Nelson Bacic Olic
O planeta possui 214 grandes bacias hidrográficas, 75% das quais são partilhadas por dois países; as 25% restantes, por grupos de 3 até 10 países. A bacia hidrográfica do rio Nilo se enquadra neste último caso: as águas do rio principal e de seus afluentes cortam sete países da porção nordeste oriental da África - Burundi, Ruanda, Uganda, Quênia, Etiópia, Sudão e Egito (v. o mapa). O Nilo nasce de um pequeno curso d’água no Burundi; depois de percorrer 6.700 km, lança suas águas no litoral mediterrâneo do Egito, onde forma um grande delta.
Em todos os países com terras drenadas pelos rios da bacia, ocorrem ou ocorreram num passado recente conflitos internos, guerras separatistas ou tensões de fronteiras. Uma guerra civil em Ruanda e Burundi, por exemplo, causou milhões de vítimas nos últimos dois anos. Os conflitos separatistas na Etiópia, que se arrastaram por décadas, resultaram no início dos anos 90 na formação de um novo país, a Eritréia. No Sudão e no Egito, os problemas são mais complexos.
No Sudão, existe uma nítida diferença natural e geopolítica entre as regiões norte e sul do país. A parte sul, com características marcadamente tropicais, é habitada por populações negras cristianizadas ou animistas. No norte, árido e semi-árido, predominam populações de origem árabe e que professam a religião islâmica. Essa fronteira, não traçada pelo colonialismo, tem sido há décadas foco de tensões. Fora isso, vez por outra o governo do Sudão é acusado de ajudar grupos fundamentalistas egípcios, como a Irmandade Muçulmana, que pretendem derrubar o governo do Egito, qualificado como subserviente aos interesses dos EUA.
Para o Egito, que depende em 100% do Nilo, a escassez de água já é uma realidade. Em 1972, um habitante do país consumia 1.600 m3 de água por ano; em 1992, essa cota baixou para 1.200 m3 e, estima-se que, para o ano 2000, a disponibilidade de água por habitante não deverá ultrapassar os 800 m3. Em um país onde o crescimento demográfico tem se mantido alto, os dados são preocupantes. Uma grave crise no Egito teria reflexos em todo o Oriente Médio. Portanto, além de equacionar suas relações com o Sudão e neutralizar a ação dos fundamentalistas internos, o Egito cada vez mais terá que administrar a angustiante questão da escassez de água.
Boletim Mundo Ano 4 n° 5
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