A região equatorial africana é formada por dois ecossistemas. Na porção ocidental, encontra-se um domínio natural formado por terras baixas, drenadas pelos rios da bacia do Congo, recobertas extensivamente por florestas equatoriais. Na parte oriental, encontram-se planaltos elevados, rasgados por fossas tectônicas causadas por falhas da crosta terrestre. Essas fossas, num passado geológico recente, foram preenchidas por água, dando origem a vários lagos, como o Tanganica e o Niassa. Nessa área, conhecida como planalto dos Grandes Lagos, são encontrados vulcões ativos e extintos, além de picos que ultrapassam 5 mil metros, como o Kilimanjaro, ponto culminante do continente. Por conta da altitude, as temperaturas da região são inferiores àquelas verificadas na bacia do Congo, a pluviosidade é menor e a floresta densa dá lugar a uma vegetação de savanas.
A estreita zona de transição entre esses dois ecossistemas coincide aproximadamente com as fronteiras entre Zaire, Ruanda e Burundi. Esses países, colônias belgas até os anos 60, têm sido palco de confrontos étnicos que, nos últimos três anos, vitimaram mais de um milhão de pessoas. Ruanda e Burundi apresentam duas etnias principais. Os hutus são a etnia majoritária, perfazendo mais de 80% da população, enquanto os tutsis somam cerca de 10%. Nas fronteiras do Zaire com Ruanda e Burundi habitam expressivas minorias hutus e tutsis. Instalados nessa região há quase dois séculos, os pastores tutsis são conhecidos como baniaruandas e baniamulenges.
Em abril de 1994, as rivalidades entre hutus e tutsis em Ruanda desembocaram num conflito com características de limpeza étnica. A morte do chefe de Estado, um militar hutu, em um mal explicado acidente aéreo, foi a senha para o início de uma matança de tutsis. A reação da etnia minoritária, militarmente organizada na Frente Patriótica Ruandesa (FPR), acabou conduzindo à derrubada do regime hutu.
A vitória da FPR ocasionou um êxodo gigantesco de hutus em direção aos países vizinhos, especialmente o Zaire. Alguns fugiam por terem sido responsáveis pelo massacre, outros pelo medo de uma cega vingança tutsi.
Desde então, quase um milhão de hutus estabeleceram-se em campos de refugiados no leste do Zaire. Nesses campos, misturados à massa de refugiados, cerca de 60 mil milicianos hutus, responsáveis pelo genocídio de 1994, instalaram um poder paralelo. Dominando a distribuição da ajuda humanitária internacional, cobrando taxas dos refugiados, incentivando o ódio étnico, recrutavam um exército para combater o novo governo tutsi ruandês.
Essa situação ajudou a exacerbar os conflitos étnicos no leste do Zaire, em especial na província de Kivu, a fronteira do país com Ruanda e Burundi e tradicional foco de oposição ao governo ditatorial zairense, exercido por Mobutu Sese Seko desde 1965. Contando com apoio logístico dos regimes tutsis de Ruanda e Burundi os baniaruandas e baniamulenges derrotaram os milicianos hutus e promoveram o retorno de 700 mil refugiados ruandeses. Hoje, a região do Kivu é dominada pelos baniamulenges e outros opositores ao governo de Mobutu. Mas ela não é a única. A província de Shaba, no sudeste, célebre pelas riquezas minerais do seu subsolo, e a de Kasai, no norte, também são focos de rebelião contra o governo central. O Zaire é cada vez menos um Estado e cada vez mais uma expressão geográfica herdada do colonialismo.
A desintegração do mais vasto país da África subsaariana, que abriga mais de 200 etnias e faz limite com nove Estados, pode detonar toda a frágil arquitetura de fronteiras da África equatorial.
Boletim Mundo Ano 5 n° 1
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