domingo, 6 de fevereiro de 2011

Moderno e arcaico caminham juntos no Plano Real

Em dois anos, o plano de estabilização econômica aumentou o consumo popular e encaixou o Brasil na economia mundial, mas desindustrializou o país e ampliou o desemprego
Jayme Brener
O brasileiro adora torcer, escolher entre dois times, entre o mocinho e o bandido.
Mas com o Plano Real, não dá para agir como torcida de futebol, escolher ser contra ou a favor. A pintura é mais complexa, e está inacabada.
A primeira – e mais importante –conquista do plano foi derrubar a inflação.
O bicho-papão, que já chegara a 50% mensais, fechou em 20% para todo o ano de 1995 e deve cair para 15% anuais, até dezembro.
Ganhou a parcela mais pobre da população, que não tinha renda para utilizar aplicações bancárias, capazes de protegê-la um pouco da inflação. Segundo a mais recente Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (PNAD/IBGE), entre 1993 e 1995 o rendimento médio dos brasileiros mais pobres, maiores de dez anos de idade, subiu de R$ 24 para R$ 48 ao mês.
É muito pouco? Verdade. Mas é o dobro.
Se os 10% mais pobres ficavam em 1993 apenas com 0,7% da renda nacional, hoje absorvem 1,1%. E os 10% mais ricos, que engoliam 49,8% do bolo, terminaram 1995 com 28,2%.
O avanço pode parecer pequeno.
Mas foi suficiente para ampliar o número de brasileiros em condições de consumir.
Em dois anos, a porcentagem de casas com geladeiras cresceu de 71,7% para 74,8%.
São quatro milhões a mais. Havia, no ano passado, 15% de domicílios com freezers, contra 12% em 1993. Os preços de muitos  eletrodomésticos, entre eles as geladeiras, baixou, devido à oferta maior de marcas.
Efeito da globalização, outro sonho  dourado do Plano Real. Mas a estabilização econômica teve um papel decisivo no aumento do consumo, que foi ainda mais expressivo em se tratando de alimentos.
Não se pode, porém, julgar o plano com espírito de torcida. O governo não conseguiu resolver mazelas antigas do país.
A reforma agrária só caminha quando aumenta a pressão dos movimentos por terra.
Ou quando ocorre alguma chacina no campo, sempre acompanhada pela gritaria da opinião pública internacional. A impunidade continua reinando absoluta. Nos últimos dez anos, 881 pessoas morreram na luta pela terra no Brasil. Só três casos foram a julgamento e dois assassinos estão cumprindo pena.
Outro dado que a PNAD aponta é que o aumento do consumo não ocorre no mesmo ritmo da melhoria da infra estrutura fornecida pelo Estado. Entre 1993 e 1995, a porcentagem de lares com água encanada só cresceu de 75% para 76%. O serviço de esgoto foi de 59% para 60% das casas, um aumento quase vegetativo. Quer dizer, nessa fase de enxugamento de gastos públicos (o que não vale para os políticos aliados), o Estado não vem fazendo a sua parte para garantir um novo ciclo de desenvolvimento.
Mas o maior custo do Plano Real é o aumento do desemprego. A PNAD aponta um recuo da taxa de desemprego, de 6,8% para 6,1%, em 1995. Mas o número de desempregados deve crescer em 1996 porque, nos últimos 12 meses, a indústria paulista fechou 320 mil postos de trabalho.
Para onde vai essa gente toda ? Para o “mercado informal”, quase sempre, trabalhar sem direitos como o 13° salário ou férias remuneradas. A taxa de trabalhadores com carteira assinada caiu de 29% para 28,1% em dois anos.
Há quem diga que o quase desaparecimento de setores inteiros da indústria (autopeças, máquinas e brinquedos), revela a incompetência de muitos empresários em enfrentar a concorrência de chineses ou japoneses. Em parte, é certo. Muitos industriais nunca se preocuparam em investir, modernizar suas fábricas, porque os impostos altos sobre as importações evitavam a competição internacional. Hoje, se o Brasil deseja firmar-se na economia mundial, deve permitir o ingresso de produtos estrangeiros, ainda que sob determinadas condições. O problema é que há setores da indústria sendo sufocados pelas taxas altas de juros, que o governo usa para atrair investidores, enxugar a quantidade de dinheiro que circula, aumentar suas reservas em dólares e assim segurar a inflação e a paridade real/dólar.
O governo argumenta que, com a estabilidade, as taxas de juros vêm caindo.
É certo. Mas se um sujeito for a um banco em busca de um empréstimo para comprar uma máquina, ainda terá que pagar pelo menos 40% de juros anuais. Melhor então importar, já que os fabricantes estrangeiros oferecem financiamentos a 8% ou 10% de juros ao ano. Isso significa condenar setores importantes da indústria a morrer de inanição. Setores que seriam decisivos para que o Brasil, controlada a inflação, arrancasse rumo a uma nova fase de desenvolvimento econômico. Nos últimos meses, o governo até que vem adotando medidas de proteção à indústria. Impôs barreiras à importação de certos produtos, como os lápis e brinquedos chineses, que vinham arrebentando os concorrentes nacionais. Tudo com muito cuidado, para evitar represálias da comunidade internacional. Também reduziu impostos para os exportadores.
O jogo de interesses em torno do Plano Real foi explicitado no período eleitoral.
O governo e os partidos que o sustentam querem que os empresários apóiem seus candidatos e continuem funcionando como torcida de futebol, para dar uma força ao Plano Real. Só que, desde o início deste artigo, a idéia é escapar do raciocínio das torcidas. Fica então a pergunta: passadas as eleições, o governo e seu Plano Real terão ou não um plano consistente de combate ao desemprego? O Estado vai ou não ampliar seus gastos com serviços básicos e assistência social? No lado oposto, serão as oposições capazes de formular um plano econômico alternativo ao Real ? Conseguirão convencer-se de que a população considera o controle da inflação uma conquista importantíssima? Coisa para um novo artigo de balanço, talvez daqui a dois anos.
Boletim Mundo Ano 4 n° 6

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