No início de agosto, o Camboja voltou a ser manchete. A mídia internacional divulgou fotos de um senhor de feições asiáticas, grisalho, olhar abatido, que estava sendo “julgado” por crimes perpetrados quando, nos anos 70, era o principal dirigente do regime implantado no Camboja pelo movimento comunista do Khmer Vermelho.
O país fica na península da Indochina. Seu território, com cerca de 180 mil km2, é formado por uma planície fluvial drenada pelo rio Mekong, que atravessa a capital, Phnom Penh. As regiões mais acidentadas coincidem com as áreas de matas tropicais do norte e oeste. Cerca de 90% de seus 10 milhões de habitantes são da etnia khmer.
A história do Camboja foi marcada por intervenções externas e sangrentos conflitos internos. Em 1863, o país passou a fazer parte, junto com o Vietnã e o Laos, do império colonial francês na Indochina.
Durante a Segunda Guerra, a região foi ocupada pelo Japão. A retirada dos japoneses derrotados estimulou o movimento de independência, nucleado no Vietnã e dirigido pelos comunistas. Mas a independência só foi obtida após a derrota francesa na Guerra da Indochina (1945-54).
A história do Camboja independente se confunde, em grande parte, com a do príncipe Norodom Sihanuk, chefe de Estado entre 1955 e 1970. Sihanuk empenhou-se em preservar a neutralidade do país, numa Indochina atravessada pela rivalidade entre o Vietnã do Norte (comunista) e o Vietnã do Sul (capitalista) e sujeita às influências conflitantes de Washington, Moscou e Pequim. Político ardiloso, o príncipe manobrou o jogo de tal forma que, por muitos anos, evitou que o país se envolvesse de forma mais direta na Guerra do Vietnã (1960-75).
O ano de 1970 marcou uma reviravolta decisiva, com a ruptura do equilíbrio político construído por Sihanuk. Um golpe de estado comandado pelo general Lon Nol, articulado do exterior pelos Estados Unidos e pela Tailândia, derrubou a monarquia, acusada de favorecer os comunistas vietnamitas. Entre 1972 e 1973, a aviação americana bombardeou pesadamente o Camboja, procurando destruir as estradas e trilhas usadas pelo exército do Vietnã do Norte e pelos guerrilheiros comunistas do Vietnã do Sul (os vietcongues). Esses bombardeios causaram cerca de 500 mil vítimas fatais entre os cambojanos.
Sihanuk articulou então uma frente política contra o regime de Lon Nol, aliando-se ao agrupamento maoísta denominado Khmer Vermelho, que tinha em Pol Pot o seu líder. Aos poucos, o Khmer Vermelho se transformou na principal força militar do Camboja. Em 1972, controlava 65% do território do país e, em abril de 1975, sitiava e tomava a capital, pondo fim ao governo de Lon Nol. Mas o pesadelo do povo cambojano estava apenas começando.
Chegando ao poder, Pol Pot pôs em prática a utopia sangrenta do “comunismo agrário”, promovendo o esvaziamento forçado das cidades e deslocando milhões de residentes urbanos para áreas rurais. O terror do Khmer aboliu a propriedade privada e o dinheiro, fechou as escolas, proibiu a imprensa e os livros, dificultou ao máximo a circulação das pessoas e a troca de informações. Intelectuais ou apenas trabalhadores qualificados foram internados em campos de trabalhos forçados para “reeducação” e fuzilados aos milhares.
Nos seus três anos de poder, o regime do Khmer Vermelho deixou um saldo de mortos que gira, segundo estimativas moderadas, em torno de 1 milhão de pessoas. Em várias partes do país, as ossadas (principalmente crânios) dessas vítimas estão acumuladas em pilhas e expostas à visitação pública.
O terror foi encerrado em 1978. Após uma série de incidentes fronteiriços, tropas do Vietnã ocuparam o Camboja e, no início de 1979, instalaram um novo governo em Phnom Penh. Os vietnamitas impuseram a sua supremacia regional, agindo como intrumento da União Soviética, em detrimento da influência chinesa na Indochina. As forças derrotadas do Khmer Vermelho internaram-se nas selvas do noroeste cambojano, junto à fronteira da Tailândia, mantendo sob o seu poder uma fração do território . Nessa fase, os monarquistas de Sihanuk aliaram-se à guerrilha do Khmer Vermelho para combater as forças vietnamitas. Os Estados Unidos, discretamente, forneceram ajuda militar para Sihanuk e seus aliados maoístas.
Em 1989, no quadro de um acordo internacional mediado pela ONU, as forças vietnamitas se retiraram do Camboja, abrindo caminho para as eleições de 1993, cujos resultados “recriaram” a monarquia e reconduziram Sihanuk à chefia do Estado. O governo foi repartido entre Norodom Ranariddh, filho do velho príncipe, e Hun Sen, chefe do governo cambojano durante a ocupação vietnamita.
O “julgamento” de Pol Pot é o ponto de partida de um novo ciclo de instabilidade política no Camboja.
Enfraquecidos, os chefes do que restou do Khmer firmaram um acordo com Ranariddh que lhes permitiria retornar à vida política, engrossando a facção monarquista.
O preço do acordo consistiu no sacrifício de Pol Pot. A sua “condenação” à prisão perpétua, por um “tribunal revolucionário” composto por ex-companheiros, selaria a nova aliança .
O roteiro previsto por Sihanuk e Ranariddh foi interrompido pelo golpe de Estado de Hun Sen.
Diante do novo alinhamento de forças que se desenhava, o primeiro-ministro pró-vietnamita assumiu o controle integral do governo, provocou o exílio do colega monarquista e abriu um novo ciclo da antiga disputa de poder no Camboja.
Boletim Mundo Ano 4 n° 5
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