Correntes da central sindical americana AFL-CIO fundam Partido Trabalhista, mas vacilam em romper com o tradicional alinhamento ao Partido Democrata
A diferença básica entre a estrutura partidária nos Estados Unidos e nos países europeus não reside no bipartidarismo afinal, a Grã-Bretanha também oscila ao sabor da alternância entre duas agremiações.
O que distingue a república americana é a ausência de um partido historicamente identificado com a classe trabalhadora.
Na Europa, a emergência da ideologia socialista materializou-se em partidos social-democratas que se articularam através da IIª Internacional, fundada por Friedrich Engels, em 1889. Após a Revolução Russa, as correntes revolucionárias entre os socialistas organizaram os partidos comunistas, agrupados na IIIª Internacional, fundada por Lenin, Trotski e Rosa Luxemburgo em 1919.
Nos Estados Unidos, o movimento operário criou fortes sindicatos, reunidos na central AFL-CIO, com 13 milhões de filiados, mas não gerou partidos. Os dois partidos institucionais movimentos acrobáticos de refundação social e política.
O Partido Republicano nasceu em 1854 como dissidência anti-escravista do velho Partido Democrata, representando a elite liberal do Norte que conduziria a União durante a Guerra de Secessão (1861-65).
O que restou do Partido Democrata enraizou-se como representação dos interesses agrários e escravistas do Sul. O bipartidarismo refletia a decupagem do território segundo a fronteira geográfica da escravidão.
A Grande Depressão foi a ocasião da refundação dos partidos. Com Roosevelt e o New Deal, o Partido Democrata se transfigurava no eixo organizador da coalizão de industriais do norte, agricultores empobrecidos do sul e sindicatos operários.
Mais tarde, os negros que migravam para as cidades seriam englobados ao guarda chuva democrata. Enquanto o velho agrupamento da oligarquia escravista tornava-se o partido das reformas sociais, os republicanos se transformavam no partido das finanças e do conservadorismo.
O colapso do ciclo histórico do New Deal pode representar a ocasião para uma nova reorganização partidária. Pelo menos, é o que esperam as correntes sindicais que acabam de anunciar a fundação de um Partido Trabalhista nos Estados Unidos.
Em Cleveland, Ohio, entre 6 e 9 de junho, 1600 delegados aclamaram a fundação de um Labor Party (Partido Trabalhista). Baseado em organizações sindicais, organizações negras e representantes de um movimento chamado Labor Party Advocates (LPA, Defensores do Partido do Trabalho), o Labor Party vem à luz com cerca de 1 milhão e duzentos mil trabalhadores filiados. Do congresso de fundação participaram delegados de nove federações sindicais subordinadas à AFL-CIO, incluindo as poderosas OCAW (Química, Petróleo e Energia Atômica), UE (Eletricitários) e ILWU (Portuários). A constituição deste partido significa o primeiro rompimento importante de organizações sindicais e negras com o partido de Bill Clinton e Jesse Jackson. A iniciativa tem origem em 1990-91 com diversos dirigentes sindicais, entre eles Tony Mazzocchi, então presidente da OCAW, que resolveram organizar o LPA sob o lema: “Os patrões tem dois partidos, os trabalhadores têm direito de ter pelo menos um”.
As estreitas relações dos sindicatos com o Partido Democrata têm origem em 1932, com o New Deal, iniciativa política que incluía concessões aos trabalhadores mas exigia o envolvimento estreito das direções sindicais com as preocupações do partido e com a estabilidade política do regime capitalista. A atual política da Casa Branca de cortes nos investimentos sociais , de privatização de serviços públicos, aumento de impostos, o desenvolvimento do emprego “precário” (sem direitos trabalhistas), a crise econômica, enfim, têm levado os sindicatos ao choque com os democratas. Quando da assinatura da constituição do Nafta, a normalmente dócil AFL-CIO denunciou que o tratado geraria 500 mil desempregados nos Estados Unidos. Estes atritos levaram ao surgimento de uma nova geração de sindicalistas. É o que está na base da derrota da velha direção da AFL-CIO, no ano passado. A nova direção da central sindical origina-se dos setores industriais mais atingidos pelo desemprego e arrocho salarial.
Oficialmente, a AFL-CIO continua a apoiar Clinton. Mas, poucos dias antes do congresso de Cleveland, o Sindicato Nacional dos Mineiros - cujo principal dirigente, Trumka, é o novo vice-presidente da AFL-CIO - decidia participar da fundação do Labor Party. Por acaso, no momento em que se realizava o congresso, o novo presidente da AFL-CIO, John Sweeny, estava em Cleveland. Ele não participou do congresso, mas declarou à imprensa que constituir um novo partido “é uma tarefa monumental e só temos 6 meses até novembro”, referindo-se às eleições presidenciais e parlamentares. Sweeny não pretendia criar obstáculos para a recondução de Clinton: “Temos que reservar a criação de um Labor Party para um ano que não seja de eleição presidencial”. De qualquer forma, o congresso do Labor optou por não lançar candidatos em 1996.
No congresso de fundação, também estava Jerry Brown. O antigo governador da Califórnia e, durante muito tempo, um dos dirigentes do Partido Democrata, disse: “Li com atenção o projeto de plataforma dos democratas. Procurei a palavra sindicato e não encontrei. Procurei a palavra justiça e não encontrei, a não ser na expressão ‘reforçar o sistema de justiça criminal’. Por isso é preciso uma clara ruptura com eles. O programa democrata fala de felicidade. Mas como é possível ter felicidade numa sociedade sem sindicatos e sem justiça social ?”. Pouco antes, Jim Hightower, antigo ministro democrata da Agricultura, também tomou a palavra: “Quem fala em nome da classe operária? Certamente não os democratas, que quando estão no poder fazem o mesmo que os republicanos”.
E continuava: “Quem deve falar em nome da classe operária? A própria classe operária”. Sinal dos tempos.
Boletim Mundo Ano 4 n° 5
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