sábado, 5 de fevereiro de 2011

Democratas e republicanos jogam pá-de-cal no New Deal

É impossível considerar-se a conduta ordinária dos negócios nos Estados Unidos sem perceber que o desejo de ser reeleito domina o pensamento do presidente; que toda a política de sua administração tende para isso; que suas mínimas providências são subordinadas a esse objetivo; que, à medida que se aproxima o momento da crise, o interesse individual substitui, em seu espírito, o interesse geral. (...) Reelegível (e isso vale sobretudo hoje em dia, quando a moral se relaxa e as grandes personalidades desaparecem), o presidente dos Estados Unidos nada mais é do que dócil instrumento nas mãos da maioria. Ama o que ela ama, odeia o que ela odeia; precipita-se para adivinhar suas vontades, prevê suas queixas, inclina-se ante seus menores desejos.
(Alexis de Tocqueville, A democracia na América, 1835)
Quando a Convenção Republicana de San Diego indicou Jack Kemp, político ligado ao ex-presidente Reagan e velho rival de Bob Dole, como candidato a vice-presidente, os democratas apressaram-se em apontar a inconsistência doutrinária da chapa adversária. Um experiente assessor do Partido Republicano respondeu ironicamente que as tão comentadas diferenças entre Dole e Kemp são menores que aquelas entre Bill Clinton e Bill Clinton.
Há mais de um século e meio, Alexis de Tocqueville comentava os vícios criados pelo direito à reeleição presidencial na então jovem república americana, destacando as reviravoltas e a falta de princípios do presidente-candidato. Tocqueville espantava-se com o relaxamento moral das personalidades da sua época (essa parece ser uma percepção comum à nostalgia de todas as épocas), mas mesmo ele talvez considerasse Bill Clinton um tanto excessivo.
O presidente-candidato chegou à Casa Branca, em 1992, como um Novo Democrata, disposto a romper com o padrão de intervencionismo do Estado na economia tradicionalmente associado ao seu partido.
Nos primeiros meses, agiu como um Velho Democrata, disposto a expandir os gastos públicos para erguer um vasto programa federal de saúde. Depois da derrota do seu programa de saúde e do desastre nas eleições parlamentares de 1994, que deram aos republicanos o controle da Câmara e do Senado, Clinton renasceu como um Republicano Moderado. Os republicanos de verdade - moderados ou não - agora o acusam, com razão, de roubar as principais bandeiras do partido, dedicando-se a cortar gastos públicos e reduzir o Estado.
Porém, a personalidade volátil e oportunista de Clinton reflete apenas a superfície das transformações em curso. Bob Dole, célebre pela consistência dos seus princípios políticos, jogou no lixo, em San Diego, a plataforma que defendeu durante anos no Senado e partiu para a reta final da campanha propondo uma salada impossível, na qual se misturam cortes de impostos, manutenção de gastos sociais e equilíbrio orçamentário. As diferenças entre os dois grandes partidos se dissolvem na fumaça da campanha eleitoral, enquanto os candidatos, escravos dos desejos da maioria, “precipitam-se para adivinhar as suas vontades”. O fenômeno que está por trás dessa valsa eleitoral consiste na emergência de um novo consenso político bipartidário: o ciclo histórico do New Deal esgotou-se e o Estado americano deve se redefinir para enfrentar a globalização da economia mundial .
O New Deal, deflagrado pelo democrata Franklin Roosevelt em 1932, foi muito mais que um plano de obras públicas e investimentos estatais para gerar empregos e combater a Grande Depressão. Ele representou a argamassa de uma vasta coalizão - englobando industriais, sindicatos, agricultores e classes médias urbanas  que substituiu o liberalismo elitista dos anos 20 e edificou o Estado previdenciário americano do pós-guerra. A legislação social e política dos anos 60 - sintetizada no programa da Grande Sociedade do democrata Lyndon Johnson - que garantiu, no plano institucional, os direitos iguais para os negros, exprimiu a continuidade da coalizão do New Deal. O último fôlego dessa coalizão foi gasto nos projetos de “ação afirmativa” dos anos 70 e 80, destinados a impor, através de cotas e critérios de prioridades, o acesso das mulheres e minorias étnicas a universidades e a funções públicas.
Na década de 80, o “reaganismo” assinalou a maré montante de uma reação contra o Estado previdenciário. Mas a ortodoxia liberal emergente, sob Reagan, revelou-se mais eficiente no corte de impostos dos privilegiados que no corte dos gastos públicos. O orçamento militar revigorado, depois dos golpes sofridos pela derrota no Vietnã, acendeu o pavio do endividamento público, financiado por montanhas de títulos do governo lançados no mercado mundial. Nas eleições parlamentares de 1994, uma ortodoxia econômica mais rígida - expressa no “Contrato com a América”, a plataforma de campanha republicana - deu à maioria comandada pelo líder da Câmara, Newt Gingricht, um mandato direcionado contra os gastos sociais de previdência e saúde. A meta do equilíbrio orçamentário e o método da supressão dos direitos assistenciais dos pobres sintetizaram um novo consenso de Estado.
Nos últimos dois anos, Clinton entregou-se à tarefa de converter o seu partido ao consenso liberal dominante, enrolando-se na bandeira da redução do Estado e dourando-a com a moderação que falta às hordas republicanas do Congresso.
Moderação no varejo, radicalismo no atacado. O presidente-candidato, com o apoio dos republicanos do Congresso, passou há dois meses a nova legislação de assistência social, que corta auxílios a imigrantes legais, mães solteiras e idosos e provocou reações indignadas entre importantes lideranças do Partido Democrata. Na sua mais recente encarnação, Clinton persegue a posição de vetor político do ciclo histórico que se inicia e da aliança de interesses que toma o lugar da coalizão social do New Deal. É a mesma posição perseguida, a partir de outro lugar, pelo desafiante republicano Bob Dole.
A coalizão do NewDeal foi, por seis décadas, a fonte do equilíbrio social e da estabilidade política bipartidária dos Estados Unidos. Ela evitou o alargamento exagerado do fosso que separa os ricos dos pobres, integrou à sociedade de consumo a maior parte das minorias étnicas e dos imigrantes do pós-guerra e modernizou as regiões atrasadas do território americano. A aliança de interesses que a substitui promete uma sociedade mais cruel e muito menos estável.
Boletim Mundo Ano 4 n° 5

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