Hegemonia estratégica dos Estados Unidos se sobrepõe ao mosaico étnico e cultural da região
“Não queremos fogo em nosso quintal”. Com essas palavras, o ex-presidente Ronald Reagan explicitava, no início dos anos 80, a intenção de não permitir que países do Caribe passassem para a esfera de influência da União Soviética. A prática americana de intervir direta (com uso de tropas) e indiretamente (usando pressões de toda ordem) nos destinos das nações centro-americanas não foi iniciada por Reagan e também não se encerrou em seu governo. Nas origens mais longínquas desse espírito intervencionista está a Doutrina Monroe, proclamada há 173 anos.
O “pequeno Caribe” corresponde ao conjunto de milhares de ilhas que se interpõem, grosso modo, entre o Atlântico e o mar do Caribe ou das Antilhas. Pode-se definir, em bases históricas, um “grande Caribe”, que inclui, além da parte insular, alguns pontos do istmo centro-americano (Belize) e também a porção norte da América do Sul (zona litorânea das Guianas).
Foi a partir das ilhas do Caribe, conhecidas como Antilhas, que os espanhóis deram início à colonização do continente.
Contudo, entre os séculos XVI e XVIII, a Espanha perdeu o domínio sobre a maioria de suas possessões coloniais para ingleses, franceses e holandeses.
Principalmente ao longo desses dois séculos, estruturaram-se as bases econômicas e populacionais da região. As conseqüências desse processo de formação territorial transparecem na organização espacial atual. As plantations de cana-de-açúcar transformaram a região em fornecedora de matérias primas agrícolas para a Europa e, depois, para os Estados Unidos. O virtual extermínio da população nativa pelos colonizadores levou à importação de mão de obra escrava da África. Quando o tráfico foi proibido e a escravatura abolida, recorreu-se à mão de obra assalariada, em grande parte originária do sul e sudeste asiáticos, com destaque para os imigrantes oriundos da então colônia britânica da Índia.
A presença de colonizadores de várias origens e a decorrente mestiçagem foram responsáveis pelo complexo mosaico étnico e cultural da região.
Grande parte das ilhas caribenhas correspondem, na atualidade, a países independentes
(Cuba, Haiti, Granada, por exemplo). Outras ilhas são colônias remanescentes - da Grã Bretanha, França e Holanda -, sem contar o caso de Porto Rico, um Estado-associado aos Estados Unidos.
Foi a partir do final do século XIX que a região passou a sentir a força geopolítica de Washington.
Essa presença marcante tornou-se hegemônica quando, no início do século XX, entrou em funcionamento o Canal do Panamá. A sua importância estratégica e econômica levou os Estados Unidos a montar um sofisticado dispositivo militar para proteger não só a navegação através do canal, mas também para controlar as diversas rotas que para ele convergem. No conjunto de bases principais e secundárias, destacam-se três posições importantes:
Porto Rico, as Ilhas Virgens Americanas e Guantánamo. Esta última corresponde a uma base militar, cedida em caráter perpétuo pelo governo cubano aos EUA no início do século e localizada no centro geográfico das Antilhas. Para essa região convergem as principais rotas marítimas que se dirigem ao Canal do Panamá. A importância estratégica da região foi realçada ainda mais quando, nos anos 60, Cuba passou à condição de satélite caribenho da União Soviética.
Em 1997, cumprindo acordo assinado há vinte anos pelo ex-presidente americano Jimmy Carter, o Canal passará à administração panamenha, antes da devolução definitiva prevista para o ano 2000.
Sem a soberania direta sobre a passagem, os Estados Unidos reforçam o seu controle indireto sobre toda a região.
Boletim Mundo Ano 4 n° 5
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