No México,na Colômbia e no Peru, grupos como EZLN, EPR, MRTA, Tupac Amaru e Sendero Luminoso assustam investidores e desgastam governos
Newton Carlos
Quando, no ano passado, surgiu um novogrupo guerrilheiro no México - o Exército Popular Revolucionário (EPR) - em condições de atacar em várias frentes e de derrubar as bolsas de valores do país, a Latin American Newsletter disse que existiam no mínimo “indícios” de que a insurreição armada não acabara na América Latina. O EPR entrou em cena executando ações em seis pontos diferentes, perto da capital e em balneários turísticos que faturam seis bilhões de dólares por ano, e foi considerado ameaça mais séria do que o levante zapatista de janeiro de 1994. Era um novo lance de ressurreição da guerrilha urbana.
Com a operação espetacular do Movimento Revolucionário Tupac Amaru (MRTA), de ocupação da residência do embaixador do Japão no Peru, qualquer dúvida que ainda existisse desapareceu.
Eventual tomada de poder por parte de siglas comoo EPR ou o MRTA é hipótese mais do que remota, até mesmo impensável, mas o fato é que a luta armada continua vigente na América Latina, joga como um fator de instabilidade e pode produzir grandes estragos. “A guerrilha pós- Guerra Fria se caracteriza pela confissão de que não quer o poder, mas desgastar quem o ocupa e, nesse sentido, é bem sucedida”, diz um veterano conhecedor do assunto, o argentino Rogélio Garcia Lupo.
O zapatismo mexicano, por exemplo, embora com reduzido poder militar, alicerçado não tanto em armas, mas numa mobilização de camponeses sem precedentes e na “consciência social” de seus militantes, “revitaliza o velho conceito da guerra prolongada”.
O Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN) aposta que terá mais tenacidade do que o outro lado e irá conseguindo concessões progressivas.
Em fevereiro de 1996, assinou com o governo do México acordo sobre culturas e direitos indígenas.
Sete meses depois foram rompidas as negociações sobre implementação de cláusulas, mas a guerrilha não desistiu. Pressiona exigindo a retomada do diálogo, de armas nas mãos sobretudo para enfrentar o cerco do Exército mexicano, não para atacar.
O EZLN, como fator de instabilidade da “ordem reinante”, mostra disposição declarada de lutar “contra o continuado aumento da pobreza e o neoliberalismo”.
O impacto dessa organização pode ser avaliado pela preocupação de um grande banco dos Estados Unidos em mandar memorando às autoridades mexicanas pedindo a sua eliminação, para “acalmar investidores”. O EPR teve ampla presença na mídia americana - foi capa da Newsweek. Ele se revela remanescente da guerrilha urbana cheio de energia e cumpre à risca o velho ritual de retirar-se, depois de golpear, para refúgios nas cidades e arredores.
“Não se sabe quanto tempo durarão esses recolhimentos”, escreveu um jornal mexicano, assumindo a sensação de que o país está sentado num barril de pólvora.
O Washington Post falou da “disseminada disparidade entre ricos e pobres no México”, irmanando as origens das guerrilhas de ontem e de hoje.
Pobreza e desigualdades sociais foram o pano de fundo da luta armada iniciada nos anos 60, quando se instalaram grupos guerrilheiros ainda hoje atuantes na Colômbia, onde continua vivo o mais velho guerrilheiro do mundo, conhecido como “Tiro Fijo”.
Esses grupos, dizem os especialistas, sofreram “metamorfose ideológica”, se mesclaram com o narcotráfico, mas permanecem partes da “mentalidade de crise” colombiana. Um dos maiores investidores estrangeiros na Colômbia e uma das maiores empresas de petróleo do mundo, a British Petroleum, associou-se ao Ministério da Defesa colombiano e financia batalhões inteiros do Exército em troca de proteção.
A British Petroleum paga ao Exército colombiano “imposto de guerra” de 1,25 dólar por barril de petróleo, para financiar operações anti-guerrilheiras.
Firmou contrato de três anos com o Ministério da Defesa no valor de 60 milhões de dólares. Com esse dinheiro será criado um batalhão com 150 oficiais e 500 soldados, incluindo unidade móvel de elite para “monitoramento” da construção de oleoduto de 880 quilômetros, do pé dos Andes à costa do Caribe. A título de “colaboração”, os militares colombianos receberão outros oito milhões de dólares.
Diante de denúncias, levadas ao Parlamento europeu, de incursão em áreas de violações dos direitos humanos, a empresa admitiu que não tem como controlar o uso desse dinheiro.
No Peru, onde foi eclipsado pelo impacto publicitário conseguido pelo Tupac Amaru, o que faz o Sendero Luminoso? Analistas afirmam que continua sendo ameaça maior. “O perigo que representa é tal que impede qualquer acordo entre o Tupac Amaru e o governo envolvendo a libertação de presos”, diz o senderista Carlos Reyna. Segundo Reyna, Fujimori está convencido de que, em caso de acordo, o Sendero faria o mesmo, sairia à cata de reféns para libertar os seus. Outro senderista, José Bailleti escreve que o Sendero mudou de objetivos e métodos, optou pelo “low profile” com o objetivo de recuperar- se das deserções maciças depois da queda, em 1992, de Abimael Guzman, criador do grupo, e decretação da lei do arrependimento, dando perdão a quem se rende.
Carlos Tapia, também especialista, garante que o Sendero mantém presença permanente na selva central e continua se beneficiando financeiramente da proteção que “vende” aos narcotraficantes. Há ainda sinais de que o Tupac Amaru não está imobilizado.
A oito de março militantes seus foram presos em Pasco, onde preparavam ataque a um quartel do Exército. “O rigor antipopular do programa neoliberal de Fujimori aumenta o desemprego e gera mal-estar em áreas urbanas marginalizadas, onde o Sendero trata de entrar, enquanto a polícia fica de olho no Tupac Amaru”, declara Tapia.
O pesquisador mexicano Carlos Maria Vilas considera que não há guerrilhas pré e pós- Guerra Fria.
Elas surgiram “em resposta a duas situações básicas, de sistemas políticos ditatoriais ou fraudulentos e de iniqüidade sociais e pobreza”. A primeira causa “está mais ou menos superada, mas não a segunda: enquanto a democracia eleitoral não for eficaz na solução dos problemas básicos das pessoas, a questão continuará em aberto”. Essa guerrilha itinerante na América Latina já matou meio milhão e deslocou pelo menos três milhões, entre refugiados internos e exilados.
Boletim Mundo Ano 5 n° 2
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