relação de parceiros privilegiados, com o direito de receber armas sofisticadas. Há pouco o Pentágono e o Departamento de Estado entraram em conflito sobre o reinício das vendas à América Latina de lotes de armas de última geração, como caças-bombardeiros. O Pentágono, obviamente favorável, argumentou que o continente está plenamente redemocratizado e os militares se encontram submetidos ao poder civil. O Departamento de Estado, contrário, citou o exemplo do Chile para mostrar que o governo eleito não tem como tirar o ex-ditador Augusto Pinochet do comando das Forças Armadas.
Polêmica que mostra a fragilidade de uma diplomacia que deveria dar o tom da política para a América Latina, de “promoção da democracia” combinada com a consagração da economia de mercado. A ausência da América Latina da campanha eleitoral nos Estados Unidos resulta, em boa parte, dessas indefinições, ou do descaso que denuncia a sobrevivência de velhos cacoetes, como a convicção de que o subcontinente ainda pode ser encarado como um “quintal” incapaz de gerar incômodos maiores. O Pentágono já defende a adoção de uma United States Security Strategy for the Americas, que desperta, entre alguns especialistas, o medo da ressurreição das doutrinas de segurança nacional.
Expandir e aprofundar relações entre forças armadas das Américas figura como um dos “objetivos estratégicos”.
Outro é o combate “ao narcotráfico e ao terrorismo”. Joseph Nye, o encarregado no Pentágono de questões internacionais de segurança, estabelece como diretriz dominante a defesa dos “interesses nacionais dos Estados Unidos”. O envio de tropas ao Haiti, em julho de 1994, atendeu sobretudo à necessidade de conter ondas migratórias na direção do território americano.
O medo de erupções às portas dos Estados Unidos comandou a ajuda ao México durante a crise financeira de dezembro de 1994. “Não podemos permitir instabilidades junto às nossas fronteiras”, diz Nye. Sensação de linguagem recauchutada, irmã-gêmea dos enunciados da Doutrina Monroe, que passou pela invasão do México no século passado, o intervencionismo do Big Stick, a Guerra Fria durante a qual o comunismo representou o papel do agressor extra-continental.
A interminável fixação em Fidel Castro dá um toque de continuidade. Uns dizem que a política latino-americana dos Estados Unidos se limita hoje a Cuba.
Outros, que Cuba é, na realidade, um assunto interno dos Estados Unidos, já que o embargo de mais de 30 anos se destina a cativar politicamente os cubano-americanos, especialmente os da Flórida, o quarto maior colégio eleitoral do país. O arrocho ainda maior a Cuba, por meio da Lei Helms-Burton, produz sentimentos cada vez maiores de que o Big Stick está de volta . Nos Estados Unidos ainda se fala em “cruzada contra o último remanescente do totalitarismo marxista”. Muitos também interpretam a Lei Helms-Burton como parte de ampla tentativa dos Estados Unidos de frear o desenvolvimento de relações econômicas independentes entre os países latino-americanos.
“Há uma escalada que pode levar não se sabe aonde”, disse o ex-ministro do Exterior da Venezuela, Simón Consalvi, diante da decisão de Washington de cancelar o “visto” de entrada nos Estados Unidos do presidente Ernesto Samper, da Colômbia.
Embora Samper esteja sob suspeita de ter recebido dinheiro do narcotráfico para sua campanha eleitoral, o petardo diplomático atingiu em cheio não uma pessoa física, mas um chefe de governo no exercício de suas funções.
Talvez por essas e outras o Departamento de Estado tenha perdido todo o primeiro time de seu “desk” para a América Latina e o Conselho de Segurança Nacional, o seu assessor para assuntos interamericanos, Richard Feinberg, além do encarregado de Cuba, Morton Harper. Do Departamento de Estado, caíram fora Alexander Watson, subsecretário para a América Latina, e seu assistente, Arturo Valenzuela. Também Michael Skol, que ultimamente negociava com o Panamá a manutenção da presença militar dos Estados Unidos na Zona do Canal. “Eles provavelmente perderam a esperança de conseguir algo de substancial”, é a opinião de Peter Hakin, do Inter-American Dialogue.
Em nome de Deus e da democracia
As águas do São Lourenço e do Mississipi se interconectam em uma série de lugares, e o grande Fazedor dos Acontecimentos Humanos decidiu que os dois rios pertencessem ao mesmo povo” (deputado Johnson, em sessão do Congresso americano de 1812, defendendo a anexação do Canadá).
“Entendo que a península da Flórida e Cuba são parte da desembocadura do Mississipi”
(James Monroe, em carta a Thomas Jefferson de 1823, defendendo a aquisição de Cuba).
“O destino nos impõe povoar todo o continente americano com uma imensa população democrática” (John O’Sullivan, em artigo para o New York Morning News de janeiro de 1846, saudando a anexação do Texas).
“O barbarismo não tem nem pode ter lugar em um mundo civilizado. Nosso dever diante de um povo que vive na barbárie impõe que o libertemos das suas cadeias...” (Theodore Roosevelt, 1901, ao enunciar a base da doutrina do Big Stick, cujo objetivo era legitimar a intervenção americana em qualquer país das Américas).
Boletim Mundo Ano 4 n° 5

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