domingo, 6 de fevereiro de 2011

Diário de Viagem- Velejando pelo Caribe

Laís Guaraldo,
“Foi mais do que uma tropical  depression, foi uma tropical storm”. Por toda a parte a notícia corria: a tempestade estava chegando. Ficamos sabendo com dois dias de antecedência e ninguém imagina com que força o vento vai chegar.
Sabíamos que normalmente em Bonaire não há risco de furacões, mas os antilhanos sempre esperam as tempestades preparados  para o que der e vier.
No ano passado, o furacão que passou por San Martin foi de 350 km/h, afundou todas as embarcações e fez voarem aviões e catamarãs. Depressões, tempestades e furacões são ciclones, turbilhões de ar que se distinguem pela velocidade dos ventos.
Esse ano, outro furacão passou em San Martin, mas era bem mais fraco: só 150 km/h. Quinze dias depois, começou o vento forte em Bonaire, e toda a gente correu para a única baía protegida, procurando um lugar seguro. Com todos os barcos entrando ao mesmo tempo na marina não seria muito fácil colocar um barco ao lado do outro, não fosse a eficiência dos funcionários em amortecer o movimento dos veleiros com dois dinghys infláveis, um de cada lado. Enquanto isso, no antigo pier onde estivemos tranqüilamente ancorados, na frente da ilha, o velho oceano, lindo e vivo, dono do pedaço, arrebentava as madeiras e instalações elétricas e hidráulicas. Foi um dia de fúria, mas dia seguinte já estava cristalino novamente.
Fomos mergulhar e lá estavam os peixes de corais, sossegados, como se não soubessem de nada ou fingindo não saber o que tinha acontecido.
E  Bonaire embaixo d’água era um infinito turquesa, como todo o tempo essa cor não sai dos olhos da gente quando estamos no Caribe. Estranha é a escassez de peixes oceânicos. Os peixes coloridos dos corais fazem um desfile de escola de samba, domesticados pela vida fácil de peixe de reserva, e fica faltando uma vida mais prateada, com a exceção das barracudas, que aparecem como capim para olhar nos olhos da gente, com uma expressão que me faz desistir do gosto pela caça submarina.
Fui ao Caribe para ajudar meu amigo a levar seu veleiro, que estava em Curaçao, para outro lugar seguro de furacões.
De início, nosso plano era ir para a Jamaica, Cuba e México, pois o vento e a corrente ajudariam bastante. Os ventos e a corrente marítima da Guiana se deslocam na direção sudeste noroeste, facilitando o percurso das Pequenas Antilhas para as Grandes Antilhas e para o istmo centro americano . Velejar no sentido  contrário é muito mais difícil e demorado Na época colonial, essa brincadeira da natureza contribuiu para que a Espanha perdesse o domínio dos arquipélagos das Pequenas Antilhas, cuja defesa a partir das bases no istmo era uma tarefa militar complexa. Ingleses, franceses, holandeses e piratas aproveitaram-se disso para estabelecer as suas soberanias sobre o arco insular do sudeste caribenho.
Mas não pudemos seguir nosso plano original. Com a proximidade do mês de julho, os velejadores mais experientes nos aconselharam a seguir mais ao sul, para Honduras e Guatemala, pois era muito menos provável a ocorrência de furacões. No fim das contas, acabamos tomando rumos diferentes, de forma que eu mudei de veleiro e estava em Bonaire, bastante preocupada com o destino do meu antigo barco, o Luz do Sol. É que essa tempestade tropical que passou por nós foi tomando força e chegou como um furacão na Costa Rica, bem próximo de onde poderia estar meu antigo capitão. Só aqui no Brasil descobri que ele estava na Jamaica, pois uma baleia tinha batido no casco dele, obrigando-o a rumar para Kingston, onde chegou tirando água em baldes.
Dos velejadores que conheci, a figura mais estranha foi a de um senhor que viajava sozinho com quatro cachorros, sendo que um deles tinha só três pernas. Penalizava toda a marina aquela figura “cheia de amor” levando os cachorros para passear todas as tardes.
Um amigo sueco arregalava seus olhos azuis do alto do seu corpo magro e comentava com solenidade: “four dogs and fifteen legs”. Um  outro homem naufragou perto da Martinica e ficou no dinghy esperando um resgate.
Foi quando passou um cargueiro japonês indo para o Panamá e o homem gritou para o capitão: “no, gracias, no me gusta el Panamá”. O mar às vezes deixa a cabeça da gente meio fluida.
É que na terra tudo é bem diferente (como diz o Aguiar: cheio de bípedes e  automóveis). As Antilhas Holandesas (Bonaire, Curaçao e, até pouco tempo atrás, Aruba) são ilhas secas e escarafunchadas, mas com um mar perfeito para o mergulho. Há muito tempo é extraído de Curaçao muito fosfato e calcáreo, remanescentes de corais em decomposição. Os morros ficam com um aspecto carunchado, por sua vez, reclamam à boca pequena dos impostos que pagam para garantir os benefícios sociais dos antilhanos; e os antilhanos não reclamam de nada, acham os holandeses bastante razoáveis e estão sempre sorrindo com seus dentes dourados. Só não recomendo ao viajante desavisado tirar retrato do beco rhastafari, em Curaçao, pois corre o risco de tomar um susto de um rhasta de olhos esbugalhados com voz baixa e seca: “estás loca ?”.
Na Venezuela o clima é bastante diferente.
A atmosfera de escassez é muito mais presente. A marina é cheia de cercas, para separar os barcos da população, que tem bem mais traços indígenas. A crise econômica é visível e os velejadores aproveitam a desvalorização da moeda para se abastecerem de alimentos. Mas bonito nas viagens é a viagem das palavras. O inglês passa pela boca das pessoas com todos os sotaques do mundo e certas palavras parecem cheias de nacionalidade, permanecem na roda mesmo quando falamos em outra língua, como as horas que o venezuelano respondeu: “son dez para las five”.
Às vezes eu olhava para aquela gente que se encontrava na marina no final da tarde para beber alguma coisa junto e me perguntava o que é que eles estavam procurando.
Será que todo mundo que escolhe viver num veleiro tem o mar como uma religião ? Velejando, a intensidade do  prazer rapidamente se transforma em alta tensão, quando alguma coisa dá errado. O mar nos presenteia com golfinhos num dia e ondas enormes com ventos estranhos no momento seguinte. Uma estafa nas noites de turno, a soturna presença de navios, a uma distância abstrata para mim – silenciosa presença de perigo. E um amanhecer perto da costa, árvores e cidades desconhecidas, mistérios de lugares em que a  todo  momento  você decide por eles. O trânsito como condição permanente de vida. Onde   essa gente quer chegar ? - eu me perguntava.
Daí eu me lembrei de um trecho  bonito de um filósofo francês, Gilles Deleuze, que talvez responda à minha pergunta:
“Por que se viaja se não é para verificar? Verificar uma coisa qualquer, algo inexprimível, que vem da alma, de um sonho ou pesadelo. Ainda que seja para saber se uma cor improvável, um raio de luz verde ou uma atmosfera púrpura existe mesmo em algum lugar. Ir ao Japão, para verificar como o vento de lá desfralda as bandeiras de Ran de Kurosawa. Sempre  o vento, este invisível.”
(L’Image temps, Paris, Minuit, 1985).
Boletim Mundo Ano 4 n° 6

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