Correntes da central sindical americana AFL-CIO fundam Partido Trabalhista mas vacilam em romper com o tradicional alinhamento ao Partido Democrata
J. M. Pasquini Durán
Com os dados atuais, em outra época o prognóstico teria sido um golpe de Estado a curto prazo. O caldeirão social em ponto de ebulição com sensação térmica de insegurança e incerteza, a autoridade do governo em retrocesso e postura repressiva, as instituições desprestigiadas, a burocracia da Confederação Geral do Trabalho (CGT), a central sindical peronista, bloqueando o debate interno de armas em punho, a Bolsa de Valores em queda, a economia maltratada e fechada no reduzido círculo do seu próprio egoísmo. Se até os generais foram convocados há pouco para discussões com o Estado-Maior...
Mas não: não será como nos velhos tempos. O “Partido Militar”, que agiu como representação dos conservadores durante meio século, hoje não figura nos cálculos de ninguém. As discussões com o general Martín Belza são pouco mais que uma reunião social: querem saber como manter as aparências diante do ajuste do Orçamento. Para sorte da absoluta maioria, a democracia continua condenada a encontrar remédios para os seus males através dos próprios recursos.
O partido de Menem já não representa a aliança eleitoral que combinava os muito ricos com os mais pobres.
Pesquisas recentes confirmaram o que ficou evidenciado a 8 de agosto, na greve convocada pelas três centrais sindicais: a economia neoliberal perdeu o consenso que chegou a ostentar, porque demonstrou ser incapaz de realizar o programa prometido. Depois de cinco anos de ortodoxia, há desemprego recorde, menor investimento, mais dívida pública e o Estado, que privatizou todo o seu patrimônio, é incapaz de oferecer aos cidadãos educação, saúde, justiça e segurança. Não há equilíbrio possível quando se coloca em um prato da balança a inflação zero e a paridade monetária com o dólar; e no outro prato o enorme custo econômico e social. Estatísticas recentes revelam que na província de Buenos Aires, a principal do país, treze crianças em cada cem apresentam menos peso que o mínimo aceitável para suas idades, enquanto nove corporações ganharam no ano passado - ano de recessão tanto dinheiro quanto o total destinado à saúde de 3,5 milhões de aposentados. Cifras aproximadas - quem pode calcular com exatidão ? - estimam que o déficit fiscal deste ano, ao redor de 6 bilhões de dólares, equivale à metade do total que escapa pelos labirintos da corrupção.
Durante os anos de auge do apoio popular, o governo depreciou os sindicatos porque o “modelo” neoliberal exigia a demolição completa dos direitos trabalhistas e a flexibilização total do mercado de trabalho. Aqueles sindicalistas que usam com prazer gravatas de seda italiana aceitaram encantados a tarefa de gerentes da “reconversão do trabalho”, mas perderam as suas antigas posições de “coluna vertebral” do Movimento Justicialista (o agrupamento partidário e sindical peronista), substituídos pelos sacerdotes e beneficiários do dogma neoliberal. Esse sindicalismo burocratizado é um termômetro da temperatura oficial abrigam-se ao amparo do governo quando esquenta e o atacam quando esfria. Hoje o governo está na intempérie, cada vez mais isolado, a tal ponto que foi obrigado a procurar aos que até ontem humilhava, ignorando-os, para pedir um acordo capaz de conter a onda de mobilizações sindicais de protesto. Desde há muito, alguns caciques da CGT usam a violência para tirar os opositores do caminho e conseguiram paralisar o impulso deflagrado a 8 de agosto, quando os seus guarda-costas receberam a tiros uma manifestação de caminhoneiros filiados a outra central sindical, o MTA. O ato de violência provocou um espasmo de susto na sociedade, agitando espectros do passado num momento em que a polícia volta a caçar bruxas pelas ruas e o crime recruta adeptos todos os dias. Os únicos que conservaram a calma foram os sindicalistas combativos da CTA (Confederação dos Trabalhadores Argentinos), que disseram em público o mesmo que antes seu principal líder, Victo De Gennaro, havia respondido às ofertas encobertas da CGT para que firmasse um acordo: “Não temos pressa para outra greve, mas por um plano coerente de resistência à economia desumana”.
Assim, os sindicalistas de gravatas de seda voltaram a se envolver nas tramas do ajuste orçamentário, enquanto a oposição seguia adiante com uma iniciativa de centro-esquerda que conseguiu mais adesões a cada dia, para organizar o apagar de luzes nacional de cinco minutos
Com buzinaço e panelaço nas ruas e casas de 12 de setembro. A Frepaso (Frente por um País Solidário, partido de centro-esquerda), autora da iniciativa, conseguiu o respaldo da União Cívica Radical, terceira bancada do Congresso, da CTA e do MTA, e de várias organizações civis.
A oposição começa a encontrar caminhos novos de manifestações de massas e acumula experiências de ações conjuntas. Isto é, a democracia faz frente aos problemas com seus próprios recursos, administrando-os com inteligência e sentido coletivo, sem os clichês das velhas rotinas.
Estabilidade da moeda exige recessão
O super ministro argentino da Economia, Domingo Cavallo, que foi o símbolo da estabilidade da moeda por mais de cinco anos, deixou o governo em agosto. O Plano Cavallo, deflagrado em abril de 1991, baseia-se no conceito de âncora cambial. A moeda nacional, o peso, foi ligada ao dólar na paridade de um para um. O estoque de pesos na economia do país passou a ser lastreado pelas reservas em dólares em poder do Banco Central. O BC só pode emitir pesos no ritmo da entrada de dólares no país, que é determinada pelos saldos comerciais e pelos investimentos estrangeiros. Quando as reservas em dólares se reduzem, o BC é obrigado a retirar moeda nacional de circulação, a fim de conservar o lastro que garante a paridade.
O Plano matou a inflação. Mas está matando a economia.
Nos meses seguintes à crise financeira mexicana de dezembro de 1994, investidores estrangeiros retiraram em massa aplicações financeiras de curto prazo do mercado argentino. O BC retirou os pesos correspondentes de circulação. A escassez de moeda lançou os juros para a estratosfera, inibindo a produção e o consumo. Só há dois caminhos para combater a recessão: aguardar uma improvável retomada dos investimentos em dólar ou explodir a âncora cambial e lançar pesos na economia, reinstalando a inflação. Por enquanto, Menem aferra-se à primeira alternativa, enquanto o desemprego aproxima-se dos 20%. E Cavallo preferiu não gerenciar os estertores do seu plano.
Boletim Mundo Ano 4 n° 5
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