sábado, 5 de fevereiro de 2011

Tese do declínio perde terreno

Demétrio Magnoli
A nossa é uma época ingrata para os profetas. Em 1988, o historiador americano Paul Kennedy publicou uma obra de impacto intitulada Ascensão e queda das grandes potências que enfatizava, depois de comentar os impasses do Estado soviético: “Isso não significa que a União Soviética esteja à beira do colapso...”. Hoje, todos  sabemos que os golpistas de agosto e o Yeltsin de dezembro de 1991 não se impressionaram com a advertência do estudioso quando implodiram a União Soviética.
Mas o que conferiu ressonância mundial à obra de Kennedy foi a sua tese central, que consistia numa explicação do declínio das grandes potências pelas pressões que a expansão da influência geopolítica exercem sobre o substrato econômico, exaurindo por dentro as fontes do poder. Cavalgando essa idéia solitária e aplicando-a para os fenômenos de decadência dos Habsburgo, da derrota da França napoleônica e da lenta dissolução do Império Britânico, o autor ajustava a mira para o verdadeiro alvo - a hegemonia dos Estados Unidos no século XX.
Kennedy não estava sendo original, pelo menos na sua conclusão. Ele apenas fornecia uma teoria da história das potências para alicerçar aquilo que era quase um lugar comum dos anos 70 e 80: a noção da inevitável substituição do poderio mundial dos Estados Unidos, corroído pela doença senil do reumatismo econômico. Pois, no fim das contas, uma única geração tinha assistido à ruptura da liga mágica entre o dólar e o ouro, em 1973, e à acumulação de um déficit público monstruoso durante o primeiro governo Reagan (1980-84). A mesma geração deslumbrava-se com a ascensão japonesa, puxada por tecnologias industriais revolucionárias e por saldos comerciais exorbitantes, e com a marcha triunfante da integração européia. A “tese do declinismo” sublinhava a disparidade entre as altas taxas de crescimento do Japão e das principais economias européias, de um lado, e o andar cansado dos Estados Unidos, nas décadas do pós-guerra.
Com freqüência, ambiciosas teorias sobre a história são vítimas de percepções geradas pelas conjunturas de curto prazo. Se há menos de dez anos era de praxe prever o “inevitável” declínio americano, hoje - após cinco anos de expansão econômica ininterrupta dos Estados Unidos e quatro de recessão no Japão e Alemanha - entrou na moda dizer o contrário. Uma perspectiva de prazo mais longo permite enxergar a cordilheira que se descortina atrás do seu cume mais elevado: a verdadeira corrida pela hegemonia econômica não está terminando, mas acaba de começar.
Nas décadas do pós-guerra, as economias européias e o Japão cresceram mais rápido que a dos Estados Unidos porque se encontravam em reconstrução, e partiam de um patamar muito mais baixo. Os anos 90 assinalam o encerramento desse ciclo: as economias maduras, reconstruídas, passam a crescer em ritmo mais lento, semelhante ao dos Estados Unidos (v. o gráfico). As potências econômicas ingressam na globalização em condições de relativa igualdade, do ponto de vista dos progressos na produtividade industrial.
Não é fácil sustentar a “tese do declinismo”. Os Estados Unidos continuam a dispor de vantagens apreciáveis sobre, por exemplo, o Japão e a Alemanha. Uma delas é a dimensão do seu mercado interno e as potencialidades da extensão do seu território. Outra, é a capacidade de subsidiar a inovação tecnológica aeroespacial e microeletrônica por meio do orçamento militar. Finalmente, há a flexibilidade do seu mercado de trabalho, que fornece mão de obra a custos inferiores aos dos concorrentes.
Mas a liderança americana não será nunca mais o que foi no pós- guerra, e as fraquezas relativas da sua economia também podem ser identificadas.
A maior delas tem raízes mais sociais que econômicas: a crescente disparidade entre ricos e pobres.
Esse abismo que se aprofunda há mais de duas décadas constitui uma ameaça à estabilidade social e política da nação. Do seu interior, pode emergir um país dividido em guetos raciais e culturais rancorosos, descosturando o heterogêneo tecido social  americano .
Boletim Mundo Ano 4 n° 5

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