sábado, 5 de fevereiro de 2011

A saúde dos homens públicos

Início de agosto: o presidente russo Boris Yeltsin desaparece da cena pública. Segundo um comunicado lacônico do Kremlin, ele “está bem”, apenas se recupera do desgaste causado pela recém-encerrada campanha à reeleição na Rússia. Apesar disso, o “desaparecimento” causa apreensão em todo o mundo.
Não é para menos. Seu estado físico é, sabidamente, precário, assim como o seu equilíbrio emocional. E, no entanto, sobre Yeltsin repousam as esperanças de preservação do frágil tecido institucional de um dos mais importantes Estados do planeta. Sua saúde não é assunto privado, mas público. Tanto quanto seu equilíbrio psicológico. É abolida, aqui, a fronteira entre o público e o privado, entre o homem e o presidente: o olhar ubíquo da opinião pública invade, inexoravelmente, o quarto de dormir.
Não apenas Yeltsin, mas todo chefe de Estado ou homem público, é obrigado a abdicar da exigência à privacidade – especialmente neste final de século, quando as tecnologias de comunicação aboliram, no plano virtual, as distâncias geográficas e transformaram o planeta num grande palco de representações políticas. Nesse mundo, em que a câmara de TV multiplica a capacidade dos olhos do cidadão comum, os homens públicos funcionam como atores de uma grande telenovela, cujo tema é nada menos do que todos os fatos do mundo. Os telespectadores esperam que os chefes de Estado cumpram determinado papel, propiciando, assim, uma  certa sensação de identidade e estabilidade em meio ao torvelinho complexo e nada estável que caracteriza a vida contemporânea. Os líderes não podem se esquivar às câmaras de TV. Eles têm que estar sempre disponíveis,  iluminados pelos holofotes.
É claro que não foram as tecnologias de comunicação que criaram a imbricação entre a vida pública e a vida privada dos chefes de Estado. Júlio César, por exemplo, corporificava as virtudes de Roma. No absolutismo, o rei era, a um só tempo, o chefe, o corpo e o sangue do Estado (L’État c’est moi, dizia Luís XIV, o rei-Sol). Se o século XX retomou a figura arcaica do dirigente político como ‘‘pai’’ simbólico, isso foi conseqüência de um processo que atribuiu ao Estado uma característica cada vez mais beligerante (cujo auge foi o totalitarismo stalin-hitlerista), com ênfase crescente nas atribuições do Executivo em detrimento dos outros poderes. Mesmo nas democracias tradicionais, como a americana, o chefe de Estado (ou o primeiro-ministro) é o espelho onde se refletem as fantasias da nação. O casal Kennedy era o ícone de uma América moderna e confiante. Ronald ‘‘Rambo’’ Reagan era a América guerreira, disposta a recuperar a dignidade perdida em Watergate e no Vietnã. Bill Clinton é a América perplexa, mas jovem e pronta a defender militarmente os seus ideais (vide as invasões da Somália e do Haiti, ou os recentes ataques ao Iraque).
É claro, também, que o grau de exposição da vida privada de um homem público depende diretamente de sua importância no ‘‘grande show da vida’’. Clinton interessa muito mais ao mundo do que, digamos, FHC (exceto, talvez, no Brasil). Nesse sentido, a saúde do velho líder chinês Deng Xiaoping é importante, já que o resultado da luta pela sua sucessão, há muito em curso na cúpula do PC da China, determinará os rumos da nação mais populosa do planeta. O mesmo pode-se dizer, em outras circunstâncias, da saúde do histórico dirigente da OLP, Yasser Arafat, um dos articuladores da paz no Oriente Médio.
Na história recente do Brasil, a transição da ditadura militar para o regime democrático foi dramaticamente marcada pela agonia de Tancredo Neves, entre março e abril de 1985. Tancredo tomaria posse como o primeiro presidente civil após vinte anos de ditadura, caso não fosse impedido por uma infecção que acabaria causando sua morte. Entre 14 de março (quando foi internado, em Brasília,com dores no abdômen) e 21 de abril (quando morreu, em SP), sua saúde foi manchete de todos os jornais brasileiros. O futuro da democracia no Brasil, naquele instante, passava pela cavidade abdominal do getulista mineiro.
Na antiga União Soviética, os rituais fúnebres dos dirigentes serviam para indicar ao mundo quem seria o sucessor. O sujeito que tivesse posição de maior destaque no velório - em geral, o que pronunciasse o principal discurso - seria, provavelmente, o novo líder.
O morto era o grande tema, mas de fato era só um pretexto: já não interessava a ninguém.
Mas não é isso que acontece em todos os regimes, democráticos ou não? Por maior que tenha sido a glória de um líder, a morte tudo reduz ao pó, como diz em Júlio César o grande bardo inglês:
Ainda ontem a palavra de César poderia / Ter chocado o mundo; mas agora ali ele jaz, / E ninguém é pobre o suficiente para prestar-lhe reverência (...) Oh, poderoso César /
Caíste a um ponto tão baixo? / Reduziram-se, então, todas as suas glórias, triunfos e conquistas / a uma medida tão pequena? /
Adeus...
Boletim Mundo Ano 4 n° 5

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