Jayme Brener
Falência dos Estados e fim da Guerra Fria multiplicam conflitos tribais, enquanto elites e multinacionais exploram “ilhas” de riqueza
Milicianos hutus e tutsis massacrando-se aos milhares, em Ruanda, Burundi ou Zaire? Um novo vírus devastador, que arranca centenas de vidas a cada dia, como fez o Ebola no Zaire, há dois anos? Qual será a próxima mazela no cardápio da África subsaariana?
O fogo das guerras civis na África está longe de se apagar. A Aids vem eliminando gerações inteiras de jovens em Ruanda ou Uganda. Não que as guerras, epidemias e endemias sejam coisa nova no continente. Mas o fim da Guerra Fria acabou com o interesse das potências em auxiliar países africanos, sem qualquer perspectiva econômica no mundo globalizado.
As exceções ficam por conta do Magreb, os países de maioria muçulmana no norte da África, e das economias que giram em torno da África do Sul de Nelson Mandela.
Para os países situados entre o Magreb e os domínios de Mandela, o futuro reserva esperanças magérrimas. Quase todos amargam a falência dos Estados surgidos do processo de descolonização, nos anos 50 e 60. À época, fronteiras estabelecidas a partir da divisão administrativa colonial (quer dizer, separando tribos e juntando outras que nada tinham a ver entre si) delimitaram dois tipos de regime.
De um lado, os “associados”, ex-colônias que optaram por manter relações econômicas e políticas privilegiadas com as velhas metrópoles e eram dominados pelas antigas elites tribais. Do lado oposto, os países do “socialismo africano”, que escolheram o caminho do desenvolvimento autônomo, distante do Ocidente.
Os dois modelos fracassaram. Os “associados”, como o Zaire do ditador Mobutu Sese Seke, porque suas elites concentraram esforços em pilhar a economia, construindo fortunas gigantescas. Já os “socialistas africanos” foram incapazes de construir alianças de cooperação econômica que propiciassem seu desenvolvimento. Sem contar os “planos socialistas” que levaram países inteiros à ruína. A Guiné-Bissau, por exemplo, decidiu nos anos 70 dedicar boa parte de seus recursos à construção de um imenso complexo para a produção de óleo de amendoim. O preço do produto despencou no mercado mundial e o tal complexo está apodrecendo na selva.
A dissolução dos Estados e de suas redes de saúde e serviços – facilita a ocorrência de novas guerras civis e epidemias.
Dos dez piores países do mundo, de acordo com o Índice de Desenvolvimento Humano da ONU, nove são africanos. A população (cerca de 600 milhões), cresce 3,1% ao ano. Esses números não significam apenas pobreza. Angola, Nigéria, e Zaire têm subsolo riquíssimo. Hoje, essas riquezas são exploradas por “ilhas”: elites tribais, burocratas estatais ou empresas estrangeiras. Em geral, os três juntos.
A falta de interesse do Ocidente criou um gordo mercado para os mercenários.
Essa mão de obra, digamos, especializada, em geral provém do antigo exército branco da África do Sul e usa armas “liberadas” pelo fim de outras guerras, na América Central e nos Bálcãs. Um desses mercenários, indagado recentemente por um repórter da revista americana Newsweek sobre como ele se sentia, lutando em países famélicos como Angola e Serra Leoa, respondeu:
Nós somos contratados para fazer um serviço. Fazemos. É simples. É um negócio.
Talvez o único negócio de êxito, na África Subsaariana de hoje.
Boletim Mundo Ano 5 n° 1
Nenhum comentário:
Postar um comentário