Na Irlanda, na Bósnia e na Palestina, a divisão do espaço geográfico virou sinônimo de fronts de guerra
O que há de semelhante entre o Ulster, a Palestina e a Bósnia? Todas essas regiões têm sido, há algum tempo, focos de tensão geopolítica, onde se chocam interesses étnicos, nacionais e religiosos.
No caso do Ulster, também conhecido como Irlanda do Norte, o que chama a atenção é o antagonismo religioso. Lá, a maioria da população é protestante e deseja continuar sendo parte integrante do Reino Unido. Todavia, existe uma minoria católica (cerca de 35% da população) que quer se livrar da tutela de Londres e unir o Ulster à Irlanda do Sul, ou Eire, onde a maioria da população é católica .
A rivalidade entre os dois grupos religiosos é muito antiga e uma parcela dos católicos sustenta o IRA (Exército Republicano Irlandês) que, ao longo de décadas, fez do terrorismo o eixo da sua estratégia política.
Os atos praticados pelo IRA e a conseqüente reação britânica (apoiada pelos protestantes),transformaram o Ulster numa das mais importantes e permanentes áreas de tensão na Europa Ocidental. As iniciativas políticas e diplomáticas para solucionar o conflito, esboçadas em setembro de 1994, tiveram até hoje pouco efeito prático.
Já na Palestina, região geográfica onde se situa atualmente o Estado de Israel, os confrontos se verificam entre judeus e palestinos, especialmente na Faixa de Gaza e Cisjordânia. Esses dois territórios, habitados majoritariamente por palestinos, foram conquistados por Israel na Guerra dos Seis Dias, em 1967. De lá para cá, os vários governos israelenses estimularam a implantação de colônias de população judaica nos territórios palestinos, acirrando os ânimos entre as duas comunidades e multiplicando os obstáculos a uma paz negociada.
As novas condições internacionais geradas pelo fim da Guerra Fria e pelo desfecho da Guerra do Golfo, em 1991, possibilitaram a assinatura de um histórico acordo entre o governo de Israel e a Organização Para a Libertação da Palestina (OLP), em setembro de 1993. Neste acordo, previa-se a instalação de um regime de autonomia limitada para os palestinos na Faixa de Gaza e na cidade de Jericó, situada na Cisjordânia. Dois anos depois, em setembro de 1995, um novo acordo fixava a meta da extensão gradual da autonomia para outras importantes cidades da Cisjordânia. Contudo, as eleições realizadas em Israel, em maio passado, reconduziram ao poder o Likud, partido expansionista e avesso ao diálogo com a OLP. O novo rumo político indicado pelas eleições gera enormes incertezas quanto ao futuro do processo de paz na região.
Por fim, a Bósnia continua sendo um local de tragédias intermináveis. Essa república da antiga Iugoslávia se constitui num verdadeiro mosaico de povos, onde se destacam os muçulmanos (43% da população sérvios (32%) e croatas (17%), grupos que se envolveram numa sangrenta guerra civil que durou de 1992 a 1995. No segundo semestre de 1995, o governo dos Estados Unidos tomou a iniciativa de reunir na cidade de Dayton representantes das etnias em conflito além de autoridades dos governos da Sérvia e da Croácia. O acordo de Dayton definia que a Bósnia se tornaria uma confederação de duas entidades autônomas a Federação Muçulmano-Croata, controlando 51% do território, e a República Sérvia de Srpska, com os 49% restantes.
Embora tentando preservar a Bósnia como um Estado único, os acordos de Dayton podem legitimar os ganhos territoriais obtidos através da limpeza étnica e cristalizar a divisão efetiva do país em zonas etnicamente homogêneas.
Boletim Mundo Ano 4 n° 6
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