Mirella Martinelli
A Califórnia nunca esquecerá que já foi do México.
Basta abrir o mapa, sair pelas estradas, andar pelas ruas, e os nomes latinos não deixam esquecer: Los Angeles, Los Gatos, Sierra Nevada, Guerrero Street, Valencia, Potrero Avenue e até a capital, Sacramento. Se você procura um mirante nas estradas, siga as placas de vista point (parece até gíria de paulistano!). Para muitos, é uma dádiva que a Califórnia não seja mais do México, pois continuam passando pela fronteira milhares de mexicanos, colombianos, salvadorenhos, brasileiros, nicaragüenses sedentos daquilo que seus países não lhes oferecem. Furiosos ou não com Uncle Sam, chicanos convictos ou adeptos da cultura consumista estados-unidense (hay que diferenciar americanos de americanos), os imigrantes continuam vindo. Pelo mar ou pelo ar, cruzando o Pacífico, chegam chineses, japoneses, vietnamitas, coreanos e russos. Em São Francisco, a população de estudantes já é de mais de 40% de não brancos (aqui os latinos não são classificados como brancos nas pesquisas).
Numa noite dessas, fui a Maritime Hall ver um show do grupo cubano Los Van-Van. Maravilhoso esse conjunto de 16 músicos que nos fez dançar por quatro horas.
Num certo momento, um dos vocalistas pediu: “Que ergan las manos la gente de Cuba!”. Lá estavam os cubanos. “La gente de Colombia...la gente de Mexico...la gente de Puerto Rico...la gente de Nicarágua” ... e dá-lhe mão prá cima ... “La gente de Estados Unidos”, para minha surpresa eram a maioria.
De ressaca, ando pela rua no bairro mexicano de Mission. Entro numa mercearia / açougue / mercado, onde a vietnamita do caixa dá o troco e responde em perfeito espanhol para a freguesa. Acho graça no contraste entre uma bacia de cerejas e, ao lado, uma de cactos, que os mexicanos gostam de comer refogado. Escolho as cerejas e peço informações à moça do caixa em inglês. Noto que o inglês da vietnamita é bem pior que seu espanhol.
Chego à escola pública que passou a se chamar Cesar Chavez, depois da morte do líder sindical de origem mexicana que lutava contra o uso de pesticidas ameaçadores à saúde dos trabalhadores rurais. Atravesso o pátio onde há crianças das classes afro-americanas (como os negros daqui preferem ser denominados), cujos pais optaram por turmas distintas das de outras etnias. Se fossem os brancos que tivessem escolhido classes segregadas para seus filhos seria um escândalo: a coisa mais retrógrada e racista do mundo! Em roda, os negrinhos repetem palavras em Yorubá e louvam a mama África. Há um movimento em Oakland pela obrigatoriedade do ensino de “ebonix”, a língua dos negros, na escola. Meu professor de roteiro cinematográfico, que é negro, acha um absurdo. Considera que o tal ebonix é muito mais um dialeto associado à classe social que à cor da pele, assim como os pobres da Inglaterra falam cockney.
Subindo as escadas, entre cartazes em inglês, espanhol, chinês e tagalog, cruzo um bando de chinesinhos a caminho de sua classe bilíngüe, que intercala semanas de aula em inglês com semanas em chinês. Atinjo a classe bilíngüe espanhol-inglês, na qual uma esmagadora maioria de filhos de mexicanos, em geral nascidos na Califórnia, convive com um ou outro branco ou negro. A professora, porto-riquenha, ensina sobre a guerra contra o México, com um livro mexicano debaixo de um braço e um americano no outro. Recordo o último filme que vi, Lone Star.
A história, escrita e dirigida pelo cineasta independente John Sayles, se passa numa cidadezinha texana, na fronteira com o México, onde os pais de alunos se revoltavam contra as aulas da professora. Falar da música e da comida mexicana estava muito bem, mas histórias da guerra com o México eram demais para os red-necks. A intrincada trama que costura, opõe e mistura negros, índios, mexicanos e brancos americanos revela que todos querem a divisa fronteiriça, a questão é apenas se ela é desenhada mais prá cá ou mais prá lá.
A caminho de casa, paro numa loja de bicicletas usadas e lembro de usar meu portunhol para conseguir um desconto, coisa que em inglês não cola para o dono mexicano. Passo por um bando de manifestantes tristes pois lutavam contra a Proposition 209 e foram derrotados.
Não em São Francisco, cidade que continua desrespeitando a Lei 187 (que restringe muitos direitos de imigrantes) mas no cômputo geral da Califórnia, os defensores da Affirmative Action dançaram. Chegando em casa, cedo a única vaga na rua para o carro do meu vizinho filipino e estaciono três quarteirões para baixo. Lembro da história do imigrante ilegal goiano (aqui tem muito goiano) que conheci semana passada. Multado no trânsito, foi à Corte recorrer e mostrou o passaporte com visto vencido. Não faz mal, o departamento de trânsito nada tem a ver com o de imigração. Nem os hospitais, ou qualquer órgão público em São Francisco. Você chega, diz que é ilegal, paga e pronto, é atendido. Basta pagar. Aliás, se o paciente ou réu não domina bem o inglês, os hospitais e tribunais são obrigados a fornecer um intérprete profissional, sem custo extra.
Subo o morro que se enche de fog trazido pelo vento rápido e frio. Entro na minha casa de imigrante recente e respiro aliviada: alguém chegou antes e ligou o aquecimento.
Da janela, avisto o porto com três grandes navios ancorados e me lembro de Amsterdã. Apesar das tais lutas étnicas, das leis que procuram restringir a imigração, das fronteiras mal vigiadas onde também atiram nos que tentam passar e prendem-nos, São Francisco é como Amsterdã um porto de braços abertos para os imigrantes. As pessoas aqui são bi, tri, quadrilíngües, o que importa é se comunicar. Embora seus habitantes se ocupem em conservar raízes, também querem mais é misturar. Mais e mais.
Parece que os americanos que aqui vivem se tocaram que têm raízes de lugares muito distantes e distintos, e que os nativos mesmo, os indígenas, já foram dizimados há muito.
As fronteiras do Sun Belt
Sun Belt. É assim que são denominados, nos Estados Unidos, os estados do oeste e do sul. Nesta região, que passou por um intenso processo de industrialização do pós-guerra, florescem hoje as companhias da informática. A Califórnia está no umbigo do Cinturão do Sol. Nos arredores de São Francisco, dezenas de cidadezinhas suburbanas formam o Vale do Silício: é a terra da Intel, da Apple e da Hewlett Packard. O paralelo entre os novos pioneiros da revolução tecno científica e os do faroeste remete ao mito americano da fronteira.
A fronteira tem outros sentidos na Califórnia. A faixa de tensão fronteiriça com o México separa e aproxima as duas Américas: a Anglo-Saxônica e a Latina. A tensão se alimenta dos fluxos de imigrantes ilegais, mas também da memória histórica: a Califórnia, assim como outros estados do sudoeste dos Estados Unidos, pertenceu ao México até a guerra de 1848.
A fronteira interna é aquela traçada entre as etnias: chicanos, hispânicos, afro-americanos são nomes que condensam a polarização entre o universo dos “brancos” e o das ruas. Chicanos é pejorativo e se aplica essencialmente aos mexicanos. Hispânicos é uma classificação estranha, pois abrange todos os migrantes oriundos da América Espanhola, independentemente da sua nacionalidade.
Maleável, a classificação pode incluir até mesmo os brasileiros: trata-se da mesma operação ideológica de exclusão que denominava “bárbaros” a todos os não-romanos, na Antiguidade. Afro-americanos substitui “negros”, na linguagem “politicamente correta” que atualiza e envolve no manto do remorso o velho racismo americano. O fervor com que uma vasta parcela dos negros americanos adota a nova denominação é sintoma da crise do ideal integracionista dos anos 60.
A fronteira interna adquire materialidade na geografia urbana, sob a forma de complexos rendados de guetos étnicos. Em Los Angeles, a maior metrópole do oeste, as linhas divisórias segregam os subúrbios brancos dos guetos negros, hispânicos, chineses, japoneses, filipinos e coreanos que formam um mosaico nas áreas centrais. Em abril de 1992, a absolvição de policiais brancos que espancaram um negro deflagrou uma violenta revolta de negros e hispânicos. A batalha campal, o saque e o tumulto sinalizaram a encruzilhada em que se encontra o caldeirão social americano.
São Francisco não é Los Angeles. A cidade, erguida nos morros emoldurados por uma linda baía, foi um baluarte das estratégias da Ação Afirmativa, a política de promoção das “minorias” - negros, hispânicos, mulheres (!!!) - através de cotas obrigatórias em universidades e empregos públicos. A Ação Afirmativa sofre críticas que partem de diferentes posições do espectro político. Algumas expressam apenas os preconceitos do racismo tradicional. Outras exprimem a oposição dos integracionistas a uma política que, trilhando o caminho denunciado por Martin Luther King, avalia as pessoas pela cor da pele (ou pelo sexo). A polêmica atual em torno da Ação Afirmativa e as proposições submetidas a referendos estaduais destinadas a suprimi-la refletem um novo patamar do impasse histórico dos Estados Unidos, que se debate sem cessar com a sua condição de nação de imigrantes.
Boletim Mundo Ano 5 n° 1
Nenhum comentário:
Postar um comentário