sábado, 5 de fevereiro de 2011

Diário de Viagem- Na Bolívia, índios querem o direito de cultivar coca

Jayme Brener
Outro mundo, aqui pertinho. É a sensação de passar uns dias na Bolívia, para um seminário sobre jornalismo e tráfico de drogas. A estranheza começa em La Paz, a capital, construída em um vale profundo. Quanto mais rico o cidadão, mais perto do fundo do vale ele mora. Lá em cima ficam os mais pobres. Pobreza diferente da que conhecemos. Sete em cada dez bolivianos não têm quase nada; mas vivem em sua casinha, têm lá uma pequena horta... pobreza pré-industrial, sem favelas. Os ricos são quase todos brancos - descendentes de espanhóis ou alemães. A massa é indígena. Suas mulheres, as cholas, usam ponchos coloridos, saias pretas e chapéu-coco. Uma delas é a esposa do vice-presidente, um índio do lago Titicaca. Não trocou as roupas e faz as peruosas senhoras dos politicões torcerem o nariz nas recepções oficiais.
No meio da noite, La Paz, que vive olhando para o impressionante monte Intillimani, cobra o privilégio da visita ao teto do mundo (são 3.600 metros de altitude).
O visitante acorda com o coração quase pulando fora do peito; o nariz sangra, a respiração foge. Como é que se pode culpar a seleção boliviana de futebol por querer sempre enfrentar os adversários lá, no topo do mundo?
Caminho de La Paz ao lago Titicaca. Terra ruim. Mas dividida, desde a revolução de 1952, que fez a reforma agrária e transformou a Central Obrera Boliviana (COB) no sonho de todo ativista de esquerda na América Latina. Titicaca quer dizer gato cinza. Os moradores da região juram que, em certos dias, o lago assume a forma de um gato cinzento. Não sei. Os índios juram que ele protege o pessoal de lá das ameaças. Vindas de onde, de Marte? Pode ser. No céu do mundo, tudo é possível. As tribos locais extraem das águas a totora, caule de uma planta semelhante à nossa taboa, e com a qual se faz de tudo. Cadeiras, barcos que já chegaram a fazer viagens da África do Norte à América.... Uma das tribos, acredite se quiser, construía verdadeiras ilhas de totora, sobre as quais instalava suas casas. Os restaurantes de luxo das margens do lago oferecem truta aos turistas. Os velhos índios que manejam os barquinhos cantam melodias incompreensíveis. Não adianta traduzir. É outro mundo.
E, ao redor de tudo, a folha de coca. Remédio para todos os males. Como chá, ajuda a combater os efeitos da altitude. Como estimulante, tem efeito mais forte do que o café, sem ofender o estômago. Nada a ver com a cocaína, que é a pasta de coca refinada. A folha que não é droga envolve esse velho mundo. E o novo também. As antigas minas de estanho, tradicional riqueza boliviana, foram fechadas. Com elas sumiu a COB dos esquerdistas. Ou melhor, ela tenta se reciclar. Embarca no único movimento social que ainda sobra na Bolívia. A luta pela legalização total do cultivo da coca.
Narcotráfico venceu a “guerra das drogas”
O mundo perdeu a guerra contra o narcotráfico. De acordo com estatísticas da Organização das Nações Unidas, as máfias internacionais movimentam a cada ano pelo menos US$ 900 bilhões - soma equivalente ao dobro do PIB brasileiro. Com esse dinheiro, corrompem intelectuais, políticos, policiais, juízes e jornalistas. O número de consumidores só faz crescer, assim como a violência ligada ao comércio de drogas.
Também cresce, proporcionalmente, a área de cultivo de folha de coca, maconha ou papoula (da qual se extrai a heroína).
A constatação desse quadro geral levou o deputado colombiano Carlos Alonso Lucio a apresentar um projeto de legalização total das drogas. “Assim, continuaríamos a ter um grave drama de saúde pública, mas eliminaríamos o problema policial”, diz Alonso. O deputado apresentou seu projeto à Comissão de Luta contra o Crime Organizado do Parlamento Latino americano (Parlatino), em SP.
Sobre a Colômbia, Carlos Alonso diz que “o Estado perdeu a guerra contra as drogas em todas as frentes: não há redução da produção, nem no número de hectares cultivados com coca, papoula e maconha, nem diminuição do tráfico, nem do consumo, nem controle sobre a lavagem de dinheiro. E há um aumento descontrolado da violência gerada pelo comércio de drogas ilegais”. Entre 1987 e 1991, o número de homicídios na Colômbia disparou de 17.419 para 28.284. Parte das mortes, frisa o parlamentar, refere-se à luta contra as várias facções guerrilheiras de esquerda e a assassinatos políticos. “Mas não é possível estabelecer as fronteiras entre guerrilha e tráfico de drogas, e entre este e os assassinatos políticos”. Em defesa da tese da legalização das drogas, Carlos Alonso registra que, em 1992, a Direção Nacional de Estupefacientes (DNE) calculava haver em seu país 13.298 hectares cultivados com folha de coca, produzindo 106 toneladas de cocaína ao ano. Até 1995, a DNE garantia ter erradicado 25.402 hectares de cultivo. Mesmo assim, calcula-se que a área semeada cresceu muito e hoje atinge 45 mil hectares, produzindo 360 toneladas de cocaína/ano.
O caso da papoula é mais grave.
Importada da Ásia, a planta desenvolveu-se de forma extraordinária na Colômbia.
Segundo a DNE, em 1990 havia 2.028 hectares cobertos pela papoula no país. Naquele mesmo ano, o governo diz ter erradicado 83% dos cultivos. E em 1993, teriam sido eliminados 69% das plantas de papoula. De nada adiantou. Em 1994, o cálculo era de 20.274 hectares cultivados. A explicação era simples: enquanto uma arroba (15 quilos) de café representava para o produtor entre 8 e 10 mil pesos colombianos, o mesmo volume em papoula era uma garantia de 1,5 a 2 milhões de pesos.
O deputado colombiano diz que seu país gastou no ano passado 1,54% do PIB na luta contra as drogas. O maior projeto de assistência social do governo consumia 0,8% do PIB. Já os Estados Unidos dedicavam em 1992 cerca de US$ 11,7 bilhões ao combate às drogas. Apesar de todo o dinheiro gasto e do aumento constante da produção, praticamente estacionou a apreensão de drogas na América. Foram 276 toneladas em 1992, 244 toneladas no ano seguinte e 258 toneladas, em 1994.
Carlos Alonso conclui seu documento:
“A guerra só beneficiou a poucos.
Aos narcotraficantes, porque a ilegalidade das drogas permitiu-lhes acumular uma verdadeira fortuna; aos políticos corruptos, porque permitiu que se consolidassem no poder e, no caso de alguns, que enriquecessem com o dinheiro dos traficantes. Aos organismos policiais e militares que lutam contra as drogas, porque contam com orçamentos mais suculentos e com legislações nacionais e internacionais que lhes permitem atropelar mais facilmente as liberdades individuais. Aos fabricantes e traficantes de armas, pois as armas são ferramentas indispensáveis neste negócio. E a inúmeros bancos e instituições financeiras internacionais, que vêem aumentar ano a ano seus lucros devido à lavagem de narcodólares. Os milhões de consumidores de todos os países do mundo perderam essa guerra. Seu destino são drogas caras, adulteradas, abusos e perseguições. Sua sorte é similar à dos países produtores de substâncias ilícitas: instituições e economias desestabilizadas, enquanto as necessidades básicas dos cidadãos são cada vez menos  satisfeitas”.
Boletim Mundo Ano 4 n° 5

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