domingo, 6 de fevereiro de 2011

Crise da “Grande Sérvia” coloca em cheque o governo do velho comunista Milosevic

“Onde você estava quando os jovens da nossa idade eram mortos nos campos de batalha em torno de Vukovar?” A pergunta, dirigida pelos estudantes de Belgrado ao presidente do Parlamento sérvio, Dragan Tomic, evidencia as raízes da crise política iugoslava. O fim da guerra na Bósnia esvaziou o projeto nacionalista do regime de Slobodan Milosevic e trouxe à tona as tensões acumuladas pelo empobrecimento do país nos últimos cinco anos.
As dezenas de milhares de manifestantes que ocuparam as ruas das maiores cidades da Iugoslávia, desde meados de novembro passado, exigiam o reconhecimento da vitória da oposição nas eleições municipais e o estabelecimento de um Estado democrático. A percepção profunda atrás do inverno de protestos foi sintetizada por Predrag Simic, diretor do Instituto de Política e Economia Internacional de Belgrado: “Nós todos sentimos que fazemos parte do clube dos perdedores da Europa”.
Os sérvios invejam os países da Europa central - a Polônia, a Hungria e a República Tcheca - que reencontraram o caminho do crescimento econômico e consolidaram regimes democráticos.
Os protestos, pacíficos e criativos, lembram a “Revolução de Veludo”, liderada pelo dramaturgo Vaclav Havel, que encerrou o regime comunista na antiga Tchecoslováquia, em 1989. Mas a Iugoslávia de 1997 não é a Tchecoslováquia de 1989: nem o regime de Milosevic está ancorado numa potência estrangeira, nem a oposição reflete o anseio democrático das ruas.
Milosevic jogou a carta do nacionalismo para conservar o poder durante a árdua transição de 1989-90. O seu Partido Socialista Sérvio é a velha Liga dos Comunistas, rebatizada e ideologicamente recauchutada.
Esse partido, ao contrário dos demais aparelhos comunistas do antigo bloco soviético, jamais foi uma emanação de Moscou. As eleições legislativas, realizadas pouco antes das municipais, deram folgada vitória a Milosevic, graças ao voto rural.
A revanche da oposição aconteceu nas cidades importantes, revelando a emergência de uma divisão entre o eleitorado urbano e os camponeses.
Agrupada na coalizão Najedno (“Conjunto”), a oposição abrange um leque incoerente de partidos, soldado pela reivindicação de democracia. O mais forte deles é o Movimento de Renovação Sérvia do escritor Vuk Draskovic, cujo nacionalismo não é postiço, como o de Milosevic, mas profundo e radical. Foi Draskovic, antes de Milosevic, que defendeu a edificação de uma Grande Sérvia “sobre todos os lugares onde se encontram as tumbas sérvias”, fornecendo o combustível espiritual para a guerra na Bósnia.
Draskovic nunca defendeu a “limpeza étnica” promovida pelos sérvios bósnios. Mas Radovan Karadzic, líder dos sérvios bósnios, rompido com Milosevic desde o início das negociações de paz, explicitou publicamente o seu apoio à coligação Najedno e às manifestações de rua.
Falta uma peça no quebra-cabeça político iugoslavo. Tanto o regime quanto a oposição conservam silêncio sobre a “República de Srpska”, o proto-Estado sérvio estabelecido em 49% do território da Bósnia. O silêncio de Milosevic é fruto do acordo de paz que assinou sob pressão das potências ocidentais. O da oposição é fruto da necessidade de conservar o apoio popular e a simpatia do Ocidente.
Mas, em pouco tempo, a peça escondida estará sobre a mesa iugoslava, pois a “República de Srpska” foi concebida como entidade transitória e quer se incorporar à Mãe-Sérvia. Quando isso acontecer, o baile de máscaras estará encerrado e, finalmente, se saberá quem é quem em Belgrado.
Boletim Mundo Ano 5 n°1

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