segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Entre o caos e a esperança na ilha de Fidel

Com exclusividade, o seguinte depoimento de Alejandro Tomás, pseudônimo de um veterano revolucionário que participou da guerrilha liderada por Fidel Castro e Che Guevara contra a ditadura de Fulgencio Baptista, em 1959. Tomás, residente em Havana, adotou o nome falso por razões de segurança.
o final de 1996, expirou outro dos tantos prazos fixados anualmente por politólogos e analistas ocidentais para que, a exemplo dos regimes marxistas europeus, o de Fidel Castro também sucumbisse. É verdade que a extinção do campo socialista abriu caminho para o hegemonismo e a unipolaridade, empurrando Cuba para o limiar do colapso. De um só golpe, a ilha rebelde perdeu 75% do seu comércio exterior, construído ao longo de 30 anos de relações multilaterias e única fonte de crédito e fornecimentos seguros - o apoio econômico, militar, tecnológico e diplomático que pareciam decisivos para contornar a pressão de Washington. A partir desta mudança, agravada pela Lei Torrichelli de embargo econômico, o austero mas crescente nível de vida alcançado entre 1985-89 se deteriorou completamente.
Analisando esta conjuntura, o mensário Cuban Review assinalava, em novembro de 1996: “O grupo familiar é o cenário onde se refletem e matizam as contradições derivadas das mudanças sociais ocorridas na Ilha.
Essas mudanças foram: a diversificação da propriedade econômica, pois junto com a estatal convivem a mista, a cooperativa e a privada; a abertura para os investimentos estrangeiros; a despenalização da posse de divisas pelos cubanos, o que gerou  desigualdades sociais entre os grupos que têm acesso ao dólar e os que não têm”. (...) “Tais transformações, ocorridas em tão poucos anos preocupam sociólogos e psicólogos”.
Não há setor social ou região do país que tenha escapado ao déficit de alimentos, roupas, calçados, remédios, eletricidade, transportes, bens de consumo. E, como conseqüência, pouco a pouco reapareceram  vícios que Revolução havia erradicado, como a prostituição. Além disso, ressurgem  a indisciplina no trabalho, o furto, a marginalidade em grupos sociais nos quais predomina tanto o culto ao dólar como a recusa em ganhá-lo com decoro. O trabalho como fonte de sobrevivência, o sacrifício pessoal e a solidariedade estão sendo erodidos pelos imperativos das necessidades cotidianas. Este quadro é o mais conhecido.
Porém, a ilha tem também outras verdades para contar. Em 1992, foram autorizados investimentos estrangeiros em Cuba. Naquele ano, três empresas assumiram o risco. Em 1996, já eram 625. Transplantes de órgãos, operações com laser e outras técnicas médicas avançadas continuam sendo gratuitos. Os aidéticos têm garantida a internação em sanatórios especiais e ajuda monetária estatal, se a necessitam. Em três zonas montanhosas foram criadas universidades agropecuárias, com matrículas exclusivas para camponeses que, quando graduados, são empregados na sua região. Em 1958, 70% da população ativa feminina era constituída por empregadas domésticas. Em 1996, mais de metade dos profissionais de saúde, cientistas e educadores são mulheres.
Segundo a Unicef, a mortalidade infantil entre zero e 5 anos é maior em Washington que em qualquer uma das 14 províncias de Cuba. A Unicef alerta ao mundo sobre a tragédia em que vivem 200 milhões de crianças que fazem trabalhos impróprios para a sua idade e vagam sem residência, família, escola, que se drogam, alcoolizam e morrem nas ruas. Por que será que nenhuma dessas crianças é cubana?
Boletim Mundo Ano 5 n° 2

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