quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Rede de intrigas

Conferência de 49 Estados francófonos sobre infovias, realizada em maio, no Canadá, revela as tensões geopolíticas na rede mundial de computadores
Em 1996, os consumidores americanos compraram mais computadores do que televisores e outros eletrodomésticos.
Este resultado, de óbvia dimensão histórica (os Estados Unidos, no fim das contas, são a ‘‘pátria da televisão’’), reflete a crescente importância da Internet: cada vez mais, a rede mundial prova-se indispensável às universidades, aos negócios, afazeres cotidianos e lazer.
A juventude representa o setor que mais utiliza a rede. Uma pesquisa realizada nos Estados Unidos, em abril de 1997, mostrou que cerca de 98% dos jovens americanos gastam, em média, 4,4 horas por semana diante do computador. Deste total, 46% de jovens de baixa renda e 67% de famílias mais ricas usam sempre a Internet para enviar mensagens, fazer pesquisas escolares e “navegar” com objetivos não acadêmicos.
A Internet tem um grande impacto cultural e político. Cerca de 100 milhões de pessoas, em todo o mundo, estão conectadas à rede e podem, em tese, trocar todo tipo de experiência, pagando o preço de uma chamada telefônica local. Este novo cenário tecnológico gerou (e continua gerando) infindáveis discussões entre filósofos, historiadores, críticos da cultura e políticos. Para muitos, a Internet é um ambiente tecnológico que criou, finalmente, a “aldeia global” anunciada, nos anos 60, pelo teórico da comunicação Marshall McLuhan. Nesse ambiente, não existiriam mais fronteiras nacionais e as trocas culturais seriam democraticamente estimuladas.
Outros, adotando uma visão  diametralmente oposta, acreditam que a Internet dissolve as manifestações culturais regionais, criando um mundo monótono, homogêneo e sob a hegemonia dos Estados Unidos (o chamado “mundo McDonald’s”). Além disso, a Internet não é integralmente gratuita. Ao contrário, o acesso à rede exige, no mínimo, a utilização de um computador e de uma rede telefônica, operação que tem um custo proibitivo para a imensa maioria dos habitantes do planeta. Assim, a Internet seria uma comunidade virtual dos “privilegiados” perpetuando uma situação de desigualdade social.
Mas, para além das implicações mais profundas de ordem cultural e filosófica, a Internet criou, de fato, uma questão mundial no âmbito financeiro, econômico e geopolítico. A disseminação do idioma inglês carrega, junto com ela, toda uma concepção de mundo, além de produtos anunciados na língua de Tio Sam. Se quisermos fazer um paralelo, basta analisar a importância que teve Hollywood, no século XX, como fonte disseminadora do ideal de felicidade representado pelo “american dream”, ou ainda como instrumento de propaganda política, especialmente à época da Segunda Guerra Mundial.
A discussão tende a se agravar com a criação das infovias privatizadas: grandes corporações americanas, como a Procter & Gamble, já manifestaram a intenção de construir redes que oferecem muito mais recursos, mas totalmente controladas pelo capital privado.
Essas redes tornariam a atual Internet algo obsoleto, atraindo anunciantes e consumidores que hoje sustentam os provedores. Em outros termos, a intervenção do capital privado ameaça estrangular a Internet pública, tal como existe hoje.
Em outros casos, são os Estados, como a China comunista, que estão criando suas próprias redes, como forma de censurar o livre intercâmbio de informações, assegurando para si o papel de único e intransferível provedor.
Os chineses só terão acesso à Internet através de canais permitidos por Pequim e, portanto, sujeitos à censura oficial. Assim, é no mínimo nebuloso o futuro da Internet como um espaço virtual “democrático”.
Muitos acreditam que, mesmo hoje, de um ponto de vista geopolítico, a democracia na rede esteja comprometida pela ampla hegemonia americana, ainda que Washington não controle a rede. A relativa autonomia da Internet frente aos governos em países com certo grau de democracia, foi demonstrada justamente nos Estado Unidos, cujo governo não conseguiu, até agora, impor a censura, apesar de várias tentativas (todas barradas pela Justiça).
Mas o fantasma da “hegemonia americana” assusta países como a França, historicamente obcecada pelo  necessidade de reafirmar sua identidade nacional - alguns teóricos dizem, até, que a França gostaria de ser uma ilha, fisicamente isolada do continente europeu, tal como a Grã-Bretanha. Estimulados por Paris, os 49 países que pertencem à comunidade francófona realizaram, em maio, na cidade de Montreal, uma conferência para discutir estratégias em relação à sua participação na Internet.
Basta listar os itens abordados para entender o conteúdo das discussões:
1- perfil geopolítico;
2 – perfil lingüístico;
3 – infra estruturas telefônicas;
4 - política geral para as infovias e novos projetos.
 Nessa reunião, os representantes da França procuraram criar as bases para medidas que atenuem a penetração do idioma inglês e, com ela, a disseminação de uma estrutura não - francesa de serviços e ofertas de produtos. Não por acaso, Paris, há dois anos, tentou impor uma lei estipulando que na França o idioma da Internet seria o francês. É claro que a lei fracassou: ninguém consagra ou enterra um idioma por decreto.
A Internet acaba colocando questões novas e extremamente complicadas.
Neste sentido, são ilustrativas as tabelas lançadas pela conferência francófona e reproduzidas nesta página, procurando comparar a influência do idioma inglês na Internet, em relação ao francês e espanhol, assim como os diferentes ritmos de crescimento da rede em algumas regiões do mundo. É sintomática a preocupação da França com suas antigas colônias africanas, onde a presença americana ocupa, cada vez mais, os espaços deixados por aquilo que um dia foi o império francês.
Em qualquer hipótese, o sistema de infovias veio para ficar, mudando completamente a idéia de espaço geopolítico e cultural. A reação francesa é só a ponta do iceberg. E, que tenha partido da França, não surpreende ninguém.
Brasil já tem 500 mil usuários
Atualmente, mais de um milhão de pessoas, em toda a América Latina, estão conectadas à Internet, o meio de comunicação de massa que mais cresceu em 1996, segundo a agência especializada Nua (Internet Consultancy and Developer - http://www.nua.ie). O Brasil (que junto com o México e Chile têm as maiores redes do hemisfério) deu um grande salto entre 1995 e 1997: de alguns milhares de usuários, a maioria dos quais professores e estudantes universitários, a rede agrega, hoje, cerca de 500 mil associados. A má qualidade dos serviços telefônicos ainda é o maior obstáculo técnico à expansão da Internet no hemisfério. O Chile, onde os serviços de telefonia são considerados relativamente desenvolvidos, apresenta o maior índice de usuários per capita no hemisfério.
Um pouco de “internetês”
Endereço IP - Conjunto de quatro números (cada um deles entre 0 e 255), separado por pontos (por exemplo: 220.112.3.45). Cada conjunto define apenas um endereço na Internet. Como, em geral, cada computador está vinculado a apenas um servidor, é comum que um computador tenha só um endereço IP.
Home Page - É a página inicial de um host, sua “vitrine”, a página que mostra tudo o que o host tem a oferecer.
Host - Descreve determinado endereço na Internet (por exemplo: www.uol.com.br). Usualmente, é empregado como sinônimo de “endereço IP”, o que envolve certa confusão, já que o mesmo host pode ter vários endereços IP, assim como vários hosts podem ter apenas um endereço IP.
Internet - Rede de computadores ligados entre si por intermédio de servidores.
Os computadores se conectam com os servidores através de modems, ethernet cards ou outros dispositivos.
Modem - Peça do hardware que permite ao computador comunicar-se através de uma linha telefônica.
Servidor - É a máquina que conecta o seu computador à rede (no Brasil, são exemplos de servidores: Universo On Line, Mandic e IBM).
Web Site - Expressão ainda utilizada de forma muito vaga e imprecisa. Em geral, é um conjunto de páginas e documentos ligadas de maneira significativa ao mesmo host dentro da rede mundial (http://www.mit.edu/ people/mkgray/ e http://www.mit.edu/madlibs/, por exemplo, são parte do mesmo web site).
WWW - World Wide Wibe (rede mundial de computadores).
Boletim Mundo Ano 4 n° 4

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