terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

China recupera Hong Kong e amplia influência no mundo

Jayme Brener
A extensa área da Ásia oriental está cortada do desenvolvimento histórico geral (...). Esse estender-se do mar para além das limitações da terra é o que falta aos esplêndidos edifícios políticos dos Estados asiáticos, embora eles próprios estejam às margens do mar - como, por exemplo, a China.
Para eles, o mar é apenas o limite, a cessação da terra; não têm com ele uma relação positiva.
(Do filósofo alemão Friedrich Hegel, em conferências proferidas na década de 1820)
Ai, ai, aiai, está chegando a hora... À meia-noite do dia 30 de junho, a bandeira britânica será retirada do mastro da sede de governo em Hong Kong, depois de um século de ocupação. Vai subir a bandeira vermelha com estrelas amarelas, da China comunista, que receberá de volta a possessão perdida na Guerra do Ópio.
Levando-se em conta que Hong Kong é um dos paraísos do capitalismo ultra liberal – a renda per capita anual beira os 25 mil dólares, contra 500 dólares na China, e há ali mais carros Rolls Royce por habitante do que em qualquer outra parte do mundo – se poderia imaginar uma legião de milionários entupindo portos e aeroportos. Fugindo do comunismo.
É verdade que, no início dos anos 90, funcionários corruptos de vários governos, como o do Paraguai, faturaram uma fortuna vendendo passaportes a cidadãos desesperados de Hong Kong. Mas isso acabou. Pode haver um  certo  nervosismo. Mas quase todos apostam em uma transição fácil. Nenhuma das 1.100 empresas americanas que operam na quase ex colônia, empregando 250 mil pessoas, decidiu sair de lá. Oficialmente, o que garante a estabilidade é a promessa do governo comunista chinês de que não haverá mudanças no capitalismo do enclave pelo menos até o ano 2047. “Serão dois sistemas econômicos a conviver em um mesmo país”, diz a propaganda oficial da China que, em 1999, também vai reincorporar a colônia portuguesa de Macau.
Existe, porém, outro fator favorável à transição macia. Não há contradições gigantescas entre o “capitalismo liberal” de Hong Kong e o “comunismo” chinês. Isso porque o dirigente Deng Xiaoping, morto este ano, imprimiu uma linha de liberalização acelerada na economia socialista. Foram criadas zonas especiais, em cidades da costa, onde se permitiu a instalação de empresas estrangeiras, pagando quase nenhum imposto e beneficiando-se da mão-de-obra baratíssima.
O resultado foi impressionante: a China cresceu em média 10% anuais nos últimos anos. É só observar qualquer camelô brasileiro para perceber que ele vende brinquedos e quinquilharias eletrônicas Made in China. Como o Partido Comunista Chinês parece ter definido que o avanço do capitalismo é, curiosamente, a única forma de preservar sua ditadura, a linha agora é levar o desenvolvimento acumulado nas zonas especiais até o restante do país. Hong Kong funcionará como uma super zona econômica especial, puxando o progresso do capitalismo chinês. É o rabo que abana o cachorro.
Outra coisa que aproximou os dois sistemas foram os investimentos econômicos mútuos. Mais de 38 mil empresas de Hong Kong já se instalaram na mãe-China, em busca de vantagens fiscais e salários baixos. Na mão oposta, o regime chinês, com reservas externas de US$105 bilhões (só perde para o Japão), vem investindo pesado em Hong Kong. A estatal Citic, por exemplo, pagou recentemente a bagatela de US$ 2,1 bilhões por 6,4% das ações da China Light & Power Co. Hong Kong já é o destino de 60% dos investimentos externos chineses.
Se no plano econômico as divergências não são tão grandes assim, pode-se imaginar que a incorporação de Hong Kong pela China esbarraria na área política.
Afinal, há eleições em Hong Kong, enquanto o PC chinês não dá qualquer sinal de liberalização política.
De fato, o Conselho Legislativo (eleito) de Hong Kong deverá ser dissolvido.
Acontece que a democracia de Hong Kong também não é lá essas coisas. O último governador britânico da colônia, Chris Patten, iniciou uma abertura política nesta década. Até para deixar clara sua posição contrária ao retorno de Hong Kong aos chineses.
Mas a ex-colônia foi marcada, desde os anos 50, pela combinação entre economia ultra liberal e autoritarismo político. A pouca tolerância tradicional diante de oposições poderá então reduzir as fricções com os comunistas chineses. Há denúncias constantes de violações de direitos humanos em Hong Kong.
A Anistia Internacional critica a repatriação forçada de milhares de vietnamitas, que tentam buscar asilo na colônia.
O fiador da transição será o magnata da construção naval Tung Chi Hua. Em dezembro, ele foi escolhido por um conselho de 400 integrantes (nomeados a dedo pela China comunista), para governar a nova “Região Administrativa Especial de Hong Kong”. Mesmo milionário e dono de uma reluzente BMW, ele é homem de confiança do PC. Em 1985, uma série de encomendas feitas pela China salvou da falência o império naval de Tung Chi Hua.
A unificação, porém, levanta a necessidade de certas “adequações” na história oficial de Hong Kong.
O governo comunista exigiu – e já conseguiu – que os livros de história fossem refeitos. Eles não tratarão mais como “país independente” a ilha de Taiwan. Trata-se do local de refúgio do ex-governo conservador chinês, deposto pela revolução comunista de 1949. E que, até hoje, disputa o nome de China nacionalista.
Boletim Mundo Ano 5 n° 3

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