quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Diário de Viagem- Otimismo, medo e ódio no verão inglês

Marcelo Tamada
Quando cheguei a Londres, uma das coisas que me chamou a atenção foi a sujeira do metrô da cidade.
Os ingleses costumam fazer lanches rápidos durante a viagem e não hesitam em jogar no chão embalagens,  papéis, latas de cervejas.
Reparando melhor, percebi que inexistiam, nos vagões e nas plataformas, cestos de lixo. Mesmo que não quisesse, o usuário do metrô não teria outra  alternativa a não ser jogar o lixo no chão.
Conversando com um amigo inglês, comentei que os metrôs londrinos são muito sujos, mas justifiquei em seguida - não há cestos de lixo nas estações. A explicação foi rápida: terrorismo.
Os cestos de lixo eram um esconderijo perfeito para bombas, e a probabilidade de um atentado ser bem sucedido aumentava.
O inglês convive com uma obsessão pelo terrorismo, e o IRA (Exército Republicano Irlandês) é quase um sinônimo de atentados, bombas, vítimas para a população inglesa. O conflito entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte é histórico e ainda hoje gera polêmicas e controvérsias, manifestadas em fatos corriqueiros. No dia 22 de junho, por exemplo, a princesa Diana levou seus dois filhos para assistir ao filme “Devil’s Own” (O Filho do Demônio), com Harrison Ford e Brad Pitt. Foi um escândalo, por dois motivos. Primeiro, o príncipe Harry tinha apenas 12 anos e a censura era para maiores de 15 anos - Diana forçara sua entrada. Segundo, o filme escolhido é considerado pelos ingleses como pró-IRA. Os jornais britânicos criticaram a princesa por ter levado seus filhos a esse filme e lembraram que o tio preferido do príncipe Charles, Lorde Mountbatten, foi assassinado pelo IRA em 1979.
O assunto foi manchete em vários jornais britânicos A solução da questão da Irlanda do Norte é mais um problema para o novo primeiro-ministro Tony Blair, eleito após 18 anos de governo conservador.
Líder dos trabalhistas, Tony Blair foi o principal responsável pela reformulação do seu partido: afastou-se dos sindicatos, forças que tradicionalmente apoiavam a agremiação, tornou-se mais acessível à classe média e vendeu uma imagem de mudança.
Blair fundou o que ele mesmo batizou de “Novo Trabalhismo”.
Eleito, cabe a ele administrar os interesses do seu país em relação à União Européia, um assunto delicado e que divide a população. Todos concordam que a quebra das fronteiras econômicas pode ser benéfica, mas muitos países resistem aos ajustes necessários para viabilizar a unificação européia. Por trás dessa resistência, há o medo dos países de perderem sua soberania nacional. Para definir coisas simples como o horário de verão deste ano - todos os países adiantariam em uma hora seu relógio - foi difícil conseguir um consenso. Imagine problemas mais sérios e que envolvem interesses maiores.
Nos últimos meses, a Grã-Bretanha respira um ar de otimismo.
Logo após a conquista do Torneio da França, o jornal The Guardian fez uma chamada perguntando: “Será que nos tornamos um país de vencedores ?”. Na matéria, ele citava a ascensão de Tony Blair no cenário político europeu, a vitória no Torneio da França pela seleção inglesa de futebol, a turnê das Spice Girls pelos Estados Unidos (um conjunto de cinco garotas que é considerado o maior fenômeno musical do momento), o campeonato mundial de F-1, por Damon Hill, as premiações do filme “O Paciente Inglês” no Oscar deste ano.
Brincadeiras à parte, Tony Blair ainda tem muitos desafios. A taxa de desemprego é alta, mesmo tendo a economia britânica melhorado nos últimos anos, sob o governo conservador.
Os benefícios sociais representam um custo alto (o desempregado tem direito a uma ajuda de custo, moradia...), mas foram uma das plataformas da campanha eleitoral e cortá-los seria uma atitude extremamente anti- popular.
Analistas políticos entendem que as vitórias eleitorais de Tony Blair, na Grã-Bretanha, e Lionel Jospin, na França, indicam que os europeus estão mais preocupados em garantir os benefícios sociais já conquistados e não estão dispostos a fazer sacrifícios pessoais pela unificação européia.
Tantos benefícios e direitos assegurados aos cidadãos europeus estão formentando um clima propício para demonstrações de xenofobia, ou seja, aversão aos estrangeiros, principalmente os oriundos de países do Terceiro Mundo. Como no caso de José Tadeu dos Santos, um brasileiro que recebeu grande destaque na imprensa britânica, em abril.
José Tadeu é um percussionista que estava em situação ilegal no país. Ele chegou a ser preso, mas como estava muito debilitado pela Aids, não pôde ser deportado. Na edição do dia 14 de abril, o jornal Evening Standard acusou o brasileiro de receber benefícios concedidos aos aidéticos (que ele não poderia receber por ser um imigrante ilegal), totalizando um custo aos cofres ingleses de mais de 250 mil libras (cerca de 425 mil dólares). A matéria levantou uma série de suposições sobre a vida particular de José Tadeu, chegando a afirmar que ele estaria disseminando o vírus da Aids pela cidade.
Negro, oriundo de uma família pobre da Bahia, José Tadeu veio a Londres visitar sua namorada.
Mesmo após ter terminado o relacionamento, ele permaneceu ilegalmente no país, vivendo de shows.
No jornal, ele é caracterizado como um vagabundo, que ficava tocando música e fumando maconha o dia inteiro. A repercussão da matéria foi grande. O ex-presidente do Partido .
Conservador, Norman Tebbit, escreveu no tablóide sensacionalista The Sun: “Não sustentamos apenas os sanguessugas europeus, mas agora pagamos também pelos vagabundos sul-americanos”. E convidava o percussionista a nadar de volta ao Brasil, afirmando: “Você já sugou esse país por muito tempo”. Mas não por muito mais tempo. José Tadeu morreu no último dia 22 de junho, num hospital em Londres.
Boletim Mundo Ano 4 n° 4

Nenhum comentário:

Postar um comentário