As duas rotas que ligaram o Ocidente ao Oriente retornam aos seus donos - respectivamente, a China continental (comunista) e o Panamá
Em 1997, dois baluartes da expansão dos impérios marítimos retornarão aos seus donos originais: Hong Kong e o Canal do Panamá. A colônia britânica no Mar da China Meridional passará à soberania da China Popular. O canal oceânico no istmo centro-americano passará à administração panamenha, como etapa para a completa devolução em 1999.
A Hong Kong britânica nasceu da Guerra do Ópio (1839-42). Derrotados, os chineses foram obrigados a ceder a Londres uma ilha na foz do rio Sikiang. Pouco mais tarde, a península de Kowloon foi anexada à ilha e, em 1898, os britânicos obtiveram uma concessão de 99 anos sobre os chamados Novos Territórios, nas cercanias da península, que perfazem 90% da superfície de Hong Kong.
O Canal do Panamá americano nasceu junto com a Política do Big Stic k. A recusa do Senado colombiano em ratificar um tratado que permitiria a Washington construir e usufruir da soberania sobre um canal oceânico foi respondida com o estímulo direto à secessão da região ístmica da Colômbia. Em 1904, o país que surgiu da separação - o Panamá - assinou o tratado de “cessão perpétua” da Zona do Canal e as obras foram iniciadas, concluindo-se em 1914.
A Colônia da Coroa e o Canal dos ianques cumpriram funções similares, num mundo que atravessava a euforia do comércio internacional - ambos foram rotas de uma fase áurea da globalização. Hong Kong funcionou como ponte entre a China e a Europa, envolvendo o Extremo Oriente nos circuitos econômicos comandados pelo Ocidente. De uns poucos pescadores em 1841, o território pulou para 300 mil habitantes no final do século e 1,6 milhão em 1940. Hoje, abriga quase 6 milhões e ostenta PIB per capita superior ao de países da Europa Ocidental. O Canal do Panamá surgiu como ligação marítima entre as costas leste e oeste dos Estados Unidos, integrando os fluxos daquele que já tinha se tornado o maior mercado nacional do planeta.
Com o tempo, tornou-se a principal rota entre o leste americano e os mercados da Ásia e do Pacífico, para finalmente transformar-se na grande rota das exportações japonesas e dos Tigres Asiáticos para o Ocidente.
A devolução das duas rotas não tem o mesmo significado. A importância de Hong Kong jamais foi tão grande quanto nesse final de século e a passagem à soberania chinesa cobre a colônia com uma nuvem de incertezas. A importância do Canal do Panamá reduziu-se paulatinamente, e a passagem ao controle panamenho representa pouco mais que uma troca de guarda.
Hong Kong é uma cidade-mundial . É, acima de tudo, a porta de entrada dos investimentos internacionais na China, que cresce, há meia década, a taxas de quase 10% ao ano. Nem o mundo dos negócios nem a China dos neo-comunistas querem assistir ao declínio da cidade rota.
Mas há o imponderável. O tratado de devolução assegura a manutenção das normas econômicas de Hong Kong, mas não das suas liberdades políticas. Pequim não pode conviver com a democracia na Hong Kong incorporada, pois teme o poder de contágio desse vírus. Parte da população de Hong Kong não parece disposta a aceitar o ferrolho dos mandarins vermelhos. O declínio é uma possibilidade real, mesmo contrariando a vontade dos dois lados.
O Canal do Panamá é uma passagem congestionada, com seus atuais 12 mil navios/ano. Os super petroleiros e mega graneleiros de hoje já circunavegam a América do Sul. Cogita-se de um novo canal, na parte nicaragüense do istmo, ou de um “canal seco” que integre ferrovia, oleoduto e navios. Além do mais, desde a invasão americana de 1989, Washington manda diretamente no governo do Panamá.
Quando se tem o todo, para que vai se querer a parte?
Boletim Mundo Ano 4 n° 6
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